Não resistiu a tanto abuso em construção que saiu dos traços
da sua criação.
Era hora de se revoltar com toda mazela que assistia de onde estava.
Seria hora de partir pra cima com a fúria dos piores homens sem sentimento
de perda ou ganho e pôr a lâmina para perfurar um a um sem piedade
aparente os intrusos da sua residência.
Nunca viram tanto ódio em pessoa de índole tão pacata,
que sempre empregou nos gestos, suave tempero de educado senhor.
Levava a lamina embainhada de fio amolado e ponta afiada no esmeril da esperança
em ver acabado sua vingança sem muito tardar. Enfiada à cintura
segura pelo cós da calça, escondida entre o meio de sua revolta
pelo que via e sentia, levando na cara também, uma careta-máscara
que exportava pesado terror.
Quando adentrou a casa que saiu dos traços criados pela sua técnica
e imaginação aguçada de arquiteto clássico, lá
pelo final do século vinte e que fora projetada para ser doada a filha
que estava para casar e que passou a abrigar outras gerações da
família, não resistiu a se enfurecer mais ainda e começou
a pegar um por um aqueles que se diziam ser a vanguarda da arte da criação
contemporânea.
Não ia deixar a casa dos sonhos, construída em grande área
arborizada, possuindo trinta espaçosos cômodos em estilo arquitetônico
francês, evidenciando fachada de grande vitral colorido decorando hall
de entrada. Sabia que sua criação atraia e alegrava todos os visitantes,
por se enervar de prazer, não faltando o mesmo sentimento quando se deparavam
com o espaçoso jardim inspirado no famoso palácio francês,
o Versalhes, ganhando as raízes dos roseirais, energia suficiente da
terra sempre adubada para encantar os românticos e apaixonados com suas
flores viçosas.
Casa que não viu crescer os filhos, tampouco os netos, por conseguinte
também a ramagem folheada a ouro da árvore genealógica
da grande família, por ter sido escolhido para viver no mundo espiritual
antes do seu término.
Não viu a sua cria robusta e bem acabada recebendo as pilastras e fachadas
e escadarias, o estilo clássico de vanguarda, que se encontra fincada
em rico solo, receber os amigos dos descendentes em festas regadas ao melhor
vinho e champanhe e uísque escocês sem passar pelas orlas Paraguaias.
Sabem que estendeu dias na planificação dos desenhos da residência,
nas horas em vagar dos projetos arquitetônicos de responsabilidade sua
de obras municipais paulistanas, sonhando em dar a filha uma moradia digna de
sua casta descendência, riscando e amassando pequenas plantas com traços
que ganhava os papeis e que não achava que era o que devia ser os móveis
e objetos de decoração, tentando dar forma nos traços criados
nas escalas estudados na faculdade de arquitetura.
Não gostava do que via ser apresentado e representado sem inibição
pelos poetas que pela casa era escolhidos para os lançamentos de livros,
pelos artistas que faziam suas obras e expunha em instalações
de vanguarda.
Achava que as obras que lá freqüentavam eram textos criados sem
conexão com a realidade dos tempos atuais e da sociedade.
Para dar andamento ao que se dispôs a fazer, que por muito tempo o fez
matutar de como deveria agir, surgiu entrando pela larga porta principal já
com a faca empunhada em riste, num ínfimo andamento em que um autor lia
um poema de sua criação, gesticulando para todos os cantos.
A faca desinibida fora retirada da cintura num só solavanco de endiabradas
mãos de homem rude ao pisar no último degrau da subida, e entrou
pela parte do corpo que poderia encontrar o melhor órgão que existe
para fazer, por ocasião, parar de bater e dar os últimos suspiros
os pulmões. Encontrando o coração, foi lá que se
alojou a ponta afiada e parte da lâmina vindo a cortar a veia aorta. Puxando-a
para si e já de olho em outro autor canastrão, deixou-se cair
nas escadarias o berrante e delirante homem poeta, vindo a ficar esguichando
no piso de mármore, o vermelhão de dentro de si.
Já correndo ao outro grande canastrão da escrita que fazia sua
performance em sala exígua ao grande hall de entrada, chegou a tempo
de encontrá-lo ainda pelo meio do poema que achava que era sua obra prima,
quando num lance de trepides instantânea, fez o braço com toda
força dos tendões e nervos, levar a lâmina de encontro ao
abdômen.
Um grito estridente se ouviu ecoando por toda área da grande avenida,
vindo a se despregar das paredes, algumas pinturas de grandes artistas do passado,
pelo medo de serem também confundidos como autores contemporâneos.
Arrastando a lâmina, tripas saíram deixando o oco da barriga que
guardava os intestinos. Grande obra de arte acha que criou fazendo aquele intestino
se expor como obra de arte com cores berrantes.
Depressa chegou a outra sala com o povo indo atrás achando ser parte
de uma peça encenada com a maestria da veracidade. Nessa encontrou o
autor recitando, isto é, gritando, a última estrofe do seu épico
poema. Encurralado entre o encontro de duas paredes, ficou sem saída
na ampla galeria que se achava sob temperatura do ar condicionada, que expunha
algumas obras também contemporâneas, formando um mosaico de muitas
cores e estilos.
Pinturas clássicas, neoclássicas, modernas, primitivas, renascentistas,
barrocas, rococós, românticas, impressionistas, cubistas, expressionistas,
futuristas, surrealistas e pop arte, derramavam lágrimas pelo semblante
rosto, por saber que, em outras salas, havia uma exposição e instalação
de arte contemporânea.
Os visitantes davam ao momento movimento de êxtase com o que assistiam,
e de certo modo, estupefatos uns, outros nem tanto, por ser de sentimentos diversos
todas as gentes.
Nos infernos ou no céu, já prestavam juramento sobre as mentiras
que empreenderam no decorrer da vida, ou as pendentes verdades que tenham neles
existidos, os dois já entregues a branquice da cor do corpo de quem perde
a vida terrena, tendo-os muito mais dificuldade em explicar do por que se interessar
tanto em ser chamado poeta, artista tanta gente vindos de casta burguesia refinada.
Correu o encurralado poeta que deixou de ser por um instante, por ter dado um
drible de corpo no enfezado e agora assassino arquiteto com a faca ensangüentada
na mão. Saiu em busca de proteção tentando fugir de mãos
ignotas, protegendo no peito o filho da sua criação literária.
Na fuga acabaram visitando algumas salas, vindo no decorrer da perseguição
de quem queria atacar e de quem queria fugir, a destruir as instalações
dos artistas que gritavam com as mãos na cabeça desesperados pedindo
que não destruíssem o que criaram com tanto sacrifício
tendo-os muito mais sacrifício arranjar lugar para expor.
Destruída a arte contemporânea, morto o último perseguido
com uma facada nas costas, a platéia visitante da casa das artes começou
a aplaudir a encenação, começando a fugir quando caiu a
ficha, pelo aparecimento de grande aparato de policiais armados e prender o
assassino.