A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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O último suspiro rubi

(Lina Savle)

É tarde - ele dizia. Os olhos recusam-se a fechar: temem o tormento dos sonhos, o semi-eterno vaguear.

É tarde - ele dizia. Revira o corpo na cama, repetindo diversas vezes que sua sanidade permanecerá intacta diante do caos.

Mas é tarde demais para se convencer.

Cansado de suas falhas, da ausência de respostas, da falta de sentido, de sentir demais...

Sentir demais não é o suficiente.

Olha para a lâmina de barbear que repousa tranquila sobre a escrivaninha. Ainda se pergunta como fora parar ali, mas ignora a questão - põe-se a admirar. O reflexo da luz naquele fio era encantador, o seduzia como as lâmpadas fazem com as mariposas, que tonteiam com tal beleza e colidem entre si.

Sorri.

A idéia mais brilhante toma forma em sua mente. Segura com zelo tal pedaço de metal em uma das mãos, trêmula. Deposita em seu lugar a compacta 35mm e a programa para 10 disparos a cada 2 segundos.

Primeiro disparo: a lente captura o semblante assustado daquele homem que esqueceu de crescer.

Segundo disparo: captura a lâmina encostando na linha bem desenhada daquele frágil pulso.

O pulso.

A lâmina.

A câmera.

O fio rubro escorregando vagarosamente.

Goteja.

O último luzir rubi, que de precioso nada tinha, assumiu sua condição de vidro ao quebrar-se na primeira queda - que infelizmente não foi registrada pois ele havia esquecido de recarregar as pilhas...

Realmente, era tarde demais.

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