A Garganta da Serpente
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Nos subúrbios da demência

(Violeta Teixeira)

Escrever é um modo falsamente inofensivo de nos suicidarmos
AL BERTO

I

Bairro imundo, aquele, onde vive, à sós, num apartamento exíguo, de um mau gosto atroz, em risco iminente de extinção, alugado a um casal reformado e senil de professores do 1º ciclo, que habita umas águas-furtadas, dando para um praceta, como, aliás, aquele estúdio.

Ali, instalou o seu atelier de pintura e escultura, onde trabalha, com paixão, fazendo amiúde, pequenos intervalos, para a leitura, por vezes, de uma só estrofe de um poema, mas sempre regados de whisky ou de cerveja, e perfumados com o fumo de marijuana ou de um charuto.

À volta das vinte e trinta, sai para jantar numa espécie de taberna, onde, aliás, também costuma almoçar, taberna essa, frequentada, nas horas mais brancas da noite, por dealers, proxenetas, prostitutas, rufias, brigões e bêbados. Como nunca se deita cedo alonga as noites, convivendo, sem preconceitos, com todos aqueles seres marginais, que lhe excitam a imaginação boémia e artística, ao contrário do bairro elitista que tinha habitado durante vinte e dois anos, enquanto vivera aprisionado, não sabia explicar por que motivos, por um casamento, desde o início fracassado.

Ali, onde decidira, residir, numa já longínqua manhã de tempestade conjugal, tinha produzido os mais belos e numerosos objectos da sua arte, considerados pelos críticos, como exemplos notáveis da mais exuberante vagabundagem criativa.

Regressava, equilibradamente, ébrio, depois de uma dessas noites alvas, ao exíguo espaço da seu sossego desassossegado, quando um grupo de vadios desconhecidos, se posta alinhado à sua frente, e, num ápice, um deles lhe rouba, sem resistência da sua parte, a mísera carteira.

Num rasgo alvíssimo de lucidez, grita que, pelo menos, lhe devolvam um guardanapo de papel.

- Está completamente bêbado o "cajo"! Um guardanapo de papel! - Dizem, em coro, às gargalhadas, abrindo a carteira em busca de dinheiro.

- Preciso desse guardanapo, seus patifes!

- O tipo, além de bêbado, é louco! Ora, um guardanapo de papel! Só se for para limpar o ...

O ruído de um automóvel, a grande velocidade, engole a última palavra dos larápios. O artista tinha desenhado, naquele guardanapo, o rosto belo e amargurado de uma prostituta jovem, que tinha aparecido pela primeira vez, naquela noite, na taberna .

- Merde! Perdi uma obra-prima! Ia esculpir aquela rosto em mármore de Negrais, diz num soluço contristado.

Talvez ela não voltasse nunca mais. Não o poderia saber. Tinha o ar de quem se prostitui, ocasionalmente, quando lhe falta o dinheiro para a aquisição de cocaína. Nada, ao certo, porém, lhe era dado comprovar, naquela noite. Esperá-la-ia no dia seguinte, e, assim, adormeceu, agarrado àquela esgarçada esperança. Em sonhos, viu o guardanapo, a esvoaçar, entrando pela janela do quarto. Pareciam, com efeito, duas asas brancas, tão brancas como as faces daquela jovem que, amorosamente, havia desenhado.

- Bem! Vou tentar recordar-me daquele rosto, ia murmurando, de manhã, enquanto se espreguiçava com moleza e dores no estômago, à saída do quarto.

Ia tomar o pequeno-almoço a uma pastelaria. Talvez pudessem servir-lhe uma infusão de cidreira. Ouvira dizer, não se lembrava a quem, que aliviava as dores de estômago. Não custava nada experimentar. Beberia uma chávena com uma torrada.

II

Arranjou-se, apressadamente, sem a mínima paciência, e saiu, sem sequer se pentear.

Parecia um clochard, de manhã, nas bordas do Sena, o que nenhuma importância tinha para o louco artista, com barbas grisalhas e longas, e olhos amarrotados de gato boémio.

- Bom dia! O que deseja tomar, Sr. Menezes?

