Mãe Rosa acordou cedo, afinal a filha ligara na noite anterior anunciando
que chegaria pro almoço de domingo. Apressou-se a cozinhar um quilo de
feijão preto - ainda sem tempero, e pouco depois - quando a água
fervia pro café, Seu Onofre chamou-a ao portão para que ela recebesse
sua encomenda. Dois quilos de costeletas suínas que foram lavadas e colocadas
numa tigela. Ali espremeu quatro suculentos limões, picou seis dentes
de alho, muito alecrim fresco, uma colher e meia de sopa de sal e 50 mililitros
de cachaça: da boa, em barril de carvalho - presente do bom e velho Onofre.
E refrigerou.
Socou uma cebola grande e três dentes de alho. Com mais algumas folhas
de louro e sal a gosto temperou o feijão. Da parede sacou toucinho e
fritou-o em tiras na própria banha, invejando as redondezas - que anteviam
as visitas da Mãe Rosa e ansiavam pelas quermesses. Escorreu parte da
banha em outra frigideira e dourou alho picado. Cozinhou arroz com pouco sal
e meia cebola ralada. Colheu cheiro-verde, erva-doce, almeirão e couve.
Na frigideira do alho refogou a couve. Lavou e descascou cenouras e batatas.
Picou tomates. Com lenha, ateou fogo à churrasqueira. Então, Mãe
Rosa ligou a vitrola e escolheu um LP dentre centenas: Orlando Silva; e degustou
um café preto cantarolando seresta.
Voltou à cozinha, juntou dois copos de 250 mililitros de fubá,
dois de açúcar, dois de leite e três quartos do mesmo de
óleo de soja; uma colher de chá de sal e misturou tudo, cozinhando
numa panela até formar um mingau bem cozido, acrescentando uma colher
de sobremesa de erva-doce antes de largar para esfriar.
Quando a filha chamou ao telefone - como sempre fazia - a perguntar-lhe se necessitava
algo, embora crescesse sabendo do esmero que Mãe Rosa tinha com sua cozinha,
esta já acrescentara o alho dourado e o cheiro-verde picado ao arroz,
ainda na panela; dispusera almeirão, coberto por finas rodelas de cenoura
e tomates desenhados numa tigela, com azeite de oliva e vinagre tinto, também
do onipresente Onofre; e reservara o feijão - guardando parte do caldo,
para virá-lo na farinha branca a seguir. Antes porém, soltou as
costeletas - ossos para baixo - na grelha - altura média, braseiro forte
- e mergulhou as batatas já salgadas em tiras no óleo frio, afinal
viriam os netos.
Que chegaram primeiro, berrando e voando-lhe ao pescoço, munidos de um
punhado de novidades. Mãe Rosa parou o mundo para receber os seus, com
afagos únicos.
Das parreiras do seu Onofre veio também o tinto seco e o suco - do garrafão
para a jarra e para a mesa. Colocando a conversa em dia, Mãe Rosa bateu
quatro claras em neve. Mexeu as gemas junto a uma colher de sopa de fermento
químico em pó. Misturou as gemas ao mingau já frio e depois
as claras sem bater, levando ao forno pré-aquecido em temperatura média
(180 ºC) numa assadeira número três, por trinta e cinco minutos,
para depois polvilhar canela e açúcar.
A filha compunha a mesa à medida que Mãe Rosa servia. Virado de
feijão, couve com torresmo, arroz, salada, batatas fritas, costeletas
de porco; pimenta caseira, sal, azeite de oliva, água potável
e suco de uva para crianças e adultos. Na vitrola Villa-Lobos, Trenzinho
Caipira.
Enquanto o bolo cheirava e o caldo de feijão aguardava para esquentá-los
de noite.