A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Quanto vale um brasileiro?

(Robert Thomaz)

O momento não é de passividade ou de reflexão. É com expressivo pesar que vivenciamos, no Estado de São Paulo, uma situação crítica. Apresenta-se em cartaz, há pouco mais de dois meses, o espetáculo dantesco de ações deliberadas do crime organizado. É mister que se apresentem as cenas e os créditos deste filme de horror, cuja realidade deixou a ficção boquiaberta.

Policiais de serviço ou em gozo de folga foram sumariamente executados, sem direito a qualquer reação. Agentes penitenciários foram assassinados quando menos esperavam, fosse no ambiente inseguro de trabalho, fosse na saída de suas residências em direção ao serviço. Vigilantes e guardas municipais passaram a esconder-se atrás de pilastras e colunas, ou mesmo abrigar-se nas sombras da noite, no entorno de seus postos, para fugir a ação de delinqüentes que servem incondicionalmente ao crime. Ônibus tiveram seus passageiros evacuados - como se fosse um ato de condescendência - e em segundos passaram a arder, consumidos pelas chamas nervosas e transformaram-se em monumentos emblemáticos do poder das facções criminosas. Caixas eletrônicos foram depredados, restando apenas blocos de metal retorcidos. Agências bancárias e revendedoras de veículos foram atacadas por voadoras bombas caseiras, que arremessadas de cavalos de aço, acabaram por destruir o patrimônio privado. Trens foram perfurados em suas estruturas, por outras tantas bombas que irromperam, ferindo civis a caminho de seus trabalhos. Prédios públicos e residências de policiais militares foram atacados por projéteis e por bombas durante a noite ou pela madrugada. Famílias perderam seus chefes, filhos, noras e tantos outros entes que deixo de aqui citar, que merecem todo o nosso apreço, porque são seres humanos e que perderam suas vidas para ações que permanecem impunes. Em gênero, número e grau.

E deparamo-nos com a pergunta que não quer calar: quem está no controle da situação?

Onde estão as efetivas ações policiais para coibir a liberdade de ação irrestrita daqueles que detêm o negro poder? Onde estão os homens de boa vontade, perseverança e determinação, que não arregaçam as mangas, expondo-se ao perigo da perda de seus cargos, e lutam contra aqueles que impiedosamente estão ceifando vidas inocentes, destroçando famílias, seqüestrando pessoas indefesas, que com seu suor labutam por uma vida melhor e uma nação próspera? Onde está o poder constituído que pode mudar o roteiro desse filme hediondo do qual todos nós - inclusive o prezado leitor - somos personagens?

Será adeus a paz? Será adeus a ordem social?

São tantas perguntas que carecem de respostas, que o cansaço nos abate.

Numa luta, adversários fitam-se nos olhos, como se animais fossem. Aquele que desvia o olhar, demonstra-se interiormente temeroso. Aquele que antes de atacar, destrói algo que é caro ao adversário, demonstra poder e força. Articulações verbais e soluções especulativas e inviáveis, falta de apoio real às forças legais, recusa ao auxílio do poder federal, excessivo comedimento nas medidas operativas, insegurança às manifestações das entidades dos direitos humanos, são os perfeitos ingredientes da salada cujo sabor faz-nos medrar as entranhas. Seres humanos estão perecendo. Parece que ninguém percebe o que está acontecendo e, se percebe, é no momento em que um semelhante próximo tem a vida arrastada ao nível de sete palmos abaixo do solo.

Temo pelo porvir. Temo por nossas crianças que enfrentarão estes problemas que agora se desdobram e se avolumam. A presença latente do submundo e de suas inibidas ações delituosas que outrora ocorriam, são fatos pretéritos. Vivemos um presente incerto, traçado sob o jugo da insegurança. Irrompeu uma ascensão vigorosa do crime e as autoridades não perceberam este acontecimento. A sociedade, em primazia, não está procurando responsáveis, mas suplica por soluções emergenciais que exterminem, sim, que exterminem com a onda de terror que emergiu e cujas torrentes não querem mais se esvair pelas sarjetas. O cidadão clama por ações que evitem a instituição do caos e o estabelecimento de uma nova ordem. A ordem do crime.

Será que continuaremos com medidas paliativas para conter a delinqüência e suas multifacetadas ações? Será que somente quando ocorrerem ações criminosas de maior amplitude e maior grau numérico é que as autoridades tomarão atitudes efetivas, em resposta, não aos delinqüentes, mas à opinião pública?

O momento não é de passividade ou de reflexão. A vida é única e devemos zelar por ela. Não adianta colocarmos grades, cercas elétricas em nossas casas ou vigilantes e cães a velar o nosso sono. Não adianta nos confinarmos ao recanto de nossos lares. É necessário que, da mesma forma que o crime organizado usa os instrumentos do poder - inteligência, informação, poder armado, dinheiro e articulação - as autoridades adotem os mesmos princípios para que vença a contenda que se estabeleceu nessa mesa de xadrez. Definitivamente, não podemos perder mais vidas, quaisquer que sejam elas. Uma vida gera outra vida. Uma vida nos proporciona amor, carinho, afeto, paz de espírito, prosperidade, progresso, ordem social e uma infinidade de coisas que até hoje o homem pôde criar e instituir. Que aqueles que têm as rédeas do poder mudem o roteiro deste filme. Que saibam o valor da vida de cada brasileiro, na sua manifestação mais singela. Que sejamos personagens de uma história feliz, livres para caminhar nos parques e alamedas de nossas cidades, que possamos ver a paz e a ordem social voltarem às nossas vidas.

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