- Bom dia, Sr. Silva! Traga-me, por favor, um chá de cidreira, se tiver, ou de tília, e uma torrada, com pouca manteiga. Sabe, estou com uma indisposição de estômago.

- Sim! Com certeza... O melhor será chá de cidreira. Já lho trago. Com licença...

Enquanto espera, pega num jornal, e, pouco atento, vai lendo os títulos, com uma vontade enraivecida de vomitar todos aqueles fait-divers. Mundo cão, este, pensava, arrependido de ter pegado no jornal. Não valia a pena actualizar a informação de eventos Nada havia, de facto, de novo, no planeta azul, exíguo monstro cósmico que executava, sem falhas, os seus habituais movimentos, com a mesma indiferença álgida de há milénios.

- Aqui tem o seu chá, Sr. Menezes. Beba-o quente, que só assim lhe pode fazer bem.

Só, daqui a uns quinze minutos, deve comer a torrada.

- Obrigado, Sr. Silva! Vou fazer o que me aconselha.

Quando começava a comer a torrada, os seus olhos veem, como em sonho, a moça da véspera, entrando na pastelaria, aos tombos, olhos engelhados, o rosto ferido, com roxeados hematomas, e fios secos, de sangue, na borda dos lábios murchos. Era ela, era ela, repetia, em voz inaudível. Desfigurada, é certo, mas aquelas pernas esguias saltando da minissaia preta, que trazia na véspera, apesar de amarrotada e com rasgões indisfarcáveis, eram as dela. Sim! Era ela! Repetia, estupefacto e com um pensamento amolecido de a querer ajudar. Mas não sabia como. Pensava no rosto que desenhara no guardanapo, com o olhar fixo no tampo da mesa, e uma amargura azeda no peito.

Ao vir à superfície das suas mágoas, a moça já se tinha sentado num canto do salão, e a cabeleira preta, farta e desgrenhada, estava caída em cima da mesa, como se, daquele modo, escondesse o rosto, conscientemente ou não. Como poderia sabê-lo? De repente, uma curiosidade, mórbida ou artística, não sabia, espicaça-o, dolorosa.

- Sr. Silva, não se importa de vir aqui?

- Sim! Espere apenas uns segundos, por favor!

Não consegue comer toda a torrada, tal o enjoo que sente na garganta seca e áspera.

Acende, furiosamente, um charro de cannabis e tenta, a tudo o custo, não olhar para aquele farrapo, na véspera, deliciosamente belo, embora amargurado, lembra-se, apesar do seu estado subtil de embriaguez, ainda que, sempre, biologicamente, digamos, controlado, como costumava dizer. Era, com efeito, o seu organismo que lhe lançava um alerta no momento oportuno. Eis por que nunca ninguém o tinha visto, alguma vez, aos tombos. Bebia demasiado aguardente, naquela taberna, não poderia negá-lo, mas sem nunca perder a dignidade do homem inteligente e bem educado que, sem dúvida era, além de ser dotado de uma sensibilidade raffinée, gritantemente dissonante, naquele bairro degradado.

- Não estava boa a torrada, Sr. Menezes? Não a comeu toda. Não se sente melhor ?

Sim, estava, respondeu, mas...

- Diga-me, Sr. Silva, conhece, porventura aquela moça, que entrou, aqui, há pouco, naquele estado deprimente como, com certeza, verificou?

Que não, nunca tinha visto aquela jovem. Parecia uma prostituta, sem experiência, e, por outro lado, tinha todo o aspecto de ser uma drogada.

- O que acha, Sr. Menezes? Não lhe parece que assim seja?

- Talvez, talvez tenha razão, Sr. Silva. Sabe...

Calou-se. Não quis revelar o que lhe acontecera na véspera. Seria melhor assim. Não fosse emitir juízos de valor, baseados apenas nas aparências. Era, para o artista boémio e louco, um princípio sagrado. Sim! Louco. Mas de uma lucidez feroz, como sabres luzentes. Não. Nada mais diria. Pagou a conta e regressou ao seu atelier, com a intenção de começar a esculpir o rosto daquela jovem, não o que acabara de ver, mas o outro, o outro, anterior àquela alegada agressão, que a desfigurara.

