Vem cá, senta aqui ao meu lado. Tenho uns segredos que gostaria de partilhar
contigo. Segredos são coisas boas, visitas na alma onde quase ninguém
foi ainda.
É bom que queiras partilhá-los comigo. Para que o mistério
te penetre tão fundo quanto ele habita em mim, é preciso que repouses
a cabeça no meu colo e esqueças quem és.
Deixa que tua alma liberte-se dos impedimentos da razão. Esquece o passado,
o futuro e, principalmente, o hoje. Tu és apenas esse bater de coração
e esse vazio de pensamentos. Talvez, se quiseres, és esse tamborilar
de chuva e o piar de um pássaro desavisado, mas isso não é
muito importante.
Importante mesmo é que estejas preso apenas pelo segredo, desejando entrar
nele como uma criança deseja brincar sem medo.
Eu quero falar-te sobre paz.
Poderíamos filosofar sobre ela e recolher estudos de pensadores, visionários
e místicos. Se escolhermos essa forma estaremos matando o espírito
da paz, portanto, vamos apenas deixar que ela cresça em nós. Quanto
mais aquietares teus pensamentos, dúvidas e felicitações,
tanto mais ela te tomará e será o sangue que corre em tuas veias,
a brandura que amolece teus músculos.
Paz não é exatamente um sentimento, mas um estado. Ainda bem,
eu diria, senão quando eu sentisse tristeza, não poderia senti-la
em paz; quando eu tivesse alegria, não poderia vivê-la em paz.
Muitas vezes perguntei-me olhando o mundo desencontrado que me rodeia se poderia
atravessá-lo em paz.
Há tanto o que fazer, é preciso sobreviver todos os dias. E acordar,
e comer, e vestir e falar. Que distância da paz há nisso tudo,
pensava eu quando era em parte. Onde e como encontrar esse estado perdido?
Aceitando, em primeiro lugar, parando de me debater com os acontecimentos, sejam
eles quais forem.
Aceitando - me perguntas - sem reagir, sem lutar?
- Por favor, não sejas infantil, eu disse para vires criança e
não infantil. Bem sabes que não se vive sem lutar. Já pensaste
em lutar em paz? A força multiplica-se, o objetivo deixa de ser o principal,
o fim não é o mais importante, mas como chegar a ele é
que se torna importante. Se a tua luta deixar de ser um embate e tornar-se uma
travessia, o fim, seja lá qual for, será o melhor de todos.
E se o fim for a morte, me perguntas. A morte não é um fim em
si, é apenas outra travessia para um estado impalpável que só
podemos conhecer quando estivermos nele, portanto, nem assim debater-se é
a melhor maneira.
E se morrer meu bem amado? Sendo mesmo teu bem amado, como podes querer retê-lo
num corpo que morre? Sendo teu bem amado, hás de querê-lo livre
rumo ao seu destino infinito que não nos pertence. Terás tristeza
nessa hora. Que bom! É teu bem amado e sentirás a saudade de suas
marcas em ti. Vive em paz tua saudosa tristeza, até compreenderes que
as marcas jamais se apagarão.
Mais adiante sentirás horror frente a um assassino ou bandido, sinta
teu horror em paz, tudo o que fere a natureza merece horror. Não o recrimines
por ser bandido, ele jamais experimentou a paz não sê-lo.
O filho fere teu coração e sentes a preocupação
impotente da paternidade já que "filhos são flechas lançadas
e tu és o arco que se dobrou para lançá-las". Vive
tua preocupação em paz, luta verdadeiramente para auxiliá-lo
no seu momento de escuridão por direito e escolha, mostrando a ele o
teu amor incomensurável. Ouve-o para que possas perceber onde a paz se
rompeu dentro dele.
O trabalho de todo o dia é uma rotina que te abafa? Faça-o em
paz, esse é um dos compromissos que a vida cobra. Deixa de lado as irritantes
exigências da insatisfação, sente quando é hora de
parar por minutos e olhar o céu, ou ouvir teus pensamentos cantores.
Só os cantores, não dês ouvidos aos pensamentos que xingam
e rompem. Os dois estão sempre à nossa disposição,
nós é que os escolhemos, não eles a nós.
O peso de outra vida está sobre ti como um karma insuportável?
O que é karma nesse mundo em perpétuo movimento? Não poderias
aliviar o peso dando-te conta que é apenas mais um fato da vida? Pobre
criatura que te pesa, não tem a paz de sustentar-se sozinha, de bastar-se.
Pobre dela, perdida no mundo do medo e do desconhecido.
Na doença não podemos ter paz, retrucas agora. Se não houver
paz na doença e na aceitação da falibilidade do corpo,
não encontraremos jamais o espírito imortal que o habita. Se fosse
o corpo incorruptível, jamais nos daríamos ao trabalho de procurar
além dele.
Quando realmente vemos a face do Eterno? Quando tudo está nos seus lugares
e nos extasiamos de bem estar passageiro, ou quando, no desassossego de nossa
alma, espiamos o Incompreensível em busca de entendimento?
Tira do teu dia alguns minutos preciosos para conectar com a paz que existe
dentro de ti e que não descobrisses ainda, para que possam atravessar,
de braços dados, todos os momentos.
Afinal, qual é o segredo, me perguntas, impaciente.
O segredo é que não existe segredo algum, só nós
mesmos nos descobrindo dia a dia, cada vez menos distantes do Impossível,
cada vez mais aptos a viver a paz, companheira de nossas vitórias, lutas
e aflições.
Não atormentes tua paz descrendo dela, deixa que viva em ti para que
possas reconhecê-la permanente, mão direita do que chamamos Divina
Providência que não mora nas nuvens distantes, mas dentro do coração.