Poetas, namorados, mamães, seresteiros, correi... É chegada a
hora de escrever e cantar... Talvez a derradeira noite sem matar.
Adaptei o refrão da música do Gilberto Gil porque os tempos são
outros.
E muito mais brabos, raivosos, sanguinolentos.
Na época da música, a ameaça era o homem chegando na Lua
e tirando o charme dela.
Por enquanto ainda não aconteceu. Embora, conhecendo o poder do predador
bípede humano, como diria o filósofo Schopenhauer, daqui a pouco
olharemos para o alto e veremos enormes anúncios luminosos substituindo
o luar.
Mas isso é refresco perto da onda de infanticídios, matricídios,
parricídios e assassinatos de ex-mulheres e ex-namoradas e ex-amantes.
O amorticídio virou moda.
A ex-esposa arrumou outro?
Vai lá e mata ela e o outro.
A mãe da namorada é contra o namoro?
Vai lá e mata a mãe e a namorada de lambuja.
O pai expulsou o folgado de casa?
Trucida, rouba e tudo bem. Se a namorada reclamar, dá um fim nela também.
A namorada não quer mais beijinhos do machistão?
Assassina e esquarteja.
A polícia vai prender o bandidão?
Ele põe a faca ou a arma na cabeça do próprio filho para
se proteger.
Nasceu o bebê da gravidez indesejada?
A jovem mamãe simplesmente joga o recém-nascido no rio ou na lata
de lixo.
Rompeu-se o dique dos limites do amor. Virou um pulp fiction realista e covarde.
Triste mas inevitável. Uma sociedade que transformou o amor em mercadoria
o próximo passo seria mesmo tornar o amor descartável, um traste,
um nada.
Mãe mata filho, pai aprisiona e come filha, ex-amantes e ex-maridos assassinam
as ex-musas numa boa, a sangue frio.
Esqueçam mães doando os filhos para uma possível vida melhor.
Esqueçam amores perdidos afogando as mágoas em álcool e
versos.
O amor está de luto. Porque, hoje, quem ama, mata sim. E nem sente remorsos.
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