A Garganta da Serpente
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Pilão de soca sebo

(Victor Tales)

- Milagre? - Sim claro, milagre! - Mas, dos divinos ou dos indivinos? - Dos dois tipo, milagre é milagre. - Então ocê toca no doente e ele desadoença? - Depende da doença, câncer e aidis não, pois é doença de quem tá pagando pecado. - Vôte, que coisa. - Se ocê passa pela minha sombra também fica curado, mas daí é cura prá mal menor, pois sombra não é muita coisa. - É mais barato? - Claro, tudo depende do mal, se é mal daqueles que sangra, cai pedaço, nasce pedaço, cegueira e dor de dente é mais caro; mas daí se for mal dos que resfria, mancha na pele, dor de cabeça, vizinho ruim e infertilidade o preço é menor. E tem também os mal, malzinho, coisa de precisamento pequeno: filho que fugiu, filho desandado do bom caminho e dor de corno é quase de graça.

Sala. Três cadeiras e uma mesinha. Nhô Pérê, na falta de nome melhor, se sentava na cadeira amarela, frente às cadeiras marrons. As cores não significavam nada era falta de cadeira mesmo. Nhô Pérê vestia uma camisa branca, uma bermuda do Corinthians e um chinelo de dedo com uma bandeirinha do Brasil. A bermuda de time era falta de roupa também. Ele torcia pro fluminense. Tinha corrente com medalha de São Jorge no pescoço, relógio CASSIO a prova d’água e segurava um santinho com uma foto do Adoniran Barbosa. Acima de nhô Pérê uma placa com letras azuis: “AQUI SE FABRICA MILAGRES”.

O Problema. – Nhô Pérê o meu é malzinho, fácil, eu preciso dum home. – Mas eu sou muito velho guria. – Vôte nhô Pérê, eu quero é que o senhô me faça um milagre prá pega home. – Ah! Um, ocê quê de que tipo, alemão batata ou neguinho? – Ah! Um, tanto faz, sendo home. Nhô Pérê tirou um vidrinho e entregou para menina. – Ocê tem que come esse alfenin cô açúca começando pelo primeiro dia que desce o xicô. – Ah! Um, nhô Pérê. – Achô ruim? – É tão fácil assim? – Melhor poção prá guria que quê amoita. – Tão tá. – Cinquenta pelo remédio. – Vôte! Nhô Pérê isso aqui é só melado de cana-de-açúca! – Ah! Um, ansi não dá certo, ocê tem que confia no nhô Pérê. – Mas tá. – De prenda leva esse tchá de amarra pinto, que é bom prá doença de fígado. – Txau. – Txau.

Môema. Chegou em casa. Observou o vidrinho com alfenin. Beber ou comer cru? Passar na xôxóta? Podia dar formiga, barata. – Que reiva, diabo de nhô

Pérê, to ressabida que esse tréco não funúnça. – Fîa ocê volto? – Voltei. – Traz uma água prá mãnhê e o remédio. – Tá. – Achô? – Achêi. – Achô mesmo? É esse azul da caixinha amarela. – Achêi mãnhê. – Achegá aqui no quarto então, vem adulá sua mãnhê. – Tá. – Como foi cô nhô Pérê? – Ele acêrto comigo que tem que toma um tréco aqui quando o xicô desce. – Confia nele fîa nhô Pérê de sabedoria, tem aúfa, não é baguerage não. – Sei. – Ocê vai casa fîa, um alemão batata lindo dos olhos azul. GULP! Mãnhê toma seu remédio azul.

Môema. Na dúvida, tomou, comeu e se lambuzou. Algumas formiguinhas vieram; era gostosinho. Preferia dos neguinhos, alemão batata era muito aguado. Sobrinha. – Môema ocê me empresta essa poção do nhô Pérê? – Vai peida n’água menina paguei caro pressa poção. – Enfia no grelo então!

Galo índio. Quase foi brô buque quando vivia em Rondonópolis. Dizem matou três e comeu dois. Clei. – O nome dele, parece home de fogo menina, fodedô de châpá. – Ele tá vendendo petxe lá nô pau baixo. – Negueinho ele, aúfa de bonito.

Corre, corre. – Clei, pau fedeu danado, tem um baguá que quê leva ocê prá catacumba. – Avestruz, guri! – To falando, tá dizendo ele que ocê catracô a prima nova dele. – Esse aranzé eu num quero vê. – Corre prá casa da tia Madalena, se esconde na alcova dela. – Já fui guri!

Madalena. – Tia ocê pode me dexá passa a noite aqui na sua alcova? – Pode sim fîo, pede prá Môema arruma sxua cama. O quarto era velho e úmido. Estava num budum de assusta alma penada, mas de ser capado e continua catracando prima nova. – Vôte Môema, que budum, tem jeito não? – Não. – Tá bão.

Catelin. Sobrinha. Doze anos, noventa e cinco quilos. Chamam de Mônhe. Não gosta de banho, diz quê. – O tchêiro forte espanta o pernilongo. Na sala de aula. Faz carinho na xôxóta e depois. – Gosto de tchêira, é azedinho. Gosta do primo Baltazar. – Ele é tão lindo! Noite. Roubou a poção de Môema esfregou na xôxóta ficou cheirando os dedinhos até pegar no sono.

- MÃNHÊ!AMÔNHEROBOAPOÇÃOQUEONHÔPÉRÊFEZPRAMIM! – Calma fîa, devagá cô andô, que ocê disse? – Mãnhê! A Mônhe robo a poção que o nhô Pérê fez pra mim! – Ah! Um, ela deve tê atchádo que era doce.

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