III

Começou o seu trabalho, mas com o pensamento atado ao roubo ignóbil do desenho, que lhe lhe fazia imensa falta, para o êxito daquela peça escultórica, até porque, sem querer, a jovem aparecia-lhe, com dois rostos, um em cada vista, um em cada mão, gémeos, mas, chocantemente, diferentes, e um deles teimava em se exibir. Feio. Obsceno. Fechou os olhos. Tentou concentrar-se num só rosto, apertando, com força, a mão onde estava o outro, o feio e ferido, como se pudesse, assim, o estilhaçar. Em vão. Decidiu desistir por algumas horas ou dias, se necessário fosse, até que a sua visão se encarregasse, ela própria, de levar para o fundo dos infernos a imagem indesejável. Sentou-se numa cadeira de verga. Acendeu, com avidez, um cigarro, e entregou-se à leitura de um longo poema de Herberto Helder. Era um dos poetas portugueses contemporâneos seus preferidos, embora, na pintura, não lhe agradasse o surrealismo. A sua, por exemplo, não se filiava em nenhum movimento ou escola, na opinião unânime dos críticos, o que, para ele, era um elogio, na medida em que gostava de cultivar a singularidade em todos os aspectos da sua vida, factor, esse, que gerava incompreensão e intolerância, por parte de muitas pessoas, que não aceitavam os seus desvios estéticos, nem a sua postura, aparentemente altiva e excêntrica. Sabia-o, mas nada o impediria de cultivar, narcisicamente, aquela imagem.

Concluída a leitura, foi até à janela, que dava para a praceta, àquela hora, tracejada de pernas, em todas as direcções, pernas apressadas, estressadas, como se quisessem se desprender dos respectivos corpos, e corressem, à solta, não sabiam para onde, nem porquê. Outras, caiam, bambas, dos bancos, em cima do relvado calvo, que rodeava uma meia dúzia de troncos enfezados de pinhos mansos. Acendeu, desta vez, um charuto que um pintor cubano lhe tinha oferecido, na semana anterior, na tarde da inauguração de uma exposição de pintura. Aquele perfume quente do tabaco cubano levou-o, em viagem, até Havana, onde já tinha passado umas férias, há muitos anos, não se recordava exactamente do ano. Talvez dois ou três anos antes do divórcio. Não tinha a certeza. De súbito, escurecem-se-lhe os céus, que estava a ver, grisés de beleza, avermelhados, com mesclas de açafrão, e um mar, com madeixas das mesmas cores, nuances cor de petróleo, e novelos brancos de algodão.

- Merde! Agora, que estava eu a gozar estas delícias exuberantes dos trópicos, por que me veio barulhar a vista a figura daquela mulher? Merde! Que vá para outro lado!

Esmagou o charuto, com raivas tão frias, que pouco faltou para apagá-lo, entre os dedos nervosos. Tenta expulsar aquela imagem, fazendo apelo a outras lembranças, mas tão tenazmente se tinha plantado na retina, que não conseguia arrancá-la.

- Quelle merde! Vais ver como te arranco e te lanço no lixo!- foi dizendo, num tom gritado, enquanto enchia um copo com whisky. Na verdade, não havia nada melhor do que aquela ou outras drogas, fossem lícitas ou ilícitas, para provocar o naufrágio de um qualquer barco de mágoas. Que o chamassem um fraco, um covarde! Il s' en fichait!

- Bem! Com esta dose... Não! Com esta dose não se afunda?! Seja, então, com uma garrafa cheia! Venha uma tempestade! - gritava, enchendo, de novo, um copo.

Que viesse naquele momento. Rápida! Assustadora! Tenebrosa! Que durasse um dia inteiro! Um século! Uma eternidade! Continuou a beber e a fumar, como também está, por uma espécie de cumplicidade, a narradora, que tudo ignora desta história, e, mergulhada num oceano de ansiedade, limita-se a escutar o que lhe vão ditando as personagens, premindo teclas, acasalando fonemas e grafemas. Neste momento, esperando a eclosão da tempestade, suplicada pelo artista plástico, que lhe agarra pelos braços e a obriga, queira ou não queira, que vá registrando na superfície fria do seu monitor, compulsivamente, os eventos, as emoções, os pensamentos que ele vai vivenciando, quaisquer que eles sejam. Não há, de facto, modo de recusar as suas exigências. É, de um certo ponto de vista, um autêntico cumprimento de ordens tirânicas.

