A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Saudade do não vivido

(Vana Comissoli)

Todo mundo, uma vez ou outra, por muito ou pouco tempo já sentiu saudades. Essa palavrinha sem tradução em nenhuma língua e que nem nós conseguimos explicar direito, mas que tem uma carga emocional avassaladora.

Pode ser suave e gostosa, logo, logo o querido distante voltará. Foi por uma hora, um dia ou uma semana. Voltará.

O intervalo se recheia de doces palavras, de dormir agarrado no travesseiro se for saudades de amor amante. De telefonemas, apreensões, cuidados e receitas para o resfriado se for amor por filhos. Sorrisos, espiada na janela, "por onde andas?" se for amor amigo.

Todas elas dão fisgadas de menor ou maior intensidade no meio do peito. Tem olhar que se perde céu a dentro sem enxergar nada, visualizando o amado ausente. Ou um olhar para dentro, revivendo cenas, toques, ruídos de passos, palavras ásperas ou risonhas, de ternura tanta ou de fogaréu de paixão.

Saudade ruim é aquela por quem não volta mais. A partida abrupta, ininterrupta. Cortou num choque a vida que partiu. Essa saudade é comprida, traz lágrimas e dor. Incompreensão inexplicável uma vez programada desde sempre. Saudade presente todo dia na intensidade vazia das horas. É a saudade de retrato pendurado que amarelará sem retorno. Sem voz, sem presença e ali estando. Saudade que não adianta reclamar. Ela é.

Saudade sem sentido é aquela do que não se viveu.

Coisas que deveriam ser e não foram. Beijo que não se deu. Criada pelos desencontros, vieses, atropelo da vida. Medo pelo desconhecido que carrega. Dúvidas pela incerteza do não saber. Certeza incompleta.

Quem não deixa acontecer é jogador que sonha royal straight flush. Ganhador compulsivo que acaba jogando para perder. Anseia as fichas todas e não aposta nenhuma. Sentado diante do pano verde, naipe de copas e ouros à frente e escolhendo apenas o de espadas. Triste desígnio dos arcanos do Tarô. De lado, abandonada, a chama viva de paus ardendo, dentro da psique fervendo chama apagada. Empecilhos que poderiam ser ultrapassados e a alma sempre desejando o que jamais será. Medo sob o pseudônimo Responsabilidade. Seriedade. E outros tantos que impedem a alegria de ser criança da vida.

A vida não é séria. A vida é feita com a seriedade de quem sabe brincar.

Saudade do que não aconteceu por interferência do destino que deixa marcas de faltas por não ter havido. Teimosia em desejar o que não é teu. Esta é a mais infantil de todas. É para fazer pensar e olhar o que acontece. O real ao alcance da mão e desprezado pela fantasia dos contos de fadas.

Saudade imaginação... Saudade do que não se errou, ou acertou. Saudade do que não foi é espinho ardendo, mordendo a carne sem feridas.

Arriscar. Esta ousadia a saudade fraudulenta não tem.

O brinquedo ficará para sempre na vitrine, o doce melando sem ser comido, a fruta fenecendo bichada no pé.

Saudade do que não foi é para os tementes, para os frágeis e os abrutalhados pela materialidade. Procrastinadores: sempre acontecerá amanhã. Por favor, me tirem a responsabilidade de escolher e me dêem a fuga do esconderijo de não tentar. Aqui estou protegido, nenhuma dor, dor de amor, seja qual tipo for, não me atingirá.

Saudade fantasma é ternura jogada no esgoto, carinho despachado para o descaso. É possibilidade que se abortou. Todo aborto é morte, é não existir. Alma banida para o Limbo desnecessário da sem gracisse dos dias.

Prefiro viver ignorante dos resultados. Estarei presente em coisas acontecendo. Se deixar saudades, algo deixou. Nunca saberemos que resultados trarão nossas ações, mas sem fazer alguma não haverá resultados. Matemática bobalhona de zero mais zero igual a zero.

Não sou água parada, sou rio em movimento. Encontrarei troncos, corredeiras, desvios, alagamentos, praias de areias douradas e macias. Alimentarei raízes de árvores e flores. Espinheiros e cactos. Ainda assim estarei em movimento. Vida é movimento.

Saudade do não existido, que farei contigo?

Antes a saudade do que foi vivido. Esta para sempre carregarei comigo como parte daquilo que me fez gente e como sou.

Saudade, parte integrante da complexidade de mim mesma.

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