A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Em volta do meu umbigo

(Ulisses Tavares)

Em volta do meu umbigo, existem coisas que me deixam perplexo e intrigado.

Embaixo, entre as pernas, um ser primitivo e voraz. Dragão insaciável a exigir, como um deus mitológico, sua cota de sacrifício de virgens, sempre renovada.

Sua saciedade é temporária, fugaz. Seus apetite pontagruélico, com suas urgências, quando não satisfeito, me devora a paz, me acorda e me faz caçador insone e atarantado a farejar presas fáceis.

Mais em cima, no meio, um marcador apaixonado do tempo. Irrigador a bombear o sangue que me ferve as veias ou, no inverno dos sentimentos, o líquido frio a me angustiar pelo medo de nunca mais sentir o amor.

É essa bomba relógio vermelha que determina a sinceridade do meu afeto. Exigente, não se engana mesmo quando me engano. Não acelera nem pulsa mais rápido se economizo carinho, sonego a entrega.

Aos lados desse barril amoroso de pólvora, dois foles incansáveis. Se enchem de ar, vem o prana que me apazigua e tonifica. Se soltam o ar, jogam para fora meu ódio e cansaço.

E lá no topo, dentro da minha cabeça, um filósofo louco, um perguntador com mil respostas em aberto.

Talvez no oco do crânio, habite o meu Eu.

Mas isso não é certo nem exato, pois meu Eu duvida da sua própria existência. Recobrindo tudo, sexo, coração, pulmões, cérebro, ossos, músculos, de ponta a ponta, uma película sensível ao toque.

Reagindo ao afago, se torna parte de outros corpos, expandida e integrada a pele única da raça humana.

Já aos socos, arranhões, mordidas e recusas, fecha seus poros a qualquer aproximação e contato.

E, finalmente, em algum lugar impreciso e sutil, fica minha alma.

Que se sabe e se percebe parte de algo maior, misterioso e inalcançável.

Exatamente como meu umbigo, rodeado que é pelas pessoas, pelo mundo e pelo universo.

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