O desafio das políticas públicas neste início de século
nos remete a nossa capacidade de reflexão acerca das práticas
empreendidas, dos diálogos travados e da nossa imensa capacidade de compreender
a necessidade de uma ação planejada, em rede, e que se propague
infinitamente. Uma utopia possível? Talvez algo bastante além
disso. Logicamente que falo aqui de uma radical mudança de hábito
do poder público e dos movimentos sociais no trato com as políticas
públicas. Tanto no que tange às relações de interesse
político quanto nas relações de poder, mais propriamente,
estabelecidas cada vez que um agrupamento de reúne periodicamente pensando,
equivocadamente, se tratar de um grupo. Jean Paul Sarte é muito claro
ao exemplificar as diferenças. Para Sartre, basta um grupo de pessoas
esperando um ônibus na parada para conceituar agrupamento. O grupo é
a possibilidade de um diálogo positivo dessas mesmas pessoas em torno
de um interesse comum e coletivo. Por exemplo, protestar contra o imenso atraso
do Expresso 2222 da Central do Brasil que partiu direto de Bonsucesso pra depois
do ano 2010.
Recentemente participei de um debate acerca da violência sexual contra
crianças e adolescentes. Um debate que deveria interessar milhares de
pessoas, não reuniu uma centena. Por quê? A resposta é relativamente
fácil. Há um relativo cansaço acerca do jogo de cena que
muitas vezes se impõe como ação de política pública.
Há uma certa incredulidade quando escutamos altas autoridades, como no
lançamento do projeto Vira Vida, dos Sistema S, afirmando que não
existe turismo sexual na Paraíba. É como se não devêssemos
nos preocupar por estarmos no estado que ocupa o terceiro lugar no ranking nacional
da exploração sexual de crianças e adolescentes, perdendo
apenas para Pernambuco e Rio de Janeiro. Uma vergonha que preocupa os que desejam
um mundo mais afinado com os valores humanos. Estamos, na verdade, diante de
um jogo de cena que passa pelas vaidades pessoais e pela submissão de
organismos públicos aos interesses localizados de segmentos alheio aos
trilhos e ao trem da história. Particularmente, não gostaria de
fazer parte dos elos cansados desta cadeia improdutiva da desesperança.
O cotidiano não permite. Até porque neste imenso jogo de interesses
que cercam a verdadeira colcha de retalhos que cobre o chamado interesse público,
existe uma responsabilização, sobretudo, cidadã.
Sinto-me bastante a vontade para criticar os movimentos sociais porque neles
tive a minha formação e para eles voltarei antes de virar poeira
de vento. Sinto-me também a vontade para exercer criticamente um cargo
público pelo mesmo e bom motivo. Na verdade, a carência de quadros,
tão visível na aplicação das políticas, não
é mais que no resultado do jogo de interesses e vaidades que perpassa
a relação dos entes envolvidos neste cenário pouco animado
mas, ainda bem, não de um todo desanimador. Se a falta de quadros
nos movimentos sociais é bastante visível por termos ainda os
mesmos melhores quadros de vinte anos atrás, também
é verdade que no olho do furacão desses movimentos existe uma
imensa guerra de vaidades que sufoca as possibilidades de surgimento de novos
quadros. Isso tudo se reflete nas mazelas da administração pública,
onde a profissionalização ainda é um tabu a ser superado.
Afinal, a luta pelo poder e, principalmente, pela partilha do poder, não
se dá apenas no âmbito partidário.
No exercício das políticas públicas, mais propriamente
na administração pública exercida nos três níveis
(municipal, estadual e federal), confesso que houve um inegável avanço
(com ampla contribuição dos movimentos, reconheçamos) em
termos de amparos legais e de vontade política de implementação.
O governo Lula, com todos os erros cometidos, fez a diferença neste sentido.
É inegável essa constatação. No entanto, a consolidação
das políticas públicas ainda padece de uma radical mudança
de cultura administrativa simbolizada pelo paletó na cadeira vazia. O
parasitismo eleitoral ainda é uma sombra rondando os cargos comissionados
em todos os níveis e desníveis. Afinal, foi a presença
ausente do poder público durante décadas e décadas que
permitiu, por exemplo, que o tráfico ocupasse o lugar do Estado nas periferias
do mundo. Muito especialmente deste nosso sofrido mundo latino. Esse mundo que
late aqui em João Pessoa, em comunidades como Taipa, Porto de João
Tota e outras. Pelo visto, não estamos ainda perto de uma saída
porque sempre que há uma luz no fim do túnel, parece, vem uma
locomotiva e apaga a possibilidade de seguirmos em frente. Dominar os freios
e a aceleração da locomotiva é o nosso desafio cotidiano.
Não pretendo com isso determinar a desesperança. Muito pelo contrário.
Apenas desejo lembrar que a esperança que acredito é aquela preconizada
por David Cooper: Não existe esperança. Existe uma luta.
Esta é a nossa esperança. E a minha esperança vai
sempre ao encontro dos que lutam contra a impunidade que ainda coloca em xeque
o jogral de interesses que se esconde por debaixo das togas e dos gabinetes
de administração do Produto Interno Bruto, seja na área
pública ou privada. Minha esperança segue em busca dos que ressurgem
todo dia do topo de uma indignação que nada mais é que
o mais profundo alicerce da cidadania acometida de lágrimas lúcidas.
O cumprimento das leis está submetido aos interesses políticos.
Os interesses políticos estão submetidos ao interesse econômico.
E assim, meus heróis morreram de over dose e meus inimigos estão
no poder. Nos governos, estão bons e maus executores, mas, reconheçamos
que o poder não mudou de lugar nos últimos quinhentos anos de
história brasileira.
Para seguir em frente, um único combustível é necessário:
o tesão de tomar o caldo de batatas das nossas incapacidades, refletir
sobre a desesperança dos que não vislumbram sequer a luz da locomotiva
ilusionista das mudanças radicais... E seguir em frente, adelante
siempre, endurecendo sem perder a ternura jamais, desacomodando os acomodados.
Dignificando os indignados. Tudo dentro dos limites sempre esgotados da paciência
coletiva. Pensando que cada um e cada uma de nós, respira o mesmo ar
rarefeito das mesmas impossibilidades que ressurgem a cada paradigma que se
esvai pelo ralo das emoções fugidias, dos que não pediram
para nascer e muito menos para estar expondo suas inocências nas rotas
mais violentas da sociedade contemporânea. Se é verdade que avançamos,
também é verdade que temos um longo caminho. Porque felicidade
só vale quando repartida. Já estamos cheios das alegrias efêmeras
e das encenações que buscam a mídia, não para responsabilizá-la
quando às suas culpas no quadro das imutabilidades que precisam ser destruídas.
Mas, no amparo de certas vaidades impúberes que precisam ser reconhecidas
e desmascaradas para que o mundo avance em nossas aldeias, para um patamar menos
injusto. É como se nossas angústias de mudar nossas pátrias
comuns estivessem cercadas pela delicadeza de uma bolha de sabão imersa
em valores visíveis e invisíveis. O jeito é seguir em frente.
Manter a firmeza dos princípios e colher as certezas do infinito.