Se nossa memória não nos trai, recordemos de épocas passadas,
embora sombrias para a liberdade expressão em nosso imenso país.
Vivíamos sob outros costumes e hábitos. Lembro que podíamos
deixar as portas e janelas de nossos lares abertos durante o dia e até
mesmo à noite; saíamos para comprar um cigarro e deixávamos
o carro aberto e nada acontecia; se deixássemos o troco sobre o balcão,
por mero esquecimento, éramos chamados pelo balconista que nos entregava
a quantia que nos era devida; víamos pessoas caminhando com o seu cão,
em lugares pouco movimentados, ao anoitecer ou mesmo durante a noite; era raro
vermos noticiários que relatavam tiroteios e chacinas nas favelas; passeávamos
pelas ruas durante o dia ou à noite e nem pensar em "bala perdida"
ou "arrastão"; a elite governista e as demais autoridades eram
aparentemente íntegras e dignas e não se envolviam constantemente
em escândalos de corrupção; atos de violência pública
ou crimes hediondos envolvendo pais e filhos eram figuras de ficção
que só víamos em romances policiais.
O que mudou?
Por que hoje em dia nossos pais tanto temem pela segurança de seus filhos
quando estes estão numa balada? Por que o tráfico de drogas consegue
dominar tantos jovens e torná-los seus escravos? Por que tanta violência
no trânsito? Por que tantas agressões às mulheres, crianças,
homossexuais e mendigos? Por que tantos desvios de recursos públicos
pelas autoridades e supostos empresários? Por que tanta corrupção
nas instituições? Por que desconfiamos das autoridades judiciárias,
policiais ou eclesiásticas quando deveriam ser aquelas que mais devíamos
confiar? Por que tanta criminalidade e nenhuma providência?
A quem culpar? Sabemos que uma parte da responsabilidade social recai sobre
os ombros de nossos governantes e autoridades, mas será que a negligência
e omissão dos agentes do Estado nos diversos níveis e setores
da sociedade será o principal motivo desse declínio social vertiginoso?
É inegável que nossa sociedade vem se deteriorando. Vemos, ouvimos
e lemos todo tipo de notícia ruim e ficamos calados. A população
- desprotegida, inocente e desejosa de um mundo melhor - sofre calada. Ela é
chicoteada pelos desmandos do poder e pela corrupção que avançam
numa carruagem de fogo, a consumir valores e qualidades morais. É preciso
que se tome uma atitude efetiva senão, certamente iremos naufragar na
lama que está se formando e que poderá nos consumir no fim dos
tempos.
Imagine um mundo melhor. Imagine se voltássemos a ter menos violência
nas ruas e nos lares. Imagine se voltássemos a namorar nas praças
à noite. Imagine se mais e mais jovens optassem pelo esporte e pela ciência
e não se entregassem às drogas. Imagine se o Estado assumisse
sua responsabilidade social e executasse a recuperação de jovens
delinqüentes, afastando-os do tráfico de drogas. Imagine se empresários
diminuíssem sua margem de lucro e investissem em jovens recém-formados
nas universidades, reduzindo o desemprego e a má distribuição
de renda. Imagine se cada um mudar o seu comportamento, na busca de um futuro
melhor, para nós e para nossos filhos.
Pare apenas de imaginar. Faça alguma coisa. Não mude o mundo.
Mude aquilo que você pode mudar. Chega de ficar calado. Grite. Grite através
da mudança de comportamento. Tente ser uma pessoa feliz; busque sanidade
até mesmo nos momentos de tormenta; procure ter paz de espírito
no seu dia-a-dia; seja despojado de preconceitos e indiferença; ajude
os desafetos da sociedade, simplesmente com uma pequena atitude ou pelo menos
com boa intenção no coração. Chega de ficar calado.
Grite. Grite através de seu voto. Mude a situação. Não
se iluda com promessas e demagogias políticas. Interceda nas rédeas
da situação através do voto. Chega de aceitar os desmandos
do poder e da corrupção e nada fazer. Mude o que puder mudar,
mas mude principalmente você, sua atitude para com o mundo em que vive.
Se você mudar, talvez o mundo não mude, não se torne um
paraíso, mas seu coração e sua mente entraram em rota de
colisão com uma coisa que todos desejamos: a felicidade. Seja feliz na
forma mais simples de ser, sem passar por sobre os outros, sem trapacear, sem
trair, sem mentir ou omitir.