Reciclagem de material humano. Nova terminologia de inserção
social. Conheci o termo durante um programa televisivo exibido por um cantor
no papel de dublê de apresentador. Este pouco conhecedor das nuances do
assunto o apresentou com visíveis dificuldades. Referia-se ao escopo
de entidades não governamentais que almejam a inclusão de grupos
renegados pela sociedade. Para tanto, estas entidades organizaram as Daspu,
Daspre e Dasdoida. Daspu é um programa destinado à confecção
e venda de roupas produzidas por prostitutas, com a finalidade de incluí-las
na sociedade que as rejeita ou simplesmente as lança no ostracismo. Daspre
e Dasdoida, respectivamente, são programas congêneres que se destinam
também a incluir presidiárias e pessoas com distúrbios
mentais.
Reciclar seres humanos? É uma expressão que parece, em primeiro
plano, mais adequada à recuperação da parte reutilizável
de dejetos do sistema de consumo ou produção, não ao ser
humano. Sem dramatizar, é no mínimo impiedoso tratar prostitutas,
presidiárias e pessoas com desvios mentais como dejetos da sociedade.
Falando como alguns que adoram a terminologia do ciberespaço: "Seria
melhor deletar essa gente... assim não teríamos tantos problemas...".
Absurdos à parte, admitir que esta qualidade de ser humano seja algo
de natureza descartável é assumir a face mais cruel do preconceito
que, aparentemente, desejamos extinguir ou pelo menos minimizar. Na maioria
das vezes, a mulher não se prostitui por opção. Refém
de situações desfavoráveis é coagida a adotar um
estilo de vida degradante, no qual se submete à entrega física
e à humilhação moral. No caso das apenadas também,
em sua maioria, foram vítimas de infortúnios ou envolvimentos
perniciosos com seres da sociedade que as levaram para trás das grades.
Quanto a seres com desvios mentais, a sociedade recai na vertente da "ditadura
da perfeição". Se nascermos imperfeitos ou adquirimos uma
enfermidade permanente, tornamo-nos seres desprezíveis aos impiedosos
olhos alheios.
É mister reciclar seres humanos que foram rejeitados pela sociedade?
Acreditemos que não. Necessário sim é a reciclagem da sociedade
como um todo. Não se "reciclam seres humanos", mas mudam-se
mentalidades, posturas, atitudes, adotando-se comportamentos com base numa educação
justa e não tendenciosa. Não basta colocarmos crianças
com deficiências físicas ou mentais em convivência escolar
com outras ditas "perfeitas" se não esclarecermos que aquelas
são pessoas que não tiveram a mesma oportunidade na vida, que
embora "diferentes" externamente, possuem uma alma igual a delas,
possuem sentimentos totalmente iguais aquelas com as quais devem conviver. Não
basta a lei coibir a prostituição, deve-se melhorar a qualidade
de vida nas cidades e proporcionar melhores condições de acesso
ao ensino escolar, bem como gerar empregos dignos e bem remunerados para a parcela
que a de ingressar no mercado de trabalho. Não basta superlotar as cadeias
e presídios e esquecer que lá não é depósito
de "lixo humano". Cabe as autoridades reformular o sistema prisional,
criando oportunidades para a formação escolar e profissional da
população carcerária, acompanhamento e recuperação
psiquiátrica para os apenados, além de criar um sistema de reintegração
social para aqueles que uma vez foram isolados e rejeitados pela sociedade.
Se esses seres, desprezados pela sociedade, tivessem a oportunidade de não
enveredar pelos caminhos tortuosos da degradação (prostitutas
e presidiárias) e da rejeição (deficientes mentais) certamente
teríamos uma sociedade com outra aparência. As desigualdades, a
pobreza, a violência e a exclusão social seriam muito menores.
Mas para que isso aconteça não depende somente de vontade política.
Depende da vontade do povo, da vontade de mudar o sistema atual para algo melhor.
A sociedade que não percebe que, a cada dia, afunda na própria
lama que cria está fadada a se autodestruir.
A criação da Daspu, Daspre e Dasdoida não deixa de ser
uma boa iniciativa. Entretanto, não seria mais uma forma de ratificar
o preconceito em relação aos segmentos que defendem? Acreditemos
que as ações destas entidades não governamentais possam
redundar em bons resultados. Só o destino nos dirá. Que suas iniciativas
e atitudes possam promover a inclusão social destes segmentos tão
rejeitados e oprimidos por nossa sociedade injusta e repreensível. Oxalá
que isso ocorra.