Na véspera, Mãe Rosa conversava com a caçula - única
filha que viera para o final de semana, enquanto trocava a água do bacalhau
(1200 gramas) - pela quinta e última vez(!), e coava café. Propôs
à filha a companhia de Seu Onofre, homem solitário e de origem
lusitana. A filha ainda incentivou e percebeu um intrigante brilho no sorriso
de Mãe Rosa.
Cozeu feijão fradinho e - bem quente - acrescentou cebola e cheiro-verde
picados. Assou na chapa dois pimentões vermelhos e após descascá-los
e picá-los, juntou ao feijão já frio e temperou com azeite
de oliva, vinagre de vinho branco, sal e pimenta - tudo ao som de Elis Regina.
Refrigerou o feijão e reservou o bacalhau. Foi para a cama cedo, evitando
olheiras. A caçula também, com Nirvana no fone e desenhando corações
aos dezesseis.
Mãe Rosa retardou preguiçosamente o levantar. Após o café
- ouvindo Pixinguinha - colheu uma chicória italiana e com louro, cheiro-verde
e coentro fez um amarrado. Ferveu o bacalhau por cinco minutos, retirou-lhe
os espinhos, partindo-o em lascas. Esquentou 300 mililitros de azeite de oliva;
ali refogou seis cebolas grandes e dois pimentões verdes em rodelas,
seis dentes de alho picados e cheiro-verde a gosto. Cozeu um quilo de batata
e cinco ovos.
Quando o sol transpôs os montes, ela já havia fritado o bacalhau
e as batatas no refogado por dez minutos e assim que as batatas começaram
a fritar, montou o prato. Mãe Rosa providenciou um grande refratário
e dispôs: lascas de bacalhau, ovos cozidos cortados ao meio, cebolas,
pimentões e batatas em rodelas e azeitonas pretas. Antes porém,
verificou o sal.
O amarrado soltou ao arroz depois de usá-lo para mexer meia cebola ralada
no óleo de milho, com sal a gosto. Orientou a filha no tempo e na intensidade
do fogo. O arroz solto. Quinze minutos de forno máximo para o bacalhau.
A chicória cortada como dedos mínimos com o feijão acima.
Mãe Rosa liberou-se para um demorado banho e muitos aprumos. Escolheu
um vestido florido onde predominava o vermelho que se encontrava guardado há
anos. água de cheiro.
Seu Onofre retirou de sua adega um vinho do Porto e um branco seco de suas parreiras,
completamente orgânico. Paletó e a melhor de suas violetas, num
belo vaso de barro pintado.
A moça tirou de letra e ainda fervera um quilo de açúcar,
600 mililitros de água, um pau de canela e quatro cravos. Acrescentara
dois quilos de goiabas vermelhas - sem cascas ou sementes, para cozer.
Anunciando-se a chegada de Seu Onofre - precisamente ao meio-dia como marcado,
Mãe Rosa mantinha os quentes na chapa do fogão à lenha
e tratou de postar a mesa: bacalhau ao forno, arroz e salada de feijão
fradinho com chicória. A goiabada em calda da caçula ao canto.
Azeite de oliva, vinagre de vinho branco, sal e molho de pimenta caseiro. Amália
Rodrigues trilhou o vinho do porto e também o almoço.
Mas Seu Onofre sofreu com sua timidez diante da adolescente. Já Mãe
Rosa era só sorrisos.