Vivem acorrentados num agonizante fragor, com animais parasitários cravados
pelo corpo se lambuzando dos sonhos que não deram conta de dar certo,
pelo consumo produzido pelo capitalismo selvagem ser digerido por aqueles que
conseguiram se escravizar com menos compaixão de si mesmo, imagine de
terceiros.
Tornaram-se escravos e tentam se movimentar para encontrar saída que
lhe dê melhor dividendo para conseguir pagar mais uma prestação
atrasada de diversos itens que acham que podem e precisam possuir.
Algum sentido vagueia para pensar o que podem fazer para sair com vida de onde
estão amarrados por correntes inquebráveis, pelas incertezas que
o mercado globalizado de ações e reações do neocapitalismo
possa trazer ao sistema de consumo sem freio ABS que o faça parar antes
de cair no despenhadeiro sem volta.
Ferragem com engrenagens bem distribuídas prende muitos mortos vivos
sobre moderno sistema de informação, apontando para cima lanças
para ser cravadas no corpo, por qualquer movimento em falso que vierem a cometer
contra os poderosos senhores donos de todos os movimentos financeiros.
Serão perfurados, vindos a ser varados de um lado a outro se não
conseguirem se encaixar em novas engrenagens que mentes insanas criam diuturnamente.
O cenário é de horror caótico, com flechas apontadas para
qualquer direção vindas de todo lugar, prontas para ser disparadas
em quem consiga se desvencilhar das ferramentas impostas por quem comanda o
mercado de ações.
A porcaria apodrecida e apagada no chiqueiro dos que podem tudo ofoscada pela
cor da incerteza, é rota para os inumanos encontrar onde se alimentar,
estando ali a centenas de anos se refrescando nas imundices internacionais.
Ao lado e em qualquer canto que o espaço ceda lugar, outros acorrentados
alimentam outros tipos de animais que para viver precisam de terceiros com vida
plena e saúde sobrando pelas orlas da corrupção pública
ou privada, que apresente necessidade e que tenha sangue e subserviência
para qualquer ocasião.
Neste cárcere, presos sub o julgo do poder que muitos detêm para
sugar o que resta como material de capital, muitos deles acreditam que é
o fim para quem achou que ia viver um pouco mais, já que tem subido a
perspectiva de vida dos brasileiros.
Os abutres descansam pelas saliências das paredes de pedras extraídas
de pedreiras que produzem os mais finos mármores, que andam escurecidos
pelo lodo secular da especulação, esperando a morte eminente de
algum ser vivo que vive sendo sugado também por bandos sempre em revoada
de morcegos carnívoros, prontos para pegar quinhão de bens para
construir reputação de bom investidor.
Ratos são vistos esperando o anoitecer para sair das tocas e abocanhar
seu milhão que acabou de virar cinza no decorrer da baixa de ações.
São filhos de deus e precisam de resto de alimento para não sucumbir
em suas locas escuras de degeneração, na umidade do buraco gruta
mundo imundo.
Por que tentei ser o que fui, grita um deles com papéis sem valor não
mão, se em todo lugar que ia não encontrava conciliação,
só obrigação?
Devia ter me tornado assassino dos donos do poder desta tormenta, grita outro.
Não estaria morrendo aos poucos sem poder me defender do fracasso do
lucro fácil que sonhei.
Os vermes que precisam de sangue dos miseráveis engordam sem precisar
se locomover por muito, grita um terceiro, pegando nossos míseros investimentos
em ações sem reações.
Encontra quem o satisfaça sem receber na fuça a força de
um coice a fim de dilapidar o inimigo. Por mísera quantia compra qualquer
um que queira ser no futuro um co-participe dos afortunados de valores vindos
da escravidão branca.
A gritaria ecoa de muitas gargantas que só têm esse órgão
para se defender, já que as amarras não os deixa mover-se por
ter queimado o que tinha em dinheiro embaixo do colchão. Na verdade,
todos gritam para ninguém, pois que só conseguem soltar a voz
quando estão longe daqueles que mandaram prender-lhes.
Nosso sangue os alimenta por sermos presas do poder que emana do capital especulativo.
Ah se poder eu tivesse para quebrar essas correntes e descerrá-las nas
costas arrombando ferida que os ensinassem a ser gente mais adiante.
Mim respondam: será que aprenderiam a respeitar os subalternos oriundos
da miséria absoluta que produziu este país ao longo de centenas
de anos?
Na escuridão desse cárcere que muitos fazem de tudo para participar,
ninguém sairá ileso de ser sugado, mordido, triturado, amarrado
pelas correntes do metal do desenvolvimento capitalista. Cada um que se cuide
para não ser sugado pelos morcegos, sanguessugas, ratos e abutres que
nutrem amor pela carne de novos corpos que se lançam no mercado para
no futuro morrer feliz, rindo do poder que conseguiu possuir para fazer mais
cárcere e mais prisioneiro para mais produção de bens de
consumo.