A narradora, não deixa, no entanto de estranhar, por mais experiência que tenha da saga da escrita, e dada a sua educação democrática do protagonista, que este não lhe conceda uns instantes, por mais breves que possam ser, de um silêncio branco. Branco. De jade.

Bebemos e fumamos. Não tardará que tombe sobre nós o ansiado naufrágio, diz-me o Sr. Menezes, num tom sussurrado, num tom molhado de álcool, quase indecifrável. O coto do charuto extinto, jaz no soalho, sem que ele se tenha dado conta, de tal modo é a sua desmaiada lucidez. Deixe-mo-lo assim: tem a cabeça tombada no braço da cadeira. Quem sabe? Talvez a tempestade tenha levado aquela figura indesejada para os mais abruptos abismos marinhos. Sim! E para todo o sempre. Não sei. Não sei dizer mais nada. Enfim! Descanso os dedos. Fecho os ouvidos e as cortinas dos olhos. Até quando? Sei lá! Que ele fique assim, durante toda a noite, sem abrir os olhos, sem ir à taberna. Sem jantar. Anestesiada a ténue esperança de rever aquela jovem prostituta.

IV

Quando despertou, às sete horas da manhã, leves lembranças sincopadas boiavam na gelatina enrugada da mente do artista, e a boca era um pergaminho ressequido, pedindo garrafões de água. Ergueu-se da cadeira, onde, embriagado, tinha caído num poço, sem fundo. Todas as articulações daquele corpo de cinquenta e três anos eram engrenagens, rangendo enferrujadas, além das dores na coluna, devidas, talvez , a causas biomecânicas. Nunca se submetera a nenhuma das técnicas imageológicas, como a radiologia ou, as mais modernas: por exemplo, a tomagrafia axial computadorizada e a ressonância magnética. Preferia sofrer as dores, ou reduzi-las com pomadas ou comprimidos, a ver as imagens das degenerações do esqueleto, afirmava quando algum amigo lhe aconselhava a consultar um ortopedista, um osteopata ou um quiroprático. Que não valia a pena, já porque, segundo tinha lido, algures, o esqueleto humano começa a apresentar deformações, a perder massa óssea a partir dos vinte anos de idade, tal como a perda de memória se inicia nessa mesma altura da vida.

- Quelle merde! Que vá para o diabo este ranger obsceno de ossos, ou discos, ou cartilagens, sem lá o quê! E tenta te levantar! Vá! - dizia, com um certa ironia amarga, parece-me.

Sim, ia conseguir se levantar daquela cadeira desconfortável. Faria, então, pensou em alguns exercícios levíssimos de aquecimento, antes de lavar as mãos, a cara, os dentes. Depois, talvez pudesse correr até à cozinha saciar aquela sede selvagem.

- Merde! Morro de sede! Como me pôr de pé? Por que não dormi na cama? Merde!

Como aquela mulher, mesmo ausente, mesmo inexistente, me empurrou para esta impotência motora? Não me embriagava até a perda da consciência há muitos anos... Não!

Nunca mais! Estou a sentir pena de mim mesmo... Não! Putain de vie! Não posso suportar este sentimento! Logo... este... o menos nobre de todos... Não! Levanta-te! Vá! Depressa! Já! Não penses! Pensar dói . Pensar destrói . Levanta-te!

Passados alguns eternos e penosos minutos, levantou-se e foi, com débil agilidade fazer tudo o que, por causa daquelas razões biomecânicas, tinha sido forçado a adiar, como, por, exemplo, matar aquela sede, imperativamente, selvática.

V

Depois do almoço, tomou um café duplo, e regressou a casa, com a convicta intenção de trabalhar. Mas... Aquele rosto desfigurado conquista todo o espaço da sua retina.

- Este não! Quanta falta me faz aquele guardanapo! Que patifes, aqueles!

- Bom! Concentra-te! Estás muito melhor! Vamos ao trabalho!

Acaricia o bocado de mármore de Negrais, como se o rosto, aquele belo rosto, já esvivesse esculpido e se oferecesse às suas mãos, sempre ávidas de beleza e de sensações lascivas.

