A Garganta da Serpente
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A COZINHA DA MãE ROSA (I)

(Conrad Rose)

Mãe Rosa acordou cedo, afinal a filha ligara na noite anterior anunciando que chegaria pro almoço de domingo. Apressou-se a cozinhar um quilo de feijão preto - ainda sem tempero, e pouco depois - quando a água fervia pro café, Seu Onofre chamou-a ao portão para que ela recebesse sua encomenda. Dois quilos de costeletas suínas que foram lavadas e colocadas numa tigela. Ali espremeu quatro suculentos limões, picou seis dentes de alho, muito alecrim fresco, uma colher e meia de sopa de sal e 50 mililitros de cachaça: da boa, em barril de carvalho - presente do bom e velho Onofre. E refrigerou.

Socou uma cebola grande e três dentes de alho. Com mais algumas folhas de louro e sal a gosto temperou o feijão. Da parede sacou toucinho e fritou-o em tiras na própria banha, invejando as redondezas - que anteviam as visitas da Mãe Rosa e ansiavam pelas quermesses. Escorreu parte da banha em outra frigideira e dourou alho picado. Cozinhou arroz com pouco sal e meia cebola ralada. Colheu cheiro-verde, erva-doce, almeirão e couve. Na frigideira do alho refogou a couve. Lavou e descascou cenouras e batatas. Picou tomates. Com lenha, ateou fogo à churrasqueira. Então, Mãe Rosa ligou a vitrola e escolheu um LP dentre centenas: Orlando Silva; e degustou um café preto cantarolando seresta.

Voltou à cozinha, juntou dois copos de 250 mililitros de fubá, dois de açúcar, dois de leite e três quartos do mesmo de óleo de soja; uma colher de chá de sal e misturou tudo, cozinhando numa panela até formar um mingau bem cozido, acrescentando uma colher de sobremesa de erva-doce antes de largar para esfriar.

Quando a filha chamou ao telefone - como sempre fazia - a perguntar-lhe se necessitava algo, embora crescesse sabendo do esmero que Mãe Rosa tinha com sua cozinha, esta já acrescentara o alho dourado e o cheiro-verde picado ao arroz, ainda na panela; dispusera almeirão, coberto por finas rodelas de cenoura e tomates desenhados numa tigela, com azeite de oliva e vinagre tinto, também do onipresente Onofre; e reservara o feijão - guardando parte do caldo, para virá-lo na farinha branca a seguir. Antes porém, soltou as costeletas - ossos para baixo - na grelha - altura média, braseiro forte - e mergulhou as batatas já salgadas em tiras no óleo frio, afinal viriam os netos.

Que chegaram primeiro, berrando e voando-lhe ao pescoço, munidos de um punhado de novidades. Mãe Rosa parou o mundo para receber os seus, com afagos únicos.

Das parreiras do seu Onofre veio também o tinto seco e o suco - do garrafão para a jarra e para a mesa. Colocando a conversa em dia, Mãe Rosa bateu quatro claras em neve. Mexeu as gemas junto a uma colher de sopa de fermento químico em pó. Misturou as gemas ao mingau já frio e depois as claras sem bater, levando ao forno pré-aquecido em temperatura média (180 ºC) numa assadeira número três, por trinta e cinco minutos, para depois polvilhar canela e açúcar.

A filha compunha a mesa à medida que Mãe Rosa servia. Virado de feijão, couve com torresmo, arroz, salada, batatas fritas, costeletas de porco; pimenta caseira, sal, azeite de oliva, água potável e suco de uva para crianças e adultos. Na vitrola Villa-Lobos, Trenzinho Caipira.

Enquanto o bolo cheirava e o caldo de feijão aguardava para esquentá-los de noite.

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