Texto de:
Silas Corrêa Leite |
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Romance UM, de Geraldo Lima O Discurso Amoroso da Dialética
Consciencial
Estou farto de muita coisa (...).
Eu quero a destruição de tudo o que é frágil
Roberto Piva
O que pode o ser humano, senão, entre seres humanos, AMAR?. Parafraseando
o poeta, é isso o que se dá, naquilo que Cazuza chama de sua metralhadora
cheia de lágrimas, em Um, o romance de Geraldo Lima, LGE Editora, uma
dialética do discurso amoroso em que permeia a consciência, o paradoxo,
o ser humano (no caso, sensível), entre seres humanos, AMANDO. E com
tudo isso, claro, a narrativa que vai e volta, choca e instiga, se esconde,
aparenta, cita, permeia, desce e sobe, sempre sob o pântano da condição
humana nas relações humanas. Será o impossível?
Geraldo Lima debuta e enlaça narrativas como quadros cênicos dessa
relação amarga-doce, bonita-feia, alegre-triste, sensual-bizarra,
mas, antes de tudo, como as cartas de amores são ridículos
olha o Fernando Pessoa! romances de amor nesses tempos pós-modernos
também. Pior, se entre o sagrado e o profano, a carne e o sangue, o santo
e o convexo, vivenciam diálogos impertinentes, bem costurados com arrojo
de criar sem cair na pieguice romântica do quase ou tanto... pode se dizer
que o amor acaba mas a saga continua. Ex-amores são para sempre?
Pois é: o amor tem sim, loucura que a própria lucidez desconhece.
Como se descascasse uma cebola de relação que ameaça,
explicita, sai de cena, pensa-se, o autor vai retaliando a relação,
fatiando sofrências, acontecências, dando tempo ao verbo e o verbo
se faz carne, como se faz tensão, solilóquio, espírito
e carranca. Olha a consciência como leitmotiv. Ana é o fio de Ariadne
ou Ariadne é uma consciência sagrada pesando, fio condutor, para
um interlocutor (interlocutora a consciência?) onde sempre depositamos
o pão e o vinho, do que se vem da carne nas relações proibidas/permitidas,
só sonhadas, quem o sabe? Crime e castigo? Ah o crime de amor que faculta
o existir... A consciência é a serpente que envenena intenções
(ou possíveis intenções em treva branca), ou clarificando
pensares, ilações/alusões, faz um inventário de
partilhas íntimas, abre véus, aponta o que existe e até
o que não existe?
Geraldo Lima demonstra isso aqui e ali, teatrizando ora o possível,
o entendido como havido, o medo de algo-alguma coisa, resvalando ora na poesia,
ora na prosa, ora meio que lispectoriano sem perder a mão (e a ternura)
jamais. Gostoso lê-lo.
A Ana que foi (foi?) e já não é. A Ariadne que poderia
ter sido e não foi. O entremeio, o intertexto, as citações,
o seminário (que aqui vem de sêmen?...); o possível pecado
de, o padre e os estudos, o corpo, a devassidão; nunca completam de uma
perdição cobra-cega no paraíso do contar. Que consciência
é o divã? Divã de idéias; divagar delas, ah o romance
como fio de meada, fio de Ariadne, olhar enviesado, tirar de véus, entrecortar,
contando, entrecontar, cortando, pinceladas mágicas de ternura, sensibilidade,
como se tudo entre quatro paredes, o voyouver, e vai por aí o bolero-(tango-)mixórdia
da contação. O castiço a rapariga, o mortiço dos
ambientes propositalmente turvos, e o sexismo, o amor e o pudor. UM, o Romance
de Geraldo Lima poderia também se chamar Inferno, fosse invocada a consciência
como narradora. Tudo bem, é o espírito que ama o espírito,
antes do corpo amar o corpo... isso, nas fáceis vidas difíceis,
mas, entre uma sedução e um seminarista, tudo ralhado, há
bulhas e cismas. Periga ver. Sentir, chocar com o olhar do que conta o vai-da-valsa,
com um medo-coisa, uma solidão-embuste, uma aparência que, sim,
engana. De propósito?
Depois que conhecemos o amor, em que lugar (de nós) deixamos as asas?
Extremos e lumes. Sangria desatada a... de novo, consciência... repigando
sentimentos e ressentimentos. Tudo a ler.
