Em volta do meu umbigo, existem coisas que me deixam perplexo e intrigado.
Embaixo, entre as pernas, um ser primitivo e voraz. Dragão insaciável
a exigir, como um deus mitológico, sua cota de sacrifício de virgens,
sempre renovada.
Sua saciedade é temporária, fugaz. Seus apetite pontagruélico,
com suas urgências, quando não satisfeito, me devora a paz, me
acorda e me faz caçador insone e atarantado a farejar presas fáceis.
Mais em cima, no meio, um marcador apaixonado do tempo. Irrigador a bombear
o sangue que me ferve as veias ou, no inverno dos sentimentos, o líquido
frio a me angustiar pelo medo de nunca mais sentir o amor.
É essa bomba relógio vermelha que determina a sinceridade do meu
afeto. Exigente, não se engana mesmo quando me engano. Não acelera
nem pulsa mais rápido se economizo carinho, sonego a entrega.
Aos lados desse barril amoroso de pólvora, dois foles incansáveis.
Se enchem de ar, vem o prana que me apazigua e tonifica. Se soltam o ar, jogam
para fora meu ódio e cansaço.
E lá no topo, dentro da minha cabeça, um filósofo louco,
um perguntador com mil respostas em aberto.
Talvez no oco do crânio, habite o meu Eu.
Mas isso não é certo nem exato, pois meu Eu duvida da sua própria
existência. Recobrindo tudo, sexo, coração, pulmões,
cérebro, ossos, músculos, de ponta a ponta, uma película
sensível ao toque.
Reagindo ao afago, se torna parte de outros corpos, expandida e integrada a
pele única da raça humana.
Já aos socos, arranhões, mordidas e recusas, fecha seus poros
a qualquer aproximação e contato.
E, finalmente, em algum lugar impreciso e sutil, fica minha alma.
Que se sabe e se percebe parte de algo maior, misterioso e inalcançável.
Exatamente como meu umbigo, rodeado que é pelas pessoas, pelo mundo e
pelo universo.
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