A Garganta da Serpente

Marcio Rufino

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Mania de mar

Na primeira vez que eu vi o mar
eu não entendi nada.
Tinha acabado de acabar a madrugada
e o azul que estava em cima
era diferente do azul que estava embaixo.
E a formosa linha sem cor estava ali no meio.

Hoje eu me amarro no mar.
Minha mãe tem medo do mar.
Meu pai não tá nem aí pro mar.

A mulata que entra.
O moreno que sai.
A sardinha que pula.
A gaivota que cai
de boca
na ostra.

Jogam merda no mar.
Meu Deus.
Por que fazem isso com meu mar?

Mergulho no mar que não muda.
Deixo molhar em meu dorso sua espuma.
Vejo o mais destemido surfista e sua prancha.
Vejo a mais libidinosa mocinha e sua tanga.

Isso não é nada frente a imensidão do mar
que é traiçoeiro,
que é cancioneiro,
que é poderoso,
que é misterioso,
que tem maresia
dentro de sua poesia
que rola na areia
nos olhos da sereia
cansada de chorar
choro salgado de mar.

O mar tem mania de não sair de moda.
Ele molha nas pedras suas histórias
de piratas e marinheiros
de caravelas e navios negreiros.

O mar invade meu nome
se fundindo com o cio.
Mar-cio.
Marcio.
Essa coisa me melhora
a cada hora de minha molusca existência.
Mesmo que isso não encha os olhos de ciência.

Não me canso de viajar
quando danço com o barulho do mar.
Lembro da bela deusa que nasceu do mar.
Lembro de tudo que o mar dá.
Me esqueço de tudo que o mar pode levar.

Que um dia o mar me leve
para o fim de seu infinito
através da carcaça de uma baleia.
E eu ilustre habitante dessas ondas
possa andar por entre as conchas
contemplando o fascínio d'além mar.
E que meu coração romântico
se lance no Oceano Atlântico
onde ele nunca há de parar.


(Marcio Rufino)


voltar última atualização: 23/02/2009
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