Embriagado pelas possibilidades e entorpecido pelo confronto do ar quente e
frio, lutou contra o embaralho da vista - aquela altura estava tão louco
de floral que via borboletas verdes nas orelhas alheias.
A noite anterior fora o suficiente para saber que de nada mais tinha certeza
- nem sobre o sentir, nem sobre o pensar, quanto menos sobre o caminhar. Já
não tinha mais controle. O cinismo agarrava sua cintura, clamando por
atenção, mas era inútil - estava bêbado em sua vergonha
insone.
Vinte gotas, dizia a bula. Vinte a cada 6 horas: acalma o ânimo, mata
o medo, arranca a ansiedade e presenteia com o prazer de um REM.
Então, vinte gotas engoliu.
Vinte segundos de amargor - 30% vol de álcool ingeridos, bem menos que
uma dose básica de vodka, mas o suficiente para amargar a boca. Seria
o suficiente? Estava tão acostumado com os copos de russa ou polonesa
que duvidou das gotículas mágicas - se não funcionassem,
onde mais encontraria a tal paz necessária para o sono dos justos (nem
tão justos assim)?
Olhou para o gargalho da Belvedere afanada na noite anterior. Viu-se tentado
a recorrer a tal saída novamente, mas recusou-se a desperdiçar
as últimas lágrimas da fina bebida com uma situação
tão deplorável como a que se encontrava.
Saiu. Atravessou a rua. Sentou-se na calçada e pôs-se a admirar
a fachada de sua casa. Lembrou dos momentos que ali passou - e que raros foram
os bons - e desejou imensamente rasgar com o estilete quem o levou para a desgraça
de amar...