A Garganta da Serpente
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La Fontaine
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Jean de La Fontaine


A águia e o mocho
(La Fontaine)

Um dia, a águia disse ao mocho, em ternas frases:
- O que lá vai, lá vai, é bom pormos-lhe ponto E fazermos as pazes.
- Eu, cá por mim, estou pronto - Respondeu ele. E os dois juraram, abraçados,
Respeitar um do outro os filhinhos amados.
- Conheceis já os meus? - disse-lhe a ave triste.
- Não - respondeu a águia. E a ave da ciência Disse:
- Tanto pior. Se nada te resiste,
Como hão de, dize lá, contar os meus filhinhos
Com a tua clemência?
Não lhes queria estar na pele, coitadinhos!
Não, não me fio em ti, porque és rainha, e os reis
Sabem agora lá para que são as leis!
Vocês fazem o mal por um capricho reles.
Filhos do meu amor! Se acaso os vês, ai deles!
- Bem. Pinta-mos então, e escusas de ter medo,
Que eu prometo aqui não lhes tocar com um dedo.
O mocho respondeu: - Aqui tens os sinais:
São muito pequenitos,
Mimosos como a flor, esbeltos e bonitos,
Como não achas mais;
Tão bem feitos, tão belos,
Que, por este retrato, hás de reconhecê-los.
Falta-me, agora, ver se tu és descuidada,
E me entra por ai por casa a Parca amaldiçoada.
Hão de agradar-te, sei, mas faze a vista grossa
E respeita-os por mim;
Bem sabes que sou pai e que os pais são assim.
Ai! Quem meus filhos beija a minha boca adoça!

Deus dera prole ao mocho. E, em noite desabrida
Que ele batia mato a agenciar a vida,
A águia andando a corso avista, de repente,
Nuns velhos casarões, todos esburacados,
Uns monstrozinhos tais, de voz tão repelente,
Tão mal feitos de corpo e tão desengraçados,
Que ela disse consigo:
- Não há que recear: não são do nosso amigo.
E com um gesto guapo
A rainha gentil logo os meteu no papo.
Mas vem de volta o mocho, o mocho, que imagina
Ficar ali de vez,
Ao achar, pobre pai, dos filhos só os pés!
Queixa-se, chora e pede aos deuses punição
Para ela, a assassina,
Que assim lhe veio encher de luto o coração!
- É tua a culpa - alguém então lhe disse - ou, antes,
É da lei que nos faz achar os semelhantes
A nós, só porque o são, amáveis, lindos, belos.
Por isso, os filhos nós perdemos, nós os pais;
Se fizeste dos teus uns elogios tais,
Como podia, dize, a águia reconhecê-los?

(fonte: "Fábulas de La Fontaine". Tradução: Jaime Vítor
Rio de Janeiro: Editora Brasil-América - EBAL - SA, 1985)

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