Desenvolveu-se, recentemente, mais um triste capítulo da história
de nossas vidas na cidade de Santo André. A jovem Eloá, entusiasmada
com a vida e com tudo o que dela poderia nutrir seu espírito, tinha sonhos.
Sonhos que tanto povoam a mente de jovens meninas da classe pobre, que tem seu
quarto como castelo e seu bairro como reino. Na meiguice de sua juventude, ela
não poderia imaginar que na tarde daquele dia seus sonhos mais brilhantes
seriam eivados por trevas que culminariam com sua morte. Naiara, sua amiga mais
íntima, coadjuvante nos sonhos que elas se confidenciavam nos intervalos
das aulas e nas tardes em que estudavam, também foi arrastada pelas garras
obscuras da violência. O arauto deste infortúnio foi o jovem Lindemberg.
Introvertido e de conduta aparentemente normal, na realidade ele era um ser
mentalmente egoísta, desequilibrado, que levou a conseqüências
funestas o término do namoro. Emboscou as duas belas jovens no apartamento
da ex-namorada e tentou saciar o profundo ressentimento causado pelo término
do relacionamento. O fim de seus sonhos pessoais com Eloá lhe trouxe
a inquietude do desprezo - sentimento odioso e veemente quando se termina uma
relação de forma litigiosa. E ele decidiu que aquele dia seria
o dia do acerto de contas. Com a vida e com Eloá. Depois que o aparato
policial e a mídia alardearam o fato para os quatro pontos cardeais,
Lindemberg tentou ser convencido a mudar sua deliberação mortal
por um negociador profissional, que não obteve sucesso. Transtornado
por horas num embate oral com a polícia, o jovem desequilibrado foi nutrindo
seu ódio pela sociedade e pela vida. Desejava viver um grande amor ao
lado de Eloá, ter filhos com ela, constituir uma família, ser
feliz como o prezado leitor deseja, mas a vida, mais precisamente Eloá,
foi cruel com ele, terminando o relacionamento. Ele tinha que se vingar, precisava
se vingar, como aquela voz ruim lhe determinava dentro de sua cabeça.
Depois de horas de negociação, de espancamento da ex-namorada
e sua amiga, de disparos a esmo no conjunto habitacional onde estavam, ele estava
resoluto, como um soldado da violência delibera sem pestanejar. A polícia
articulou uma estratégia não muito bem formulada e invadiu o apartamento
onde Lindemberg mantinha as duas jovens como reféns. Movido pelo intenso
ressentimento, ele disparou a arma calibre 32 que empunhava, sentindo leve como
se o gatilho o fosse. Tudo ocorreu num piscar rápido, mais intenso, dos
olhos. Projéteis mataram Eloá e feriram Naiara. Três vidas,
no limiar da própria vida enredaram por um caminho tortuoso e movediço.
Eloá perdeu sua vida promissora e seus órgãos foram doados.
Naiara ficou traumatizada pela perda da amiga e certamente passará a
sofrer pelo temor que assombra aqueles que um dia foram reféns de um
seqüestrador passional. Lindemberg passou a caminhar pelo corredor da morte.
Uma morte lenta ou talvez rápida, conforme for a senda que sua vida seguir.
Mas a morte para ele será uma recompensa, fato que não o foi para
a entusiasmada Eloá.
Entristece-nos saber que isso realmente aconteceu. Parece ficção.
Fatos como esse, que dão vigor à violência, que engrossam
os índices desse mal latente no ser humano, deviam a nos levar a pensar.
Onde erramos? O que podemos fazer para reverter essa situação
que nos parece irreversível?
Não precisamos de lente de aumento para perceber que a própria
sociedade e seu governo, não comprometido com a integridade e o bem-estar
coletivo, estão permitindo que a violência se alastre. Se não
diminuirmos a miséria, o desequilíbrio social, a falta de esperança
e tantas outras necessidades, não teremos o que celebrar em breve. Nossos
filhos serão filhos da violência, pois é ela que anda nos
lares, nas ruas, na porta dos colégios, atrás dos volantes, por
trás de um gatilho ou no punho de uma lâmina. Trabalhemos a família,
pois ela é a porção menor da sociedade e que vivemos. Tenhamos
mais tempo para nossos filhos, conversemos, brinquemos com eles, ouçamos
suas agonias. Sejamos seus amigos, seus confidentes e não apenas educadores
à distância, desprovidos de carinho e empatia. Não nos desviemos
de nosso dever como pais. A felicidade é feita a dois, com nosso ente
querido, com nossos semelhantes. Talvez se os pais de Eloá, Naiara e
Lindemberg pensassem desta forma, talvez essa catástrofe não tivesse
ocorrido.