Quando me detenho em seus olhos escuros imagens me vêm...
Que dissabores apossam sua alma para que estejam sempre em posição
de ataque ou defesa, armando-se de trás para frente. Que esperanças
lhe cercam nesse tom azulado que sempre destaca a pele amarela, foram noites
e noites aflitas, pensativas, corrosivas. Tirou os pêlos, e agora a sombra
branca projeta-os sempre grandes com as pálpebras semicerradas (mas quando
me olham, as pálpebras se erguem num susto, como que para deixarem-nos
livres ao desfrute, ao apreciamento e na verdade é para que sejam lançados
em míssil, torpedo, e se grudem aos meus, fiquem aqui, em mim, enquanto
o resto do corpo se mexe, as mãos adulam o colo, os lábios se
entreabrem, a face cora), por vezes recortadas pela armação dos
óculos, esse escudo.
São escuros, mas infelizmente não são pretos; são
cheios, como reservatórios, cobertos por fina película. Brilham,
por entre uns fios do cabelo que deixa crescer e que insistem em cruzar a testa,
obedecer ao rodamoinho. Que emoções eles podem transbordar, já
que esse é um brilho de poço, de profundidade; e não de
viço, de orgulho, de altivez.
Quando de mim se vão, sem que eu esteja pronto ou queira, vão
direto para baixo, o pescoço sempre se encurva, os ombros estão
sempre pesados. As maneiras do resto do corpo são sábias, comuns
e ao mesmo tempo únicas. Eles chegam no silêncio, preservam a mesma
estratégia: o canto distante, por onde todos passam, mas ninguém
os repara. Saem sempre antes, sem apegos, embaraços, uma pressa contida
numa misteriosa repassada final: eles me encaram, de cheio, mas de relance,
já indo, como se esperassem que eu os seguisse, mas sem exigências.
Quando nos encontramos de novo, lá estão eles, me provando com
a mesma calma, a mesma precisão, o mesmo toque de surpresa (como se fosse
sempre a primeira vez) encoberto pela sensação de liberdade (como
se não tivessem sido notados).
Sim, seus olhos me perturbam. Fico inquieto, querendo saber se estão
em mim, e ao mesmo tempo irritado porque sei que estão e o constato.
E a cada encontro me sinto vigiado. Sei que do canto distante, no escuro, eles
estão me examinando, eu os sinto grudados em minha pele, sinto um calor,
um abafamento, e ninguém nota! Quando não os vejo, me sinto inseguro,
sinto falta de seu interesse, par de olhos escuros.
Que mimos precisariam se estão sempre tão decididos, a não
ser uma vez, uma única vez, demonstraram vacilo: a água os ladeava
empoçada, contida, e não se dirigiam a um ponto por mais de um
segundo, e iam na frente do corpo, valentes, abrindo caminho no meio das pessoas,
do burburinho, feito facão em meio a selva cerrada, e eu os busquei,
mas quê, nem a última lanceada me deram, e se foram:choravam.
Que força é essa que imprime uma marca que me rodeia a noite toda
e arrepia os meus pêlos, sua breve lembrança como se me tivessem
tocado.
Ah, que eu anseio, talvez pelo toque, mas não o das mãos; das
frases inteiras, mas não da fala. Anseio-os mornos, girando, sorrindo,
guardados aqui, abaixo dos meus, quietos, tranqüilos, cerrados. Anseio-os
meus porque já sou deles.