A Garganta da Serpente
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Reciclagem

(Robert Thomaz)

Reciclagem de material humano. Nova terminologia de inserção social. Conheci o termo durante um programa televisivo exibido por um cantor no papel de dublê de apresentador. Este pouco conhecedor das nuances do assunto o apresentou com visíveis dificuldades. Referia-se ao escopo de entidades não governamentais que almejam a inclusão de grupos renegados pela sociedade. Para tanto, estas entidades organizaram as Daspu, Daspre e Dasdoida. Daspu é um programa destinado à confecção e venda de roupas produzidas por prostitutas, com a finalidade de incluí-las na sociedade que as rejeita ou simplesmente as lança no ostracismo. Daspre e Dasdoida, respectivamente, são programas congêneres que se destinam também a incluir presidiárias e pessoas com distúrbios mentais.

Reciclar seres humanos? É uma expressão que parece, em primeiro plano, mais adequada à recuperação da parte reutilizável de dejetos do sistema de consumo ou produção, não ao ser humano. Sem dramatizar, é no mínimo impiedoso tratar prostitutas, presidiárias e pessoas com desvios mentais como dejetos da sociedade. Falando como alguns que adoram a terminologia do ciberespaço: "Seria melhor deletar essa gente... assim não teríamos tantos problemas...". Absurdos à parte, admitir que esta qualidade de ser humano seja algo de natureza descartável é assumir a face mais cruel do preconceito que, aparentemente, desejamos extinguir ou pelo menos minimizar. Na maioria das vezes, a mulher não se prostitui por opção. Refém de situações desfavoráveis é coagida a adotar um estilo de vida degradante, no qual se submete à entrega física e à humilhação moral. No caso das apenadas também, em sua maioria, foram vítimas de infortúnios ou envolvimentos perniciosos com seres da sociedade que as levaram para trás das grades. Quanto a seres com desvios mentais, a sociedade recai na vertente da "ditadura da perfeição". Se nascermos imperfeitos ou adquirimos uma enfermidade permanente, tornamo-nos seres desprezíveis aos impiedosos olhos alheios.

É mister reciclar seres humanos que foram rejeitados pela sociedade? Acreditemos que não. Necessário sim é a reciclagem da sociedade como um todo. Não se "reciclam seres humanos", mas mudam-se mentalidades, posturas, atitudes, adotando-se comportamentos com base numa educação justa e não tendenciosa. Não basta colocarmos crianças com deficiências físicas ou mentais em convivência escolar com outras ditas "perfeitas" se não esclarecermos que aquelas são pessoas que não tiveram a mesma oportunidade na vida, que embora "diferentes" externamente, possuem uma alma igual a delas, possuem sentimentos totalmente iguais aquelas com as quais devem conviver. Não basta a lei coibir a prostituição, deve-se melhorar a qualidade de vida nas cidades e proporcionar melhores condições de acesso ao ensino escolar, bem como gerar empregos dignos e bem remunerados para a parcela que a de ingressar no mercado de trabalho. Não basta superlotar as cadeias e presídios e esquecer que lá não é depósito de "lixo humano". Cabe as autoridades reformular o sistema prisional, criando oportunidades para a formação escolar e profissional da população carcerária, acompanhamento e recuperação psiquiátrica para os apenados, além de criar um sistema de reintegração social para aqueles que uma vez foram isolados e rejeitados pela sociedade. Se esses seres, desprezados pela sociedade, tivessem a oportunidade de não enveredar pelos caminhos tortuosos da degradação (prostitutas e presidiárias) e da rejeição (deficientes mentais) certamente teríamos uma sociedade com outra aparência. As desigualdades, a pobreza, a violência e a exclusão social seriam muito menores. Mas para que isso aconteça não depende somente de vontade política. Depende da vontade do povo, da vontade de mudar o sistema atual para algo melhor. A sociedade que não percebe que, a cada dia, afunda na própria lama que cria está fadada a se autodestruir.

A criação da Daspu, Daspre e Dasdoida não deixa de ser uma boa iniciativa. Entretanto, não seria mais uma forma de ratificar o preconceito em relação aos segmentos que defendem? Acreditemos que as ações destas entidades não governamentais possam redundar em bons resultados. Só o destino nos dirá. Que suas iniciativas e atitudes possam promover a inclusão social destes segmentos tão rejeitados e oprimidos por nossa sociedade injusta e repreensível. Oxalá que isso ocorra.

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