A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Possibilidades e sonhos da madeira

(Almandrade)

Um acidente
Na paisagem
Ninguém e nada
Uma árvore
Madeira e homem
Solidão do mundo
Natureza ácida.

A madeira é matéria prima e objeto da exposição. Museu de Arte da Bahia. Curadoria Sylvia Athayde. Artistas, designers e artesãos: Com sua porta monumental em vinhático e jacarandá toda entalhada, a madeira é o cartão de visita do próprio Museu. Mais do que um tema de uma exposição, a madeira é uma matéria prima que sempre esteve presente na história do homem e seus objetos culturais, sem esquecer as implicações com a natureza, um relacionamento que é preciso corrigir: o homem e o meio ambiente. Árvores que custaram muitos anos de trabalho da natureza são sacrificadas diariamente num ritual de destruição do próprio homem. Obsessões da atualidade, do progresso e do desenvolvimento econômico.

Visitando a exposição me lembrei do poeta francês Francis Ponge e seu poema "O Engradado":

"Armado de madeira que no termo de seu uso possa ser quebrado sem esforço, não serve duas vezes. Desse modo dura menos ainda que os gêneros fundentes ou nebulosos que encerra."

"Assim, em toda esquina das ruas que levam aos mercados, reluz com o brilho sem vaidade do pinho branco."

Os poetas têm essa virtude de fazer jorrar nas coisas mais simples e insignificantes do mundo um fluxo poético. De um caixote de uma madeira vulgar destinada ao lixo vibra um sentimento de luxo e beleza. "A qualidade que se descobre em uma coisa torna-se rapidamente argumentos a favor do sentimento humano", (Ponge). Quem não teve ou tem um brinquedo, uma gaveta, uma caixa para guardar documentos, uma jóia, um objeto qualquer de madeira, suporte de muitos devaneios.

A exposição é uma viagem no tempo e nas possibilidades de uso da madeira. Em diversos procedimentos poéticos e utilitários, sagrados e profanos. A tradição, o moderno e o contemporâneo. Ex- votos, carrancas, santos, oratório, jóias, objetos utilitários, mesas e cadeiras, objetos de arte. Tudo em madeira. A nobreza do jacarandá fala de um passado privilegiado. É a presença concreta de um elemento da natureza e sua contribuição na construção do mundo habitado pelo homem. A madeira testemunha a história do conhecimento, as relações com a estética e a exploração dos recursos naturais. Ver a exposição é pensar sobre os privilégios e significados dessa matéria prima que a natureza disponibilizou como um presente para o homem.


A dignidade do aspecto artesanal de certas peças, trabalhadas com ferramentas rudimentares não contradiz a contemporaneidade, nem a sentença de Da Vinci para a arte "coisa mental". A razão também se concretiza no saber das mãos. Sabemos que a idéia de progresso, essa visão evolucionista não dá conta do fazer artístico, para a arte, as novas técnicas justapõem às existentes. O mais velho não é ultrapassado pelo mais novo. O machado que talha a cadeira rústica, rude, aparentemente agressiva, não foi superado pelos novos recursos tecnológicos, na mão do artista é um instrumento capaz de revelar uma sensibilidade expressionista. A essência e a pureza do gesto criador. Na diversidade dos objetos expostos, de várias épocas, os significados se multiplicam na simplicidade da matéria, esboçando uma possível "arqueologia" do saber das mãos.

Contaminado pela fantasia dos poetas percorri a exposição como se estivesse numa pequena floresta, climatizada, construída pelo olhar de um curador. O museu como o lugar de encontro da arte com a natureza. Mas uma coisa é certa o machado, a serra, o formão, etc. do artista ou artesão, do carpinteiro ou marceneiro que executaram esses objetos expostos no Museu, não são aqueles que destroem as matas, eles inventam com a sobra do que foi devastado, esses produtos para uma outra natureza, ou melhor, a estética, a cultura. Não devolvem o que foi destruído, mas em alguns casos, são gritos ou manifestos, para citar um pioneiro: Krajcberg.

Pensei em falar da exposição, mas acabei me perdendo nas minhas divagações, quanto aos trabalhos expostos os visitantes que tirem suas conclusões. Se a fala não substitui o olhar, o melhor é ver a exposição.

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