Que cenário é a mente, a casa, a história, lugares nenhuns,
todos os lugares? Paulo tece os momentos que passou com Ana, a quase fêmea-fatale
(não são todas?), a mulher-aranha com quem morou por algum tempo.
Fala da amiga Ariadne, tece acontecimentos e pessoas como referências
de vida de passagem. E há o padre Artur, que lhe foi uma espécie
de mentor. Com o autor caímos na redoma de vidas, além, claro,
de uma sua experiência transformadora que nos leva a reflexões
ora incabidas, ora insabidas, ora sagraciais. Sim, meus irmãos, cada
um sabe a dor e a delicia de ser o que é, e o que não é.
Cada um sabe de que luz faz cruz, de que devaneio faz sentimento, de que santeria
interior faz nau insensata, de que atitudes impróprias congela momentos,
visões, prismas. Escrever é colocar dúvida em nós
mesmos, a partir de olhares novos sobre frinchas revisitadas.
UM é isso: um romance sempre no começo de uma relação
que é posterior e anterior ao seu tempo estagnado, mas que viça
pela palavra, se alonga, debulha, questiona, avalia e até trinca intenções.
Há entrelinhas no ler...
Que milagre é amar e escapar ileso? Escrever é lembrar, lembrar
é escrever/ascender (e acender velas na solidão de uma alma em
conflito). Depois que um corpo conhece outro corpo, fugir é mergulhar
nele, mesmo que seja num palavrear confeitos, contrastes e ramificações
do verbo sentir. E pensar é sentir com a alma. A carne é fraca,
meus irmãos, o Romance UM foge do cepo da consciência, para cair
no labirinto das confrontações. Um romance e tanto. E atual, moderno,
nesses tempos em que uma igreja decrépita mostra as vísceras,
em que a nódoa da historia nela depositada é remorso, e em que
os que passam pelo genuflexório têm que rezar defeitos, lamúrias
e resignações de fugas ainda não depuradas. Há um
Deus? Periga ver.
A correnteza da narrativa é o contra-fluxo do medo de amar até
a página tal, o lado b do que se passou. Há coisas no ar. UM é
apenas o começo do zero ao infinito. Tudo pode ser, como também
não. Tudo pode ter acontecido, como pode ser um delírio bem orquestrado
entre o que houve e o que se coube na relação até o limite
do provável.
A mão que oferece a maçã, oferece o delírio do
corpo, da carne, do afeto trocado. Amou tem que rezar? A cartilha do amor é
o corpo do êxtase levado ao destempero. Amar e sofrer. A corrupção
do corpo. A delação da mente. Turvamos o historial para sentirmos
a transparência de nós mesmos? Mia Couto dizia que a melhor maneira
de mentir é ficar calado. E narrar o questionável? Si, sem o prazer
não podemos parecer humanos. E o humano em nós desmonta o falso-sagrado
em nós. Escrevemos para medir o destino, ou o amor é um erro?
Geraldo Lima é professor de literatura, e conhece do oficio de romancear.
Tem outras obras, alguns prêmios, retrata as relações humanas
levadas ao extremo, entre o zelo, entre a mancha; do achado entre o perdido,
das neuras e dos perigos letrais das relações amorosas, feito
um discurso da posse de, da libertação de, dos atropelos de.
Amar se aprende amando, diria o poeta. Há muita poesia no Romance UM
de Geraldo Lima. Ler a obra é desnudá-lo. Ficamos cegos de tanto
sentir, ou ler é tirar as tintas e panos do que ele conta, para sentirmos
na pele que o livro vai além da experiência mística que
inventa de contar?
Que hamster é o ser humano para o suplicio do conviver entre desiguais?
Primatas querendo ser divinizados experimentam os horrores das contundências.
O Tibete talvez seja descobrir o humano em nós, depois que passamos
tanto tempo no piloto automático da vida infame. E aí entra o
amor na sua mais pura devoção, mesmo que paralelo ao medo do fotógrafo
que retrata em nós a entrega despudorada, o inominável da submissão
à carne, a tarja preta e o código de barras feito sermos todos
nós ainda e assim, por isso mesmo o Número UM, introspectivo ou
não, daquilo que sabemos de nós, entre o defensor e o algoz, a
consciência e a circunstancia de.
O escritor é o que, com uma lanterna, procura o número que somos,
que parecemos, que multiplicamos em silêncios, palavras, moinhos de ventos,
filtrações e sagradas escrituras. Sagradas?
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Um
Autor: Geraldo Lima
LGE Editora
2009
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