Trabalhou, com paixão desmedida, toda a tarde, tendo-se, inexplicadamente, esquecido os habituais intervalos, para tomar umas cervejas, pelo menos, e uns três cigarros de marijuana. Achava ele que todos os artistas, fossem arquitectos, escultores, pintores, poetas, romancistas, todos tinham, e sempre assim fora, um vício, qualquer que fosse, mais ou menos inócuo. Lembrou-se do sublime Baudelaire, que havia experimentado, segundo os seus biógrafos, todos os narcóticos, no sentido literal, e metafórico, como a música.

A noite começava a se estender, e a tudo envolver nas suas vestes de viúva negra.

- Bom! Vou jantar... Amanhã, talvez consiga concluir esta peça... Sim! Talvez... Se trabalhar como esta tarde... Vês como a tua retina recuperou o rosto original?! Talvez. amanhã, vê-lo-ei, certamente, com olhos-outros...

Cada vez falava mais com os objectos. Deveria ser normal em todas as pessoas que viviam sozinhas, pensava, com a mais gélida lucidez e autocomplacência. Naquele aspecto, achava ele, não se afastava da norma. Acaricia aquele rosto, como se ele tivesse uma pele de pêssego, e sai, sem se arranjar, minimamente. O espelho recusa-se a devolver-lhe a imagem do seu rosto. Antes, exibe, com laivos de vaidade, o rosto escultórico daquela jovem, que havia conquistado a sua " anima " estésica.

- Que haveria no avesso daquela superfície espelhada? - Pergunta-se, perplexo. Não espera alguma resposta. Sai, apressado, descendo, como se nada lhe doesse, as íngremes escadas daquele terceiro andar. Sem que quisesse alimentar a esperança de voltar a ver a prostituta jovem da antevéspera, o coração, que não tinha, era um pêndulo alvoroçado. Entra na taberna, com os olhos todos abertos, mas, absurdamente cegos, ou, dito de outro modo, focados, em exclusivo, para a sua paisagem interior, ou seja, na peça que havia esculpido, naquela tarde, em tudo diversa de todas as outras. Não sabia porquê. Teria de fazer uma análise detalhada do seu habitat interior. Mais tarde. Naquele momento, o estômago vazio tinhas outras prioridades. Mais tarde, ou no dia seguinte, talvez pudesse traçar, imparcialmente, o mapa da morfologia do seu estado de espírito. Não valia a pena ter pressa.

Senta-se, olhando, sem nada ver, à sua volta, mergulhado num casulo de teias pretas.

- Que se passa, Sr. Menezes? Não se está a sentir bem? - Pergunta-lhe o Sr. Pereira.

Que se sentia bem. Que estava apenas distraído, respondeu.

- Hoje, quarta-feira, como o Sr. Menezes se deve recordar, o prato do dia é bacalhau à moda da casa.

- Sim, Sr. Pereira. Traga-mo, então, por favor.

- Vai tomar o vinho habitual ou, como se queixou do estômago, à hora do almoço. não seria melhor não tomar nenhuma bebida alcoólica? O Sr. Menezes é quem sabe...

- Sim! Tem razão. É-me difícil dispensar o vinho, mas... Bom! Vou beber apenas água. Olhe, pode ser uma Água do Luso, se tiver.

- Está bem! Com licença.

Recolhe-se, de novo, ao seu casulo de silêncio. Pega num guardanapo e põe-se a esboçar umas mãos, enquanto espera ser servido. Apenas umas mãos. Ele próprio não entende porquê. Belas. Com dedos esguios e dez pétalas de rosa na ponta de cada um. Pétalas vermelhas, de um brilho aveludado. Mas, de repente, cai no rebordo de cada pétala um gota de orvalho. Não sabe como do lápis de carvão, que sempre traz num bolso do casaco, tinham tombado aquelas gotas. Estará a sofrer de alucinações? Não. Estavam lá. Redondas. Perfeitas. Transparentes. Ou, seriam lágrimas? Mas...

- Aqui tem o que me pediu, Sr. Menezes. Sempre a desenhar! Desculpe! Com licença.

- Obrigado, Sr. Pereira!

