A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Uma cantada dos infernos

(José Sarmento)

Vai um weifer, doutor?

Não. Obrigado.

Vai doutor, leva, é baratinho e não dói.

Não quero, obrigado...

Não me diga que não tem uma moeda sobrando na pochete?

Tenho, mas é pra outras pendengas.

Pra gasolina?

Não.

Pagar cartão de crédito?

Não.

A conta do celular?

Não.

Então aproveita. É só um real o weifer e se não é pra pagar nada, serve pra comprar o doce.

Não quero. Obrigado.

Como é difícil tirar um real de vocês.

Quer ganhar mais?

Como assim?

Entra no meu carro que te dou 100.

100 pra fazer o que?

Varias coisas.

Como assim?

Topa fazer de tudo?

Tudo o que?

Tudo!

Mas tudo não diz nada. Seja mais objetivo.

Tou precisando de uma companhia.

Pra que doutor?

Pra fazer umas coisas comigo.

Que coisas?

Escute aqui, sei que você não é burra de não tá entendo o que tou falando.

Não tou não, doutor.

Quanto tempo você demora pra ganhar 100 reais?

Uns 15 dias.

Não acha legal ganhar 100 em menos de duas horas?

Pra fazer o que, doutor?

Não se faça de desentendida, você é uma garota inteligente, bonita...

Cê acha?

Depois de uma ducha no capricho fica mais ainda.

Cê acha?

Sobre cama macia, cheirosinha, vai valer mais de 100.

Pra fazer o que?

Eu quero sua "buceta" por 100 reais por duas horas. Você topa?

O doutor tá é doido!

Tou doido por você.

Eu sou virgem.

Pago dobrado.

Até tou precisando de dinheiro e de perder a virgindade. Sou motivo de gozação das amigas de escola, mas assim não dá. A minha mãe diz que tem que ter amor e só pra casar.

Sua mãe não tá precisando de 200 reais?

Precisando tá, senão não tava aqui embaixo desse solão tentando arrancar uma moeda de 1 real do doutor.

Com 200 reais você vai ao mercado, faz uma compra e leva pra casa.

E o que digo pra minha mãe?

Que você achou o dinheiro. Em casa você tem de tudo?

Não.

Então...

Doutor, os outros carros querem passar.

Deixa esses filhos da puta buzinar, vou até desligar o carro e levantar a tampa traseira pra dizer que quebrou.

O doutor é doido.

Tou doido por você. Por esses seus olhos.

Vixe!

Por esses peitos que me dão vontade de chupar.

Isso é coisa feia, doutor.

Feio é você ficar aí nesse solão tentando 1 real de um e de outro e ficar escutando cantada como a minha.

Quem faz o que o doutor quer por dinheiro é prostituta.

Prostituição hoje não é crime nem pecado. Crime é o que vc faz quase de graça. Com esse corpo aí, você vai viver bem melhor e se for esperta ficar rica.

Tem um monte delas que fica rica vendendo o corpo?

Se tem...

Não tenho coragem, sou muito nova, tenho medo, meus pais me expulsariam de casa se eu fizesse uma coisa dessas.

Digo pra você que não tira pedaço. Lavou tá novo.

E a alma, doutor, não fica escangalhada?

Fica se você não aceitar.

Duvido que sua vida seja açucarada vendendo esses doces.

Não é doce, mas também não é amarga como fel.

Se não é uma coisa nem outra, por que não muda pra ver no que dá?

Não sei...

É só entrar no carro e sua vida muda.

Como pode uma vida mudar por causa de 200 reais?

Esse é dinheiro inicial. Se você aceitar e der tudo certo, todo dia você pode ganhar até 1000.

1000, doutor?

Se for esperta até 1500.

1500?

Com esse corpo, bonita como é, e esses peitos e esses olhos, logo tá até pousando pra revista.

É verdade, doutor?

E não é...? É só contar dos seus desejos pra pessoa certa, que sou eu, que você vai voar alto.Vamo?

Não. Prefiro vender os doces.

Deixa de ser boba, entra logo. Você só vai sair ganhando.

Doutor, não me faça sonhar.

Não é proibido.

Pra pobre que nem eu, é.

Não é. É só você usar o que tem de melhor.

E o que eu tenho de melhor?

Seu corpo.Vende ele que você sai da pindaíba. Aproveita enquanto é nova.

Não sei...Posso falar com minha mãe...

Então vai.

Tá bom...

Vai logo filha desalmada, entra logo naquele carro, não vê que é nossa salvação.

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