| Almandrade |
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Entre a cultura e o mercado
(Almandrade)
A fotografia é um fazer cheio de segredos e curiosidades que o fotógrafo
não revela. O manuseio dos equipamentos, o trabalho no laboratório
e um olhar audacioso que capta e redimensiona os objetos no espaço inventado
pela fotografia. Outras visualidades são apresentadas e mostram o que
antes era invisível. "Inicialmente, a fotografia, para surpreender,
fotografa o notável: mas, em breve, por meio de uma reviravolta conhecida,
ela decreta que é notável aquilo que fotografa." (Roland
Barthes). No trabalho de Mario Cravo Neto, a fotografia é um procedimento
contemporâneo do pensamento e do sentimento, com particularidades que
desafiam as leis do visível. Com seu olhar inquieto e aguçado
descobre o imaginário fotográfico e apresenta um repertório
de significantes notáveis.
O artista não procura a verdade, mas indagações e a invenção
de uma sintaxe. Fixa no papel fotográfico uma idéia do real contaminado
pela emoção e uma percepção subjetiva. A fotografia
é o pensamento de um instante ou um espetáculo de luz e cor que
pode durar uma eternidade. Nesse confronto de trevas e luz, a versatilidade
e o perfeccionismo do fotógrafo, na busca de uma poética da luz
e suas tensões. A realidade é apresentada em pedaços de
mistérios. O enquadramento recorta o detalhe do cotidiano místico
religioso ou profano, e cria um mundo primordial, onde o visível assume
outras dimensões. O homem, o seu lugar, seus objetos e suas crenças.
Imagens elaboradas, trabalhadas em laboratório. A experiência pessoal
e o aparato técnico são responsáveis por uma usina de imagens
provocativas que acionam as sensações de desejo, medo e fantasia.
Seja uma fotografia de um corpo, o detalhe de um ritual, uma paisagem ou uma
festa, o objeto fotografado é sempre uma linguagem que aponta outros
significados, são apresentados ao olhar do espectador alterando a idéia
de realidade, congelados no tempo como uma "Flecha em Repouso". Um
desejo e um método de fotografar. Luz e abstração, o homem
e a natureza se encontram, num cenário imóvel e singelo ou barroco
e dramático. Os objetos e as paisagens ressuscitam de sua própria
sombra ou da penumbra, iluminados pelo olho mágico do fotógrafo.
O abismo e o mistério silencioso que nos separa da experiência
do mundo que entendemos como real.
A banalidade e o excêntrico são filtrados pelo olhar da câmara
fotográfica e o olhar interior do artista, num gesto de transgressão
ao que é convencional. O singular, a emoção, o rito e o
saber. Objetos e personalidades anônimos do cotidiano ou da cultura afro
são significantes visuais ou imagens enigmáticas, inteligentemente
repousadas na bi-dimensionalidade da foto. A máquina e o objeto fotografado.
A cor e a luz, figura e fundo explicitam outras leituras. O ritual da própria
fotografia. Vivências culturais invisíveis fora do universo racional,
emocional e político da arte. Em grandes formatos essas fotos mostram
lugares fora da geografia, idealizados. Os vários temas não importam,
eles estão subordinados aos efeitos de uma luminosidade teatral.
A fotografia de Cravo Neto amplia a noção e o limite do que deve
ser olhado, na ilusão se um espaço criado pela perspectiva e pela
imaginação. Concentra no essencial. Assume sua condição
de linguagem específica tendo com tema principal seus próprios
problemas: a distribuição da luz, o claro/escuro, a densidade
ou o vazio do fundo, a construção de uma superfície estética.
Essa é a minha leitura. Mas como toda leitura dos objetos de arte é
uma apropriação do olhar do outro, de forma também particular
e subjetiva, o leitor/ espectador tem o direito de desconfiar e fazer sua própria
interpretação. Cada sujeito tem seus devaneios e suas preocupações,
os segredos do artista pertencem unicamente a ele. Nós, espectadores,
insinuamos em desvendá-los e criamos outros.
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