A Garganta da Serpente
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O que os olhos não sentem

(Eliane Rubim)

Na última casa da rua, a rua do ponto mais periférico e alto da cidade, estava sobre uma ribanceira a assistir o escurecer do dia e o acender das luzes noturnas.

"Precisamos voltar para casa, daqui a pouco chove e ainda não preparei nossa jantar" - falava Matilde a sua fiel amiga Filó, um de seus trinta gatos que faziam companhia dentro de sua velha casa, fora os cachorros que eram dez.

"Miauuu" - respondeu Filó em um longo miado, o qual a velha já reconhecia como sinal de fome. Enquanto caminhava, Matilde deixou o silêncio preencher aquele instante, olhou para o mesmo céu o qual diariamente ia saudar e se despedir da presença do sol. Olhou a rua, trovejou, sentiu medo, sentiu-se só.

Matilde perdera o marido logo cedo, um belo capitão (segundo ele lhe dizia) que anos mais tarde, após seu falecimento, Matilde veio a descobrir que ele não passava de um traficante de vida dupla. Luiz Ricardo Trindade usava o uniforme que fora de seu avô, era conhecido por todos como "Capitão" - o dono da boca. Matilde nunca desconfiou, não tinha amigos e raramente saia, achava demasiadamente confortável a vida que levava, recebendo presentes diários de seu marido.

"O frio me faz bem, sabia Filó? Não sei porque, mas gosto desse ar gelado, esse lugar é como um semelhante."

Quando casada, Matilde ocupava suas tardes cuidando da casa, bordando e cosendo, além de devorar romances que o Capitão sempre comprava na volta para casa. Agradecia beijando-o sobre o bigode amarelado pelo tabaco.

Filó balança o rabo com graça enquanto ouve sua amiga recitar alguns versos que compôs, inspirada em seu passado solitário que ainda é tão presente.

"bela a menina
que por histórias de amor
suspirava.

No seu amado
encontrou a paz desejada.

Foi tão enganada, a coitada
Mas a mentira não roubou
O sentimento de ter sido amada."

Parou frente ao portão, olhou novamente ao seu redor. Notou que o mundo lá fora não estava diferente do vazio em seu peito. Gatos e cachorros para alimentar, plantas para aguar, fantasmas para conversar, dores da velhice para praguejar.

Matilde decidiu que naquele dia iria dormir mais cedo.

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