Tá bom, sei que estou atrasado, porém o fato percorrerá
os anos. Confesso que permaneci em transe, durante um dia inteiro. Rir nunca
é demais; e estupefato é o termo. Dizem por aí que a soberba
do favoritismo pode destruir o êxito na próxima copa. Concordo,
porém atrevo-me a engrossar o coro: tá tudo dominado.
Estamos dois canecos na frente de qualquer outra seleção - distância
inédita na história, fomos campeões em três continentes
e exportamos atletas para a primeira divisão de pelo menos cinqüenta
países. O Brasil é uma continental escola de futebol. Então,
esbaldemo-nos com os últimos acontecimentos...
Sobramos na Coréia, brilhamos na Colômbia e bailamos na Alemanha.
Quer mais? Claro, sempre. Mas o que não nos falta é assunto, certo?
Quarta-feira passada foi fácil, tranqüilíssimo. E sem aquela
frescura do Tevez de roçar a bola. (Aliás, avisa lá prá
ele que os macaquitos exigem respeito.) De forma indomável, o
escrete canarinho engoliu los otros - sem dó ou piedade.
Tirei o volume da tela e rodei Ari Barroso na vitrola, sincronizando - num
luxo só - na cadência da bola de pé em pé, até
ser chutada ao gol. Rolou assim a maior parte do tempo e com austeridade. A
seleção batalhou pela pelota e correu muito, nunca fugindo do
pau. No mano. Sem nunca abdicar da estética.
O passeio foi helenístico. Transcendeu o futebol, regressou aos primórdios
do esporte e há de tornar-se lenda através dos séculos.
O termo arte poucas vezes se fez tão encaixado. Uma vitória incontestável
do encantador futebol: veloz, inteligente, habilidoso e solidário. Deu
samba.
A qualquer vizinho, segue um único conselho: és mejor tú
guardar una copia del juego para tus ninõs.
Anestesiado estou. Parreira prá presidente!
(Curitiba, 30/06/2005)