Mal terminou o jantar, regressou a casa, não fosse começar a beber, com a chegada dos habitués noctívagos. Não. Não voltaria a embriagar-se, como na noite anterior. Isto pensava, ao dirigir-se para a saída, quando, embrulhado neste pensamento, um corpo tomba aos seus pés, e um choro começa a jorrar de uns lábios jovens, num tom pungente. Soltam-se, das mesas, gritos histéricos.

- Afastem-se todos daqui! Afastem-se, por favor! Como querem prestar socorro a esta jovem, com todo esse alvoroço?

Obedeceram. O artista sabe que sempre agem assim os amantes da tragicidade do outro. Então, com todo o cuidado, levanta do chão aquela corpo, sem saber, todavia o que fazer. Onde deitá-lo, enquanto liga para os serviços do cento e doze? Estende-o num banco corrido, segurando-o, não vá ele cair, e o Sr. Pereira faz a devida ligação. De novo, ouve-se o jorrar de um choro magoado, e um dos braços da jovem cai do banco, como se se tivesse desprendido do corpo e uma mão sai da manga de uma blusa branca, mão toda aberta, com longos dedos e unhas pintadas de verniz vermelho, e, bela borboleta, pousa-lhe no joelho.

Devia estar a enlouquecer, murmurou, assustado. Aquela mão! Aquela mão! Não!

Não podia ser possível! Não! Inconsciente, como ela se encontrava...

- Está a chegar a ambulância, Sr. Menezes!

Aprisionou nos olhos, com extrema ternura, aquela mão, enquanto um bombeiro e uma enfermeira colocavam a jovem numa maca. Abandonou a taberna, incapaz de dizer fosse o que fosse, o que, obviamente, toda a gente que lá estava conhecida, ficou a comentar, sem entender aquele comportamento. Cada um, em circunstâncias idênticas, urde uma explicação, e, ali, na taberna, passaram horas tecendo hipóteses, das mais verosímeis às mais insustentáveis, de tal modo que todos aqueles tecelões de fantasias novelecas, se esqueceram das bebidas e de todos os habituais negócios ilícitos. Enfim!

Um noite de diversas e avultadas perdas do precioso metal. Dir-se-ia, mesmo, que, naquela insólita noite, as sempre repletas horas brancas se tinham, a contra gosto, vestido de luto.

VI

Ao chegar a casa, verifica, com penoso espanto, que não se recordava de ter feito, a pé, como habitualmente, o percurso da taberna até ali. Tê-lo-ia feito, num voo rápido, qual pombo bravo, fugindo de um tempestade iminente? Senta-se. Vai fazer um esforço

de concentração. Não era credível, para si próprio, que não se lembrasse, pelo menos, de ter atravessado a praceta, onde sempre encontrava rostos conhecidos, e se enraivecia, "mudamente, contra o abandono a que era votada pelos serviços camarários, como, aliás, todo aquele bairro, que lhe parecia estar entregue a uma auto gestão, sem os mínimos resíduos de cultura cívica, estética ou outra. Era, de certo modo, um gueto. Põe-se de pé. Para que estava, naquele momento, bramindo contra um monstro inexistente? Volta a sentar-se, na busca desesperada de uma única imagem que lhe garantisse que não tinha saído da órbita do seu mísero planeta. Em vão! O espaço temporal daquele percurso havia sido rasurado do mapa geográfico da sua mente.

- Amnésia pontual? - pergunta-se, deveras angustiado. Descobrira, na altura em que fizera psicanálise, que aquele fenómeno, digamos, lhe acontecia, perante tudo quanto percepcionava como acto de violência, qualquer que fosse a sua natureza. O que acontecera na taberna teria tido, sem que se tivesse dado conta, uma dimensão tão ferozmente violenta, para ter gerado aquele fenómeno? Se, assim, tivesse sido, tudo estaria explicado, pensou, com uma certa dose de serenidade, a suficiente para afastar a ideia de alucinações ou de indícios de insanidade.

Mas, de súbito, solta-se, da sua mão esquerda, a borboleta que vira na taberna, ou seja, a mão daquela jovem... que havia tombado do banco corrido, enquanto estava à espera dos serviços de urgência do cento e doze, como se dizia.

