Acredito que Zacheu não teria vez nos dias de hoje. Como citado foi
em sermão pelo genial Padre Vieira, Zacheu só achara a salvação
se restituísse toda a sua riqueza ilícita, roubada. Ladrão
rico não colocava seu pescoço na forca, contudo não sairia
salvo na lei de Deus. Imagino que Zacheu fosse tão crédulo que
restituiu a riqueza, esperando sua salvação ao juízo final.
Para fortalecer minhas palavras na primeira oração do texto, onde
Zacheu não teria vez nos dias de hoje, digo-lhes que a palavra de Cristo
na contemporaneidade é usada, na maioria das vezes, justamente para usurpar,
iludir e muitas vezes disfarçar, não para restituir. Procuremos
essa razão dentre os deputados eleitos pela crendice popular e achemos,
não muito longe do agosto em que vivemos, banditismo, cassações
e renúncias de mandatos no planalto que envolviam evangélicos,
cristãos, católicos e todo e qualquer tipo de monastério.
Ou não, insistindo em fazer justiça para quem não merece.
Ora, se nem Cristo está conseguindo que o roubo seja restituído,
se nem Cristo tem essa moral toda, imaginemos então a nossa abjeta indignação.
Daqui a pouco seremos novamente protagonistas de mais uma mixórdia eleitoreira.
Mixórdia nos três sentidos do substantivo: mistura desordenada
de coisas afins ou não; confusão ou embrulhada e, por último,
comida ou bebida repugnante.
Mistura desordenada de coisas afins ou não e confusão ou embrulhada
por si só se completam. São sinonímias bem próximas.
O que se sabe, entretanto é que no meio da balbúrdia e da barafunda
há o desejo, voluptuoso em alguns casos, pelo poder. A sede e a fome
daqueles que se refestelam, por sinal há até quem dance no congresso,
no banquete dos ímpios em prol do crescimento do próprio bolso.
Aí é que entra a repugnância, a fartura para poucos e a
escassez para muitos,e isso nunca vai acabar. Uma pena, pelo menos ao que se
trata São Tomás de Aquino com suas três leis da política.
A natural, a humana e por último a divina. São Tomás não
devia acreditar tanto no homem político, digo o homem que faz e vive
de política, pois dessa forma não teria tantas dúvidas
a respeito da essência e da existência. Logo ela, a essência
biltre do homem sem consciência que se promove em cima do jugo do necessitado.
O necessitado de uma ambulância, de um salário digno, não
necessariamente um mensalão, mas um salário para comer e beber
sem repugnância e fartura, mas com o satisfatório. O necessitado
de um livro de matemática para acalentar o sonho de um pequenino engenheiro,
quem sabe...
Daqui a pouco estaremos na fila esperando a restituição dos Zacheus.
Restituir não pela moral, mas por carecer.
O estranho é que depois de tanto sofrimento o povo ainda vê a fresta
de esperança...
(2º lugar no Prêmio Cléber Onias Guimarães
Conselho Comunitário de São Paulo - outubro de 2006)