A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Crónicas Francesas (I)

(Barbosa Tavares

Num daqueles plúmbeos e ensimesmados dias , em que a alma rodopia em torno de cogitações vividas,

dei comigo a debulhar as minhas imberbes e contristadas convuluções francesas.

Meu pai, tocado pela mais protectora das intenções patriarcais, dizia-me numa voz sombria a roçar o fatídico: " Olha rapaz. Eu andei na tropa , em exercícios , todo molhadinho, com a roupa colada ao corpo, a rastejar em tempo de paz. Escreve ao teu tio que te arranje um contracto de trabalho e vai para França."

Num domingo aziago, no ano de mil novecentos e sessenta e cinco, surgiu um engajador de recente extracção luso-gaulesa , na tabernória da qual meus pais retiravam um terço da magra côdea da vida. Provinham , os restantes dois terços, do seu salário de guarda nocturno e do amanho, a esmero, de um quintal na rua das Cancelas, pertença de uma senhora donairosa, de rosto luzídio, açafroado, eternamente vestida de luto.

Da terra acarinhada, brotava fertilidade a rodos: legumes, hortaliças vicejantes, que minha mãe carregava no dealbar da matina, rumo ao mercado.Na véspera relembrava-me o dever filial neste termos : "Rapazinho, amanhã , às sete da manhã, no quintal para me ajudares no carrego."

Confinava, esta quintarola, arrendada a mil e duzentos escudos ao ano, com a casa de um dos irmãos " Pachacos", nome patusco como a terna simplicidade de quem calcorreava descalço as veredas da vida, invocativo de extrema humildade e carrro de bois gemicante no seu chilrear, atrelando cargas de areia, lenhas e sacos de milho na serena pacatez da tarde modorrenta.

Revejo-me neste cenário de sementeiras, regadios e colheitas , ajudando meus pais. Nas manhãs de inverno, uma geada finíssima resplandecia cristais de gelo sobre a horta e, das couves , desprendiam-se gotículas orvalhadas.

De mãos regeladas , eu ateava uma fogueira para aquecer num enorne latão, as nabiças, couves e farinha com que os bacorinhos-orgulho e doce enlevo de meu pai-germinavam a olhos vistos, saboreados na

antecipação dos rojões, da vinha d'alhos, do toucinho e da carne de lombo arrecadada na salgadeira.

Vinha o António Maneta, homem enxuto de carnes, lépido, aligeirado no andar da vida, senhor de pelo menos quatro ofícios a saber: lavrador, manobrador exímio da carrreta funerária, engraxador domingueiro e adestrado matador de porcos.

Estou a vê-lo: fato azul escuro, camisa engomada, bigode farfalhudo e gravata a rigor, no campo do sagrado silêncio. Movia-se lesto, entre filas de mármore, buxo, estatuetas de santos e jarros ornados a esmero ,floridos na saudade que os vivos testemunham aos seus finados.

Sempre que o meu pai lhe solicitava, munia-se do seu facalhão , fincava destro e certeiro o pobre do bicho. Num repente o animal surgia , esventrado e vertical , pendente do chambaril com um fio de sangue coalhado no focinho.

Nesse tal domingo, na dita tasca, onde os homens consumiam a tarde a bebericar, entre tremoços, pevides, o alarido e comoção do relato da bola, o tal figurão , decidira-se pelo malfadado ofício de engajador de almas mitificadas pelo sonho francês , urdidos e tecido nos penosos salários da época.

Exíguo e sagacíssimo meliante na sua juventude, mais temido que respeitado, aparentemente regenera-se , abrindo uma barbearia. Mais tarde vagueara por Franças e Araganças , sucubindo, segundo se constou, vítima da sua audácia, em circunstâncias deveras trágicas.

Hábilmente, convencera meu pai com a sua finória e refinada lábia de malabarista, que o meu futuro residia além-Pirenéus.

Aproveitando a vinda a Portugal para levar de "assalto", um sobrinho-felizmente vivo e escorreito na terra Ílhava , testemunha ocular desta e outras peripécias, eu serviria de muleta no financiamento da aventura pirenaica.

Meu pai, impregnado na sua boa fé de salvar o filhos dos horrores da guerra, crente que lhe daria os utensílios da salvação francesa, desembolsaria cinco lustrosas notinhas de mil escudos, equivalente ao salário de três meses de um bem instalado funcionário público.

Sobre uma mesa quadrada de mármore, com uma toalha de linho embebida em manchas de vinho, e o farelo das famosas padinhas de Vale de Ílhavo, uma bilha rústica debroada com listas azuis - ainda existente-amendoins, tremoços e dois copos de vinho, estava gizado o meu destino.

De uma penada, eu escapulia-me aos tentáculos da guerra, amealhando rendoso pé de meia, no recém-criado, esplendoroso e mítico Eldorado francês.

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