Com o profissionalismo, muito se fala que o futebol não é mais
o mesmo; e este saudosismo exacerbado mata o que resta: a poética; o
imaginário.
Claro que mudou, por exemplo: vira e mexe, compara-se o drible do Felipe ao
do Garrincha. Verdade que ambos soam como gols, mas aí entra o politicamente
correto. Mané estava livre disto, podia bailar sobre a bola quanto quisesse,
sem movê-la. Felipe tem a obrigação de conduzi-la ao gol,
por respeito ao adversário. Driblar e depois esperar o mesmo João
para driblá-lo de novo - clássico de Garrincha, hoje é
improvável, e permite desforra. Outro: acabou o bom humor. O sarro sumiu.
A crônica colaborou, talvez pelas décadas militares. A transmissão
da TV é jornalística. Os debates dominicais, violentos ou apelativos.
Isso é um descaso com as crianças. Elas - com olhos lúdicos,
imaginam o futebol. Cada qual constrói o seu. Fantasiam-se no time escolhido.
Vislumbram-se. Tratar o sonho delas como negócio é cruel, até
mesmo se tratando de negócio.
Felizmente, o futebol visto como arte - no imaginário da palavra, é
hereditário. A efusão é a mesma mediante o gol, para pais
e filhos juntos no estádio. Ali, a arte sobrevive; e maravilhar as crianças
é dever do futebol. Ali, as crianças permitem Felipe driblar sem
constrangimento, como se fosse Garrincha.