A Garganta da Serpente

Lenin Bicudo Bárbara

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Letargia

Enquanto passa a textura do instante
P’los ponteiros que rangem: “meia-noite”,

O corpo embriagado de um errante
Procura por um espaço q’o acoite,

E à luz dos mecanismos desumanos,
Confundido no horror dos próprios planos,
Grita aos ventos da noite:

Trovador:
Andei pensando nas tuas bobagens,
Tuas palavras de tristeza e choro,
Na tua idéia negra achei vantagens
Que nunca encontraria em meu decoro!
E depois de uma grande bebedeira,
Penso em talvez realizá-la, inteira,
Ter da Morte o tesouro...

Não quero mais sequer o amor perfeito,
Que antes queria com tanto furor;
Cuido talvez por isso seja o eleito
Da minha danação o próprio amor!
Não sei – e é triste o não saber! – se um dia
Aquele amor a que eu me referia
Não foi só dissabor...

Se anda acabado o meu amor, já morto,
Não sei dizer, tamanho é o meu desgosto,
E tão grande e pesado, o desconforto
Que me acomete quando eu lembro o rosto
Daquela que eu amei por tantos vinhos,
Por que passei nos tantos descaminhos
Em que me tenho posto!

É com tamanho horror e sentimento
Que reconheço os teus tantos motivos;
E agora eu peço o teu consentimento,
A benção profanada dos lascivos!
Ó minha Sombra, ó Lúcifer do Inferno,
Eu peço agora o abraço sempiterno
Que me aparte dos vivos!

Indo de lampadário a lampadário
Nesses lamentos de íntima clareza,
Ia o poeta, sempre solitário,
Na turva trilha tosca da tristeza.
Voltou-se então dessa cinzenta alfombra
Que cobre as ruas da cidade a Sombra,
E disse, com firmeza:

Sombra:
Patético! Queres a morte, e entanto,
A vem pedir batendo em minha porta!
E o desespero que inspira o teu canto
É o desespero da quimera morta
Que, abandonada a um sentimento alheio,
Deixou-se enfeitiçar do próprio enleio,
Do sonho que te importa!

Se achou no corpo teu a dor morada,
É que sonhaste – e sonhas todo instante –
A etérea noite jamais consumada
No frêmito vadio do seio arfante!
E o teu sonho anda solto, anda sem rota,
Ondulando da praia a mais remota
O mar do amor bacante!

Trovador:
Vens me dizer que a morte eu não mereço!?
Que todo o horror em mim é descabido,
E o sentimento meu tem justo preço
Pois que o vendi aos deuses da libido!?
Vens me dizer, pois, tudo o que eu já sei,
Tudo o que eu temo, e em quem me transformei –
Num coração ferido?!

Posto que seja eterno o teu juízo,
Eterno e derradeiro, inapelável,
Eu peço a redenção de que preciso
Para habitar o mundo inabitável!
Ah!, dá-me forças, dá-me o cabo frio
Da adaga ritual que conduziu
À Morte o Miserável!

Sombra: Mortal, não vês que é tola a tua luta,
Que o vinho te banhou nas letargias
Pulverizando a pobre prostituta
Das românticas tuas poesias!?
Se queres encontrar da morte a rota,
Aprende a aceitar a tua derrota
E a vida que vivias!

Por hoje, bebe o vinho e vaga e chora,
E vaga sem saberes o caminho,
E chora a noite toda e espera aurora
Lavar o sangue teu, sujo de vinho!
E, n’aurora, finda a libertinagem,
Vomita o teu vinho e a falsa coragem
Do teu vão desalinho!

Silêncio. E no silêncio, conduzindo
Pelas sombras a Sombra do seu medo,

Vai vagando o poeta, vai sumindo

Nas espirais do mundo vasto e quedo;

Pois quis cavar do túmulo o seu crânio,
Mas no túmulo, fundo e subterrâneo,
Não havia segredo.

Silêncio. E no silêncio, suplicando
Pelo fim do seu tanto sofrimento,
Vai chorando com triste e formidando
Anseio pelo seu amor nevoento;
Quem quis amar a pálida donzela,
E viu que moça pálida e tão bela
Era feita de... vento!


(Lenin Bicudo Bárbara)


voltar última atualização: 21/10/2006
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