A um amigo distante, Dirceu,
com vontade de que veja
através de meus olhos.
Acordei cedo como sempre. Entre 6:30, 7 horas.
Como é aniversário de meu filho fui direto à cozinha. Desde
ontem faço as delícias que comporão o cardápio de
boteco que foi o tema escolhido pela Deh. Ela, minha nora, é completamente
analfabeta em cozinha. E eu sou poliglota.
Felizmente sou rápida e deixei apenas as duas únicas coisas que
não podiam ser de véspera: a salsa para as bruschettas
e a berinjela no azeite. Confesso-te, sem modéstia alguma, que sou boa
nisso e invento tanto quanto escrevendo, pintando ou esculpindo. Cozinhar também
pode ser uma arte, basta deixar a alma e o coração livres.
Tenho um convite para almoçar no MASP e ver a exposição
de Chagall.
Não perco de jeito nenhum. Sou totalmente apaixonada por arte.
Às 10:50 h tocou o telefone, minha hostess já chega. Dou
uma aligeirada, estou ainda com roupas de Maria.
É muito bom sair com a Meire. É psicanalista, conhece o mundo
inteiro e tem uma cultura sensacional. Podemos falar sobre qualquer coisa que
encaixa. Melhor ainda é que ela gosta bastante de mim.
Vamos de motorista, a Meire é três vezes transplantada e usa bengala
além da avançada idade. Tomamos cuidados. A vida é um dom
precioso e precisamos acarinhá-la.
Chegamos ligeirinho no MASP, é relativamente perto.
Vou pegar as entradas cortesia e, não sei se levo um susto, ou permito
que meu ego infle: o bilheteiro não está muito a fim de me dar
dois bilhetes, diz que não tenho 60 anos. Mas eu tenho: quer minha identidade,
moço?
Chagall terminou, estão expondo o acervo do museu.
Museus... Adoro. Tenho dois contos que se passam em museus. Amo pela arte e
pelo charme inequívoco. Nada dos falsos brilhos de strass da moda,
caras e bocas, bolsas e sapatos transitórios. Aqui apenas manifestação
do eterno. O brilhante puro dos pintores e escultores. Meu chão.
Logo depois da decepção de não ter um encontro íntimo
com Chagall, a alegria de vários Renoir, Dali, Modigliani, Manet, Monet,
que amo desde quase infância. Marcelo Grasmmann. O céu!
Mais Degas, Toulose-Lautrec, meu amadíssimo Rodin, ladrão de Claudine
Claudel. Estou entre os mestres.
Dou-me conto que meus olhos estão abertos mais do que o normal. Nem tento
diminuí-los, a beleza poderia não caber dentro deles.
Acho que terei um desmaio de paixão: Esculturas em mármore, gregas
e romanas. Em tamanho natural.
Olho para os lados, a sala não tem nenhum guarda. Sinto-me um meliante
e morro de rir por dentro, sem vergonha na cara. Subterfugida retiro a máquina
da bolsa e "clic".
Sei que o guarda agora me observa e me apronto para o puxão de orelhas,
mas continuo roubando imagens. Faz de conta que sou tonta. O sujeito é
bonzinho, só depois que termino vem me chamar a atenção.
Não pode bater fotos? Desculpa, não sabia. E sigo na maior cara
de pau.
Pôxa, são estátuas gregas! Sei que estou errada, mas quem
não erra por paixão?
Meire cansa rápido e tenho muito gás ainda. Lamento e penso que
voltarei com meu amigo que me lê e imagino que curtiremos muito.
É a primeira vez que me lembro dele aqui no museu. Antes não havia
espaço nem para mim mesma nos pensamentos, eram todos pertencentes ao
deslumbre frente aos mestres.
Por muitas vezes através da vida, eles foram os meus parceiros, meus
cúmplices de sentimentos, alguns desencontrados como vejo reproduzidos
em suas telas. Emoção pura de mil quilates em brilhante lapidado
alguns, outros na gema recém saída do mundo inconsciente e simbólico.
Afastar-me dói.
Vamos almoçar.
O restaurante do museu é quase tão artístico quanto as
salas de exposição, a diferença que nele, come-se a arte
literalmente. É um show a parte.
A mesa de entradas e saladas tem um colorido à la Van Gogh e uma diversidade
qual a exposição do acervo: de várias partes do mundo,
cada uma em sua linguagem. Toques da delicadeza das bailarinas de Degas, cores
e exoticidade de Monet, audácia perfeita de Dali, enfim... De novo estou
deslumbrada.
Tudo se repete diante dos pratos quentes de sedução das Banhistas
de Renoir e do bufê de sobremesas, doces como Degas. A glória gastronômica.
Nesse momento penso em ti ardentemente e que, talvez, um dia possamos estar
juntos neste restaurante trocando impressões expressionistas, impressionistas
do que partilhamos de alma sedenta de beleza.
Estranho... Engraçado... Agradável pensar assim. Nem tenho certeza
se gostas deste ambiente que me fascina, mas no fundo, sei que sim, que amarás
um dia no museu. Como este. Percebo tua sensibilidade quando me escreves depois
de ter me lido. Escritos onde, com desfaçatez, me exponho.
Meire não me deixa pagar nada, és minha convidada, diz com sua
suave e dominante voz. Constrangedor e bonito da parte dela. Sou consciente
que trago uma energia vibrante para sua vida que se apequenou depois que o tempo
marcou seus estragos impiedosos. Aceitar esta oferta é um gesto de doação
que gosto de fazer. Como impedir a um amigo de ser feliz por superficiais ataques
de orgulho?
Seguimos para a lojinha do MASP que de "inha" não tem nada.
Sabemos que tem um livro sobre o que acabamos de ver e que o preço é
inacreditável: míseros cinqüenta reais para levar jóia
pura. Novamente sou presenteada. É um gesto de imensa beleza dar tal
mimo sem preço para mim. Fico tocada, já estou tocada desde que
entrei no museu.
A visita acabou, continuo flutuando e a sede de partilhar contigo surgiu. Impossível
negar-me, também é um gesto belo partilhar o belo e sei que aceitarás
com toda beleza de teu coração.