Vivemos a Era Virtual. A Contemporânea começou seu fim com a construção
do primeiro computador. A partir daí a automatização de
tudo foi crescendo em ondas cibernéticas colossais.
Não precisamos mais fazer ou comprar pão (alimento histórico,
bíblico, simbólico) apenas programamos uma máquina e na
hora que desejarmos ela expurgará pão quente e cheiroso para o
café da manhã, tarde (um tanto obsoleto) ou da madrugada. Esta
cada dia mais extensa, nós cada vez mais insones, estressados, indormidos.
O pão vivo do espírito nos é servido em CDs em todas as
linguagens possíveis de Deus. Algumas inventadas. Afinal não carece
de assinatura do Divino. Vinte e quatro horas por dia as rádios e as
televisões rezam, oram ou profanam. Não é o bastante em
termos de espiritualidade? Um show de primeira!
A presença de guias, mestres, orientadores tornou-se arcaica, basta ter
carisma, um rosto belo, saber cantar, gritar e se balançar ao som de
músicas duvidosamente angelicais. Dormimos ao embalo metálico
da TV que se desligará já tendo interferido em nossos sonhos não
mais mensagens do inconsciente, mas pasteurizados e controladores de nossas
escolhas e necessidades.
Que dizer então sobre os relacionamentos? A solidão atinge cada
vez mais gente, os casamentos desgastados ou impostos, se arrastam e aumentam
inexoravelmente na mesma proporção de seu vazio.
O sentimento humano resiste entrincheirado em sua cruel antiguidade e obsoletismo
sob os olhos da geração high tech. Bate em nossa cara e em nossos
corações impondo exigências esdrúxulas de aproximação
e contato. De eco do outro em nós e de nós no outro. Estamos na
Era Cibernética, conhecemos pessoas ausentes, anônimas e inverídicas
nas baladas, nos chats, nos encontros virtuais.
Vez por outra ousamos ouvir suas vozes através do telefone, tendo o cuidado
de não revelar o nosso. Se usarmos o celular, outro aparelho que passou
a fazer parte de nosso organismo, programamos para aparecer número desconhecido.
Ou o Bina nos avisará do inconveniente que clama acreditando ainda em
humanidade e solenemente, cheios de razão, não atenderemos. Alguns,
mais audaciosos ou mais ultrapassados se expõem a um contato visual,
um sexo de uma hora ou de uma tarde. Sexo virtualmente perfeito, sem face e
sem alma.
Robotizamos o parceiro e usufruímos do corpo pretensamente plastificado
por nossa imaginação. Depois, falsamente preenchidos, damos as
costas. O sêmen jorrado se descarrega como algo espúrio e damos
descarga na privada. Liquidada a questão.
Se tivermos o azar de encontrar algo real e tangível, assemelhado à
gente, corremos a excluir e bloquear. Simples e rápido. Problema resolvido.
A maior parte das vezes nem ao menos nosso nome deixamos impresso na lembrança,
um nick nos afasta de forma protetora e escondida. O distanciamento da persona,
da intimidade que intimida não fica comprometido. Quando o corpo clamar
novamente ou o vazio bater à porta, recorremos ao processo e fingimos
que ele funciona azeitado.
O que restou?
Isso deixou de ser importante e vital. Coisa do passado romântico, afastar-se
dos atritos que nos dão polimento é o objetivo. Atrito incomoda
e não temos tempo de ser incomodados. Os conflitos são empurrados
para longe pelo teclado de um computador e nossa alma jorrará em jatos
estrobofóbicos nas ondas da Internet.
Sentimentos à vista? Delete.
Ser humano ao alcance? Delete.
Deus vivo falando através de sinais e símbolos? Delete.
Idéias, criação, prazer genuíno e vivo? Delete.
Prefira os ícones de sua área de trabalho.
Atual e moderno. Os demais são pertencentes às eras anteriores
e ultrapassadas. A poesia agora é concreta. Sintetize sua alma no twiter.
Beatifique sua imagem no orkut.
Atualize-se: torne-se um morto vivo, representante fiel da nova religião
Rapa Nui Virtual & Cia.
Parabéns, evoluímos! Logo, logo as cavernas cibernéticas
se abrirão plenamente nos trazendo êxtase de silicone.