- Afinal... Afinal... Estou mesmo a sofrer de alucinações! E, logo hoje, que não ingeri nenhuma bebida alcoólica, nem fumei nenhuma droga! Não! Não é possível!

Isto dizia, quando vê aquela mão, com vagares esquisitos, toda aberta, pousar na carpete, justamente, na corola vermelha de uma flor, pela segunda vez, feita borboleta, dentro da sua retina.

- Estou a enlouquecer?! Não! Ninguém enlouquece, dando-se conta desse estado, ia dizendo, num tom, que se esforçava, por ser convincente. Ah! Ah!, exclamava... Onde terei guardado aquele guardanapo, onde esbocei, com lápis de carvão, umas mãos, enquanto esperava que o Sr. Pereira me trouxesse o jantar?

- Estou a delirar? Porquê aquelas mãos! Eram duas... recordo-me... Mas... tanto a da taberna, como esta, que parece ter vindo dentro de um bolso, são iguais... Sim! Mas...Onde terei guardado aquele guardanapo?

Não encontra modo de o visualizar... Remexe, com dedos panicados, todos os bolsos do casaco. Nada! Teria sido, como na antevéspera, vítima de um assalto? Merde!, exclama, com fúria. Concede a ele próprio essa hipótese... Ora, se nem se recordava de ter feito aquele banal trajecto, tudo era possível, tudo era verosímil, a partir daquele momento... Ia-se dizendo, ao cair, involuntariamente, na cadeira de verga, onde adormecera na madrugada anterior. Enfim! Num segundo lúcido, mete uma mão num dos bolsos das calças. Lá estava ele, o desenho ou esboço, todo dobrado. Afinal... Sim... não estava a enlouquecer...

- Eram as mãos de que jovem? A da prostituta, cujo rosto tinha esculpido em mármore, durante toda aquela tarde, antes de ir jantar? Ou da jovem que devia estar a ser assistida num hospital, não sabia qual... Por que não a acompanhei até lá? Coitada! Tratar-se-ia de uma overdose? Mas... Mas..., murmurava. Mas, como podem ser as mãos dessa jovem, se as desenhei, antes da sua queda e de ter jantado? Se bem me lembro, não olhei para as mãos da jovem, cujo rosto tinha esculpido. Tanto a de anteontem, como a de hoje, serão a mesma? Como o saber? Por que não as fixei? Como posso, agora, as distinguir?

A temperatura do seu sangue atinge o clímax.

- A mesma?...A mesma?! Como? Não poderia ser... Não! Mera coincidência...

Era, com efeito, estranho que, obcecado, como estava pelo rosto daquela prostituta , o artista, apesar do alvoroço provocado pela queda, não tivesse olhado para a face da que ele tinha colocado e segurado no banco corrido. Talvez aquela mão aberta em cima dos seus joelhos o tivesse perturbado de tal modo, que...

- Aquela mão... aquela mão... Aquela borboleta!

Os seus olhos procuram o rosto que tinha esculpido, esquecendo-se por uns segundos da mão... ou das mãos... Já não sabia, ao certo.

- Onde? Onde está ele? Deixei-o aqui, quase pronto, antes de sair... Onde estará ele? Estou a delirar? Fiquei cego? Roubaram-mo? Como? E a borboleta, para onde foi? Não a vejo... E as flores da carpete?!... Que aconteceu? Algum cataclismo cósmico? Grita. Horrorizado.

E, um segundo depois, desata, petulantemente, às gargalhadas, como quem está a observar algo de hilariante, com mil fissuras finas no rosto, rosto, sem idade, com um charme exquis. Lança um olhar, quase furtivo, contra a porta. Ei-la! Como pode estar toda aberta? Recorda-se de a ter fechado, quando entrou em casa. Completamente aberta! Parece- lhe uma vulva rosácea que, toda desfolhada, sadicamente se recusa a ...

- Que imagem, esta! Exclama, com olhos mesclados de erotismo e de medo.

Umas pernas esguias, saindo de uma minissaia preta, despedem-se, ágeis e belíssimas, do corredor deserto. E uma borboleta púrpura, com pontículos negros, nas asas de seda, esvoaça, sobre uns cabelos longos, rútilos e pretos, com madeixas de um acobreado vermelho.

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