É tarde - ele dizia. Os olhos recusam-se a fechar: temem o tormento
dos sonhos, o semi-eterno vaguear.
É tarde - ele dizia. Revira o corpo na cama, repetindo diversas vezes
que sua sanidade permanecerá intacta diante do caos.
Mas é tarde demais para se convencer.
Cansado de suas falhas, da ausência de respostas, da falta de sentido,
de sentir demais...
Sentir demais não é o suficiente.
Olha para a lâmina de barbear que repousa tranquila sobre a escrivaninha.
Ainda se pergunta como fora parar ali, mas ignora a questão - põe-se
a admirar. O reflexo da luz naquele fio era encantador, o seduzia como as lâmpadas
fazem com as mariposas, que tonteiam com tal beleza e colidem entre si.
Sorri.
A idéia mais brilhante toma forma em sua mente. Segura com zelo tal pedaço
de metal em uma das mãos, trêmula. Deposita em seu lugar a compacta
35mm e a programa para 10 disparos a cada 2 segundos.
Primeiro disparo: a lente captura o semblante assustado daquele homem que esqueceu
de crescer.
Segundo disparo: captura a lâmina encostando na linha bem desenhada daquele
frágil pulso.
O pulso.
A lâmina.
A câmera.
O fio rubro escorregando vagarosamente.
Goteja.
O último luzir rubi, que de precioso nada tinha, assumiu sua condição
de vidro ao quebrar-se na primeira queda - que infelizmente não foi registrada
pois ele havia esquecido de recarregar as pilhas...
Realmente, era tarde demais.