A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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A COZINHA DA MãE ROSA (II)

(Conrad Rose)

Na véspera, Mãe Rosa conversava com a caçula - única filha que viera para o final de semana, enquanto trocava a água do bacalhau (1200 gramas) - pela quinta e última vez(!), e coava café. Propôs à filha a companhia de Seu Onofre, homem solitário e de origem lusitana. A filha ainda incentivou e percebeu um intrigante brilho no sorriso de Mãe Rosa.

Cozeu feijão fradinho e - bem quente - acrescentou cebola e cheiro-verde picados. Assou na chapa dois pimentões vermelhos e após descascá-los e picá-los, juntou ao feijão já frio e temperou com azeite de oliva, vinagre de vinho branco, sal e pimenta - tudo ao som de Elis Regina. Refrigerou o feijão e reservou o bacalhau. Foi para a cama cedo, evitando olheiras. A caçula também, com Nirvana no fone e desenhando corações aos dezesseis.

Mãe Rosa retardou preguiçosamente o levantar. Após o café - ouvindo Pixinguinha - colheu uma chicória italiana e com louro, cheiro-verde e coentro fez um amarrado. Ferveu o bacalhau por cinco minutos, retirou-lhe os espinhos, partindo-o em lascas. Esquentou 300 mililitros de azeite de oliva; ali refogou seis cebolas grandes e dois pimentões verdes em rodelas, seis dentes de alho picados e cheiro-verde a gosto. Cozeu um quilo de batata e cinco ovos.

Quando o sol transpôs os montes, ela já havia fritado o bacalhau e as batatas no refogado por dez minutos e assim que as batatas começaram a fritar, montou o prato. Mãe Rosa providenciou um grande refratário e dispôs: lascas de bacalhau, ovos cozidos cortados ao meio, cebolas, pimentões e batatas em rodelas e azeitonas pretas. Antes porém, verificou o sal.

O amarrado soltou ao arroz depois de usá-lo para mexer meia cebola ralada no óleo de milho, com sal a gosto. Orientou a filha no tempo e na intensidade do fogo. O arroz solto. Quinze minutos de forno máximo para o bacalhau. A chicória cortada como dedos mínimos com o feijão acima. Mãe Rosa liberou-se para um demorado banho e muitos aprumos. Escolheu um vestido florido onde predominava o vermelho que se encontrava guardado há anos. água de cheiro.

Seu Onofre retirou de sua adega um vinho do Porto e um branco seco de suas parreiras, completamente orgânico. Paletó e a melhor de suas violetas, num belo vaso de barro pintado.

A moça tirou de letra e ainda fervera um quilo de açúcar, 600 mililitros de água, um pau de canela e quatro cravos. Acrescentara dois quilos de goiabas vermelhas - sem cascas ou sementes, para cozer.

Anunciando-se a chegada de Seu Onofre - precisamente ao meio-dia como marcado, Mãe Rosa mantinha os quentes na chapa do fogão à lenha e tratou de postar a mesa: bacalhau ao forno, arroz e salada de feijão fradinho com chicória. A goiabada em calda da caçula ao canto. Azeite de oliva, vinagre de vinho branco, sal e molho de pimenta caseiro. Amália Rodrigues trilhou o vinho do porto e também o almoço.

Mas Seu Onofre sofreu com sua timidez diante da adolescente. Já Mãe Rosa era só sorrisos.

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