Quão terrível é a sensação de se sentir
próximo, praticamente ao lado, e ao mesmo tempo afastado de alguém.
Há pessoas que vivem assim, como duas paralelas, quase unidas - suprema
ironia - sem jamais se tocarem. Após muitos percalços e lutas
acabam por se renderem e aceitam essa impossibilidade. Vocês podem imaginar
como isso é frustrante? Por vezes voltam a se rebelar, choram, agridem-se,
irritadas por essa proximidade dolorosa. Isto só faz piorar o quadro
de permanente angústia em que vivem, acossadas por desejos irrealizáveis.
Em contrapartida, estão sempre juntas quando adormecidas pois suas almas
abandonam os corpos materiais aos quais estão aprisionadas. Nesses momentos
se enlaçam, beijam-se - é uma felicidade só. Podem também
estar próximas através dos textos que elaboram uma para a outra.
Cada palavra encerra uma mensagem cifrada, codificada, a forma que encontraram
de se presentearem mutuamente. Esta aproximação pode dar-se, outrossim,
através das músicas que adotam em função da sua
afinidade. Por vezes a lembrança de um está tão presente
no outro que descobrem recados nos locais mais improváveis. Um estranho
diria, no mínimo, que estão surtando.
Mas eles sabem. Se reconhecem. Apenas eles compreendem o poder dessa ausência
tão presente. Seu silêncio é, na verdade, um grande diálogo,
pontuado por sinais que somente eles têm conhecimento. E, dessa forma
criam um mundo também paralelo, com linguagem própria, sutil e
delirante.
Mais uma vez voltamos às paralelas. Sempre unidas, por vezes quase a
se tocar, mas o "quase" existe e assim elas não se encontram,
por mais coladas estejam. Cria-se um círculo vicioso: dor, angústia,
raiva, depressão. Noites sem dormir, o que é péssimo, pois
perdem a chance de se verem em sonhos, por vezes até em pesadelos. A
insônia os persegue. O rolar na cama vendo as horas passarem. Lençóis
desfeitos. É a luta da mente contra o corpo. Este necessitando de repouso
e a outra, a fervilhar incansável.
Chega um dia, enfim, em que se conformam. Sim, são paralelas. Nunca
se encontrarão. Mas isto não é relevante. Eles existem
e o fundamental é que a parceria continue. Permanecerão unificados.
Para sempre. É o casamento perfeito. Vidas paralelas. Destinos paralelos.
E se consolam com isso.
(30/09/02)