-Nut, a deusa da noite, estende seu manto negro para proteger o sono dos homens.
-Nut?
-Nut, a deusa da noite, cobre seus filhos com esse magnífico manto estrelado.
E enquanto minha tia falava, as últimas luzes do dia sumiram por trás
da serra e escureceu. Era uma noite sem lua. Eu podia ouvir os vagalhões
do mar e o farfalhar dos coqueiros soava mais alto. Milhares de sons apareciam
com as trevas - sapos, corujas, mariposas em vôo. O mundo trocava as cores
por sons. E a orquestração era magnífica.
Pude sentir os cheiros, que, à noite, ficam mais intensos. Lírios,
camélias, damas da noite...e eu quase podia provar o mar no sabor salgado
da brisa.
Ah! Como eu me sentia segura nos braços amorosos de Nut, que, nas minhas
recordações, confunde-se com minha tia.
Por isso eu andava confiantemente pela casa às escuras, se acordasse
com sede durante a madrugada. Por isso também era eu que, quando faltava
energia, subia as escadas, sozinho, e ia à despensa buscar velas e fósforos.
-Tia, essa deusa Nut é de que país?
-Egito, meu amor.
-Aquele país das pirâmides e dos desertos?
-E dos faraós.
-Da Esfinge.
-Das tempestades de areia.
-Dos oásis.
-Dos camelos.
E assim os temores que eu nem chegava a sentir transformavam-se em exóticas
maravilhas.
Aprendi a amar a noite, e decifrar em seus cheiros e sons tão bem quanto
nas cores e formas do dia.
É por isso que durante as horas mais negras, eu prossigo como quem atravessa
uma tempestade de areia no deserto, na certeza de que as tempestades passam,
e há sempre um oásis um pouco mais adiante.