A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Embriagado pelas possibilidades

(Lina Savle)

Embriagado pelas possibilidades e entorpecido pelo confronto do ar quente e frio, lutou contra o embaralho da vista - aquela altura estava tão louco de floral que via borboletas verdes nas orelhas alheias.

A noite anterior fora o suficiente para saber que de nada mais tinha certeza - nem sobre o sentir, nem sobre o pensar, quanto menos sobre o caminhar. Já não tinha mais controle. O cinismo agarrava sua cintura, clamando por atenção, mas era inútil - estava bêbado em sua vergonha insone.

Vinte gotas, dizia a bula. Vinte a cada 6 horas: acalma o ânimo, mata o medo, arranca a ansiedade e presenteia com o prazer de um REM.

Então, vinte gotas engoliu.

Vinte segundos de amargor - 30% vol de álcool ingeridos, bem menos que uma dose básica de vodka, mas o suficiente para amargar a boca. Seria o suficiente? Estava tão acostumado com os copos de russa ou polonesa que duvidou das gotículas mágicas - se não funcionassem, onde mais encontraria a tal paz necessária para o sono dos justos (nem tão justos assim)?

Olhou para o gargalho da Belvedere afanada na noite anterior. Viu-se tentado a recorrer a tal saída novamente, mas recusou-se a desperdiçar as últimas lágrimas da fina bebida com uma situação tão deplorável como a que se encontrava.

Saiu. Atravessou a rua. Sentou-se na calçada e pôs-se a admirar a fachada de sua casa. Lembrou dos momentos que ali passou - e que raros foram os bons - e desejou imensamente rasgar com o estilete quem o levou para a desgraça de amar...

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