O momento não é de passividade ou de reflexão. É
com expressivo pesar que vivenciamos, no Estado de São Paulo, uma situação
crítica. Apresenta-se em cartaz, há pouco mais de dois meses,
o espetáculo dantesco de ações deliberadas do crime organizado.
É mister que se apresentem as cenas e os créditos deste filme
de horror, cuja realidade deixou a ficção boquiaberta.
Policiais de serviço ou em gozo de folga foram sumariamente executados,
sem direito a qualquer reação. Agentes penitenciários foram
assassinados quando menos esperavam, fosse no ambiente inseguro de trabalho,
fosse na saída de suas residências em direção ao
serviço. Vigilantes e guardas municipais passaram a esconder-se atrás
de pilastras e colunas, ou mesmo abrigar-se nas sombras da noite, no entorno
de seus postos, para fugir a ação de delinqüentes que servem
incondicionalmente ao crime. Ônibus tiveram seus passageiros evacuados
- como se fosse um ato de condescendência - e em segundos passaram a arder,
consumidos pelas chamas nervosas e transformaram-se em monumentos emblemáticos
do poder das facções criminosas. Caixas eletrônicos foram
depredados, restando apenas blocos de metal retorcidos. Agências bancárias
e revendedoras de veículos foram atacadas por voadoras bombas caseiras,
que arremessadas de cavalos de aço, acabaram por destruir o patrimônio
privado. Trens foram perfurados em suas estruturas, por outras tantas bombas
que irromperam, ferindo civis a caminho de seus trabalhos. Prédios públicos
e residências de policiais militares foram atacados por projéteis
e por bombas durante a noite ou pela madrugada. Famílias perderam seus
chefes, filhos, noras e tantos outros entes que deixo de aqui citar, que merecem
todo o nosso apreço, porque são seres humanos e que perderam suas
vidas para ações que permanecem impunes. Em gênero, número
e grau.
E deparamo-nos com a pergunta que não quer calar: quem está no
controle da situação?
Onde estão as efetivas ações policiais para coibir a liberdade
de ação irrestrita daqueles que detêm o negro poder? Onde
estão os homens de boa vontade, perseverança e determinação,
que não arregaçam as mangas, expondo-se ao perigo da perda de
seus cargos, e lutam contra aqueles que impiedosamente estão ceifando
vidas inocentes, destroçando famílias, seqüestrando pessoas
indefesas, que com seu suor labutam por uma vida melhor e uma nação
próspera? Onde está o poder constituído que pode mudar
o roteiro desse filme hediondo do qual todos nós - inclusive o prezado
leitor - somos personagens?
Será adeus a paz? Será adeus a ordem social?
São tantas perguntas que carecem de respostas, que o cansaço nos
abate.
Numa luta, adversários fitam-se nos olhos, como se animais fossem. Aquele
que desvia o olhar, demonstra-se interiormente temeroso. Aquele que antes de
atacar, destrói algo que é caro ao adversário, demonstra
poder e força. Articulações verbais e soluções
especulativas e inviáveis, falta de apoio real às forças
legais, recusa ao auxílio do poder federal, excessivo comedimento nas
medidas operativas, insegurança às manifestações
das entidades dos direitos humanos, são os perfeitos ingredientes da
salada cujo sabor faz-nos medrar as entranhas. Seres humanos estão perecendo.
Parece que ninguém percebe o que está acontecendo e, se percebe,
é no momento em que um semelhante próximo tem a vida arrastada
ao nível de sete palmos abaixo do solo.
Temo pelo porvir. Temo por nossas crianças que enfrentarão estes
problemas que agora se desdobram e se avolumam. A presença latente do
submundo e de suas inibidas ações delituosas que outrora ocorriam,
são fatos pretéritos. Vivemos um presente incerto, traçado
sob o jugo da insegurança. Irrompeu uma ascensão vigorosa do crime
e as autoridades não perceberam este acontecimento. A sociedade, em primazia,
não está procurando responsáveis, mas suplica por soluções
emergenciais que exterminem, sim, que exterminem com a onda de terror que emergiu
e cujas torrentes não querem mais se esvair pelas sarjetas. O cidadão
clama por ações que evitem a instituição do caos
e o estabelecimento de uma nova ordem. A ordem do crime.
Será que continuaremos com medidas paliativas para conter a delinqüência
e suas multifacetadas ações? Será que somente quando ocorrerem
ações criminosas de maior amplitude e maior grau numérico
é que as autoridades tomarão atitudes efetivas, em resposta, não
aos delinqüentes, mas à opinião pública?
O momento não é de passividade ou de reflexão. A vida é
única e devemos zelar por ela. Não adianta colocarmos grades,
cercas elétricas em nossas casas ou vigilantes e cães a velar
o nosso sono. Não adianta nos confinarmos ao recanto de nossos lares.
É necessário que, da mesma forma que o crime organizado usa os
instrumentos do poder - inteligência, informação, poder
armado, dinheiro e articulação - as autoridades adotem os mesmos
princípios para que vença a contenda que se estabeleceu nessa
mesa de xadrez. Definitivamente, não podemos perder mais vidas, quaisquer
que sejam elas. Uma vida gera outra vida. Uma vida nos proporciona amor, carinho,
afeto, paz de espírito, prosperidade, progresso, ordem social e uma infinidade
de coisas que até hoje o homem pôde criar e instituir. Que aqueles
que têm as rédeas do poder mudem o roteiro deste filme. Que saibam
o valor da vida de cada brasileiro, na sua manifestação mais singela.
Que sejamos personagens de uma história feliz, livres para caminhar nos
parques e alamedas de nossas cidades, que possamos ver a paz e a ordem social
voltarem às nossas vidas.