A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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O silêncio dos inocentes

(Robert Thomaz)

Se nossa memória não nos trai, recordemos de épocas passadas, embora sombrias para a liberdade expressão em nosso imenso país. Vivíamos sob outros costumes e hábitos. Lembro que podíamos deixar as portas e janelas de nossos lares abertos durante o dia e até mesmo à noite; saíamos para comprar um cigarro e deixávamos o carro aberto e nada acontecia; se deixássemos o troco sobre o balcão, por mero esquecimento, éramos chamados pelo balconista que nos entregava a quantia que nos era devida; víamos pessoas caminhando com o seu cão, em lugares pouco movimentados, ao anoitecer ou mesmo durante a noite; era raro vermos noticiários que relatavam tiroteios e chacinas nas favelas; passeávamos pelas ruas durante o dia ou à noite e nem pensar em "bala perdida" ou "arrastão"; a elite governista e as demais autoridades eram aparentemente íntegras e dignas e não se envolviam constantemente em escândalos de corrupção; atos de violência pública ou crimes hediondos envolvendo pais e filhos eram figuras de ficção que só víamos em romances policiais.

O que mudou?

Por que hoje em dia nossos pais tanto temem pela segurança de seus filhos quando estes estão numa balada? Por que o tráfico de drogas consegue dominar tantos jovens e torná-los seus escravos? Por que tanta violência no trânsito? Por que tantas agressões às mulheres, crianças, homossexuais e mendigos? Por que tantos desvios de recursos públicos pelas autoridades e supostos empresários? Por que tanta corrupção nas instituições? Por que desconfiamos das autoridades judiciárias, policiais ou eclesiásticas quando deveriam ser aquelas que mais devíamos confiar? Por que tanta criminalidade e nenhuma providência?

A quem culpar? Sabemos que uma parte da responsabilidade social recai sobre os ombros de nossos governantes e autoridades, mas será que a negligência e omissão dos agentes do Estado nos diversos níveis e setores da sociedade será o principal motivo desse declínio social vertiginoso?

É inegável que nossa sociedade vem se deteriorando. Vemos, ouvimos e lemos todo tipo de notícia ruim e ficamos calados. A população - desprotegida, inocente e desejosa de um mundo melhor - sofre calada. Ela é chicoteada pelos desmandos do poder e pela corrupção que avançam numa carruagem de fogo, a consumir valores e qualidades morais. É preciso que se tome uma atitude efetiva senão, certamente iremos naufragar na lama que está se formando e que poderá nos consumir no fim dos tempos.

Imagine um mundo melhor. Imagine se voltássemos a ter menos violência nas ruas e nos lares. Imagine se voltássemos a namorar nas praças à noite. Imagine se mais e mais jovens optassem pelo esporte e pela ciência e não se entregassem às drogas. Imagine se o Estado assumisse sua responsabilidade social e executasse a recuperação de jovens delinqüentes, afastando-os do tráfico de drogas. Imagine se empresários diminuíssem sua margem de lucro e investissem em jovens recém-formados nas universidades, reduzindo o desemprego e a má distribuição de renda. Imagine se cada um mudar o seu comportamento, na busca de um futuro melhor, para nós e para nossos filhos.

Pare apenas de imaginar. Faça alguma coisa. Não mude o mundo. Mude aquilo que você pode mudar. Chega de ficar calado. Grite. Grite através da mudança de comportamento. Tente ser uma pessoa feliz; busque sanidade até mesmo nos momentos de tormenta; procure ter paz de espírito no seu dia-a-dia; seja despojado de preconceitos e indiferença; ajude os desafetos da sociedade, simplesmente com uma pequena atitude ou pelo menos com boa intenção no coração. Chega de ficar calado. Grite. Grite através de seu voto. Mude a situação. Não se iluda com promessas e demagogias políticas. Interceda nas rédeas da situação através do voto. Chega de aceitar os desmandos do poder e da corrupção e nada fazer. Mude o que puder mudar, mas mude principalmente você, sua atitude para com o mundo em que vive.

Se você mudar, talvez o mundo não mude, não se torne um paraíso, mas seu coração e sua mente entraram em rota de colisão com uma coisa que todos desejamos: a felicidade. Seja feliz na forma mais simples de ser, sem passar por sobre os outros, sem trapacear, sem trair, sem mentir ou omitir.

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