A Garganta da Serpente

Thiago Amorim

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A Borboleta Preta

"Também por que diabo não era ela azul?"
Machado de Assis (1839 - 1908)

Nesta linda manhã saí do mato
a borboletear pelo jardim,
adejando sem rumo alegremente
sob a cúpula vasta deste céu,
deste céu tão azul, tão formidável
que por pouco não cri já tê-lo visto;
e, já cansada pelo mundo afora
de espairecer minhas borboletices,
modesta e negra, entrei dentre em teu quarto
a fim de dar com esta sombra amiga...

Achei-te sem tardança, então mil voltas
em torno do teu corpo eu descrevi
a contemplar, com certa simpatia,
esta tua estrutura colossal!
Em busca de um lugar estável nela
pousei em tua fronte, ao que entrementes
me respondeste vom um sacolejo
tão áspero e maléfico... tão forte
que à vidraça atirou-me a qual num lance
me segurei estarrecida e triste
por ver-te, ó gentil Brás, assim nervoso;
e, porque sacudisses novamente,
qual uma mosca afugentada, eu logo
fui moribunda e exausta re-pousar
sobre o retrato...

Oh, como eu saberia
que esta minha aventura esvoaçante
por dois palmos de linho cru me fosse
cá rematada... aqui findada em morte?
De que me vale a imensidão azul,
a alegria das flores do jardim
e a augusta pompa destas folhas verdes
contra o golpe fatal de uma toalha?
Repara hoje, afinal, o quanto é bom
seres superior às borboletas!
Porquanto é justo nesta hora dizê-lo,
se azul eu fosse, ou mesmo alaranjada,
eu não teria mais segura a vida;
não é tão impossível me transpores
co' um agudo alfinete o débil corpo
para recreio só dos olhos teus...
não... não, não é... não é tão impossível,
meu presunçoso deus, cínico algoz!

Mas, esta última idéia te consola
o coração mais uma vez agora;
não vês? Movo inda o corpo e as minhas farpas,
mas dentro de uns segundos, tristemente,
eu deixarei sobre este peitoril
toda uma vida em um breve suspiro...
Estás aborrecido, incomodado?
Tens dó de mim agora? Agora é tarde!
Eu morro... e morro triste, embora saiba
que esta minha tragédia inesperada
foi, pois, terrivelmente acometida
por uma circunstância inevitável!

Une o teu dedo grande ao polegar,
desfere no meu rígido cadáver
um forte e gigantesco piparote...
é já tempo que assim me faças, homem,
eis que lá vêm as próvidas formigas!
Deixa-as cumprir seu ritual funéreo
que é uma enorme ventura para mim
ser por elas levada em grão cortejo
através deste sítio lutuoso!
Deixa-me ao menos sobre elas estar
a contemplar pela vez derradeira
esta celeste abóbada azulada
que sempre me acolheu... que sempre acolhe;
que mais posso querer para o meu fim,
ó pobre e desalmada criatura!

Que modo ingênuo de tratar as coisas!
Se eu fosse um outro inseto voador
que ao teu quarto adentrasse inutilmente
a sibilar... teria a mesma sorte?
Quem sabe... se eu não fosse assim tão negra...
talvez me salvaria se eu tivesse
o mesmo tom deste Céu caridoso
que é sempre azul para todas as asas!


(Thiago Amorim)


voltar última atualização: 06/01/2009
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