Texto de:
Entrenós: A Audácia de um Projeto
- Um livro de Regina Lyra -
Entre_Nós é um dos melhores livros de poesia que tive oportunidade
de ler. Digo isso, tanto pela qualidade dos inúmeros poemas que me encantaram
quanto em razão do fascinante, difícil e original projeto a que
se propôs a autora, Regina Lyra.
A chave para a melhor compreensão da obra se acha na palavra "entrenó",
que, conforme a própria Regina, constitui a principal fonte de inspiração
para o título. Porém, na verdade, não apenas para o título.
A partir dos significados dos substantivos "entrenó" e "nó",
bem como do pronome "nós", a poeta desenvolve um belíssimo
projeto, com ênfase em cinco aspectos principais: o metalingüístico,
o ecológico, o existencial, o social e o sentimental.
O interessante, no entanto, é que a exploração desses temas
muitas vezes se dá, de variadas formas, num mesmo poema. São os
cruzamentos temáticos, as bifurcações, os "nós"
que ligam diversos assuntos, idéias, orações, pessoas,
sentimentos. Regina, assim, a par da própria definição
do termo que inspirou a obra, situa sua poesia entre dois nós. Isto é,
explora, simultaneamente, tanto as conotações positivas quanto
as negativas do substantivo "nós". Afinal, conforme o Aurélio
Eletrônico: entrenó - "porção do caule situada
entre dois nós".
Graças à soma desses recursos e procedimentos, consegue obter
valiosa diversidade temática, garantindo, ao mesmo tempo, a unidade da
obra.
Num momento inspirado, o prefaciador Carlos Murilo Leal se referiu às
palavras grafadas verticalmente como "palmeiras". Um termo muito apropriado
para referência, sobretudo considerando tratar-se de uma poesia que nos
vem do Nordeste, da encantadora João Pessoa, de tantas palmeiras.
Explorando, à Bachelard, meu "Direito de Sonhar", atrevi-me
a ver também, nessas mesmas palavras verticais, os caules, residência
dos entrenós, ficando os versos acima delas como frondosos galhos e folhas
balançantes, a exemplo, inclusive do título de um dos poemas.
Tem-se aí um extraordinário nó: metalinguagem e ecologia.
Esse, a exemplo de tantos outros muito criativos, que não vou aqui destrinchar,
pois em absoluto desejo revelar tudo que vi nesta obra. Afinal, se o fizer,
o que restará ao leitor descobrir? E este é um livro que requer
a postura do descobridor, do investigador de delícias. Não é
obra que se revele ao primeiro olhar, exige a releitura.
Por outro lado, trata-se de cometimento discursivo, com toques de concretismo
e predominância do minimalismo. Aliás, o que pode ser mais minimalista
do que um nó? Os átomos são mínimos nós que,
ligados entre si, formam a maravilha do Universo.
Regina, em sua delicadeza, exercita o difícil equilíbrio entre
a claridade e a sombra. No entanto, em Lyra a nebulosidade nunca é completa,
porquanto cada parte é iluminada pela luz maior do projeto geral.
Verdade que, ao longo da leitura, em muitos momentos nos veremos diante de intrincados
nós, tão apertados, tão emaranhados, tão sofridos.
São os nós da dor, do sofrimento, das ausências. Da indignação,
perante a indiferença dos homens ao poético, ao justo, ao bom.
O lado negativo dos nós. Sobretudo em momentos assim, surgirão
silepses, elipses, espetaculares saltos sintáticos, propositais truncamentos
na linguagem, ruídos e outros meios dramaticamente empregados. Recursos
audaciosos, em favor da estética e do projeto da obra.
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Entre_Nós Autora: Regina Lyra  Editora Universitária (UFPB)
2008
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