A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

Vou me embora pra Borá

(Robert Thomaz)

Cansei. Cansei de todos os problemas que me envolvem. Cansei de me preocupar com a falta de piedade das autoridades para com aqueles que vivem na miséria. Cansei do desdém da Justiça para com os crimes cometidos pelos ricos e poderosos, nos quais não nos surpreendemos quando as vítimas são pobres, inocentes, sóbrios, crianças, velhos ou mulheres indefesas. Vou me embora para Borá. Cansei de assistir os telejornais e ver seqüestros relâmpagos, mortes por colisão de automóveis, assassinatos decorrentes do confronto da polícia com o tráfico de drogas. Cansei de crimes hediondos sem a efetiva prisão de seus autores. Vou me embora para Borá. Cansei de ver crianças serem defenestradas por janelas de apartamentos e seus algozes escaparem ilesos da prisão. Cansei do roubo, amplo e irrestrito, de dinheiro público por políticos e eles saírem impunes em carros luxuosos. Cansei das telenovelas que doutrinam o povo a achar que "o certo está errado e o errado é o certo a fazer". Vou me embora pra Borá. Cansei de ver pessoas esfarrapadas nas ruas, pedindo esmolas e ninguém se compadecer de suas dores. Cansei de pessoas com suas geladeiras duplex abarrotadas de comida muito preocupadas em emagrecer enquanto famílias inteiras mal têm o que comer nas panelas enegrecidas pelo fogão à lenha. Vou me embora pra Borá. Cansei de ver florestas devastadas pela ganância de alguns e não serem presos os responsáveis pelo crime ambiental. Cansei de ver famílias de jovens viciados esfacelarem-se pela avareza de indivíduos inescrupulosos que lucram muito com o tráfico de drogas. Vou me embora pra Borá. Cansei de pessoas pedindo para serem amadas quando elas mesmas não sabem o que é o verdadeiro amor, que ele significa doação, préstimo, altruísmo, compreensão dos erros humanos por mais inusitados que sejam. Cansei de pessoas prepotentes, despóticas, impiedosas que pedem misericórdia quando se encontram em apuros. Vou me embora pra Borá. Cansei de o povo brasileiro almejar por um presidente salvador que solucione a maioria dos problemas sociais e o eleito mal chegar a sentar em sua cadeira em Brasília, preocupando-se com tais relevâncias. Cansei do desprezo e a falta de atitudes das autoridades de saúde em relação à gravidade apresentada pela gripe suína e daí resultarem óbitos e mais óbitos. Vou me embora pra Borá! Mas onde fica Borá?

Borá é o menor município brasileiro em número de habitantes segundo último censo do IBGE. Localiza-se no Estado de São Paulo e tem apenas 834 habitantes. O nome Borá vem de uma abelha que no início do século XX proliferava na região. E lá todo mundo se conhece. Lugarzinho sossegado meu, onde a paz ainda existe e a violência só aparece se ligarmos a televisão. Vou me embora pra Borá. Lá serei amigo do prefeito; vou beber calmamente nas esquinas com amigos, sem medo de bala perdida ou seqüestro relâmpago; vou namorar na praça da cidade sob um céu de estrelas luzentes e não serei assaltado e nem roubarão meu carro que deixarei aberto. Vou embora pra Borá. Lá poderei cobrar dos políticos - que são poucos - sua correta atuação, até mesmo porque seremos meus vizinhos ou prezados amigos. Lá viverei muito, em vista da expectativa de vida que é em torno dos 75 anos de idade. Meu coração bate mais forte e um sorriso me cintila o rosto. Vou me embora pra Borá! Lá trocarei prosa entre um cafezinho e outro, pois a maioria do povo tem muito a ouvir e me ensinar, já que a taxa de alfabetização é de 88,91%. Lá se perder minha carteira pela manhã, certamente à tarde baterão palmas em meu portão que estará aberto, enquadrado num muro baixo, entregando-a sem faltar um centavo. Vou me embora pra Borá! Lá as crianças brincam nas ruas e os carros diminuem a velocidade, aguardando que elas retornem às calçadas, pois quem está no volante não só conhece a criança que brinca, mas lembra que um dia foi criança e que ali está uma vida. Lá as drogas passam ao largo, pois muito se trabalha e ninguém tem tempo ocioso no bolso. Vou me embora pra Borá! Lá terei paz, igualdade e justiça, valores que a população das cidades desprezou, reprimiu e corrompeu. Valores que se buscássemos para nós mesmos, resultariam em reflexos profundos e grandiosos em todos que nos cercam. Se o homem não resgatar esta trindade, fundamental a todas as virtudes e valores, inegavelmente estará colocando a corda com nó corrido no próprio pescoço. Acabará com a maior das graças que recebeu: a vida. Mas como não quero estar por aqui quando o circo pegar fogo... Vou me embora pra Borá!

Copyright © 1999-2020 - A Garganta da Serpente