O verão incendiara o outono e ameaçava propagar-se inverno adentro.
O planeta está com febre, pensou Carlos, é isto, é uma
doença do tempo... A Terra, revoltada com a desumanidade, a cozinhava
em fogo lento. Carlos sorriu ao pensar que Deus prometera ao homem nunca mais
enviar um dilúvio, mas deixara em aberto outras possibilidades. Afinal,
era malicioso, o patrãozinho.
Àquela hora caía bem um pretinho e ele rumou para a Bolsa do Café.
Carlos sorriu admirando a fachada da Bolsa. Observou o prédio antes de
entrar.
Ali ele poderia refrescar-se com um fantástico café gelado com
laranja, delícia tropical e exótica.
Aos domingos ele ás vezes vinha com a esposa, para assistir as apresentações
musicais que aconteciam na antiga sala do pregão. Chegavam mais cedo
para saborear um expresso com creme e vários dedos de prosa com os amigos.
Depois, sentado nas cadeiras de madeira entalhadas, velhas histórias
de família pediam-lhe para ser contadas.
Tio Chico fora provador de café. A avó guardara algumas lembranças
do tempo em que o tio estava bem: um Buda de marfim, estátuas chinesas,
um jogo de jantar inglês que ela usava nas ceias de Natal. O resto fora-se.
Para provar café não era qualquer um que servia, não. Homem
que provasse café não podia fumar nem beber, que perdia o gosto.
Provador de café era profissão importante e o sujeito fazia lá
um bom pé de meia.
O tio cedera à embriagues em alguma noite de boemia, erro fatal. O álcool
matara o paladar, e, não bastasse isso, o infeliz tinha nos genes o alcoolismo.
Todavia, nem toda história familiar ligada ao café era triste.
Tia Arlinda inventara um doce feito com pó de café, especiarias
e chocolate em barra, crocante, divino. Com a venda dos doces ia comprando seu
enxoval. Navio atracava, o pai levava os oficiais para jantar em casa; a sobremesa
gabada e esperada era o 'doce da menina'. Assim ela conheceu e apaixonou-se
pelo jovem brasileiro, enquanto o pai, ignorantão, a queria casada com
um português de raiz, como ele, nascido e criado em Lisboa. A tia pulou
muro, fugiu de casa, ameaçou tomar formicida, em vão. O pai casou-a
à força.
Décadas se passaram. Arlinda enviuvou e recebeu certa tarde uma visita
com rosas vermelhas em uma das mãos e anel de brilhantes no bolso. Era
o antigo namorado,ainda solteiro, que vinha pedi-la em casamento, ambos já
passados dos setenta.
Carlos lembrava-se do casal alegre de velhinhos a caminhar de braços
dados pelos jardins da orla ao pôr-do-sol, pagando-lhe pipocas, tirando
fotos na fonte luminosa - a primeira do país, diziam - ou explicando-lhe
o funcionamento do relógio de sol, objeto curioso em meio ao canteiro
de flores do calçadão da praia.
E assim divagava Carlos, por culpa do ascendente em Gêmeos, que o deixava
nas nuvens, perdido entre idéias que pretendia colocar no papel, em um
dia qualquer.
Carlos dava-se conta de que estava ficando saudosista, a viver de lembranças,
cercado das fantasias familiares.
Esse cheirinho de café... Santos, terrinha antiga, tão cheia de
histórias dentro da História, convidando a sonhar e a escrever.
Se esse prédio da Bolsa Oficial do Café falasse, quantos dramas,
quantos romances, quantas coisas pitorescas não nos contaria!
(2003 - primeiro lugar no Primeiro Concurso Literário Mário Covas Júnior na categoria adulto com a crônica "Se essas paredes falassem...")