Encontraram o poeta pela manhã, afogado na poça formada por seu
próprio sangue. Cortara os pulsos com a palavra, afiada como navalha.
Figura interessante aquele poeta que experimentava poesia no café da
manhã, na falta de pão. Mirradinho como ele só, perambulava
pelas ruas com seu livro sob as axilas. Até já ia dizer que era
poeta sem livros, mas tinha, um só, que vendia ou trocava por um quilo
de queijo na feira. Livro magrinho, fotocopiado e grampeado no escritório
do amigo. Poeta marginal, palavra marginal naquela cidade legítima e
fofoqueira.
Ultimamente vivia alegre. Emprestaram-lhe uma tapera urbana onde co-habitava
com os cupins - carne para o almoço. Tinha até pequeno quintal
nos fundos da... residência? Verdadeiro matagal de onde saíram
gambás e cobras tão logo resolvera ceifá-lo. Ernesto chegou
a visitá-lo em sua nova moradia; testemunhou o sorriso enorme que o amigo
mantinha emoldurado no rosto macilento enquanto mostrava os calos que lhe cobriam
a palma da mão: "minha caneta é a enxada, escrevo poemas
na terra e nos caules tenros deste mato, que desbasto" - comentou contente.
Por isso não se conformava, o corpo exangue do amigo, a palavra abandonada
no chão! Por quê?
Ah sim, desejam saber o nome da vítima (?). Não sei, e está
aí parte do seu mistério: tinha nome? Nem Ernesto o sabia. E que
importa? Bastava alguém dizer que se tratava do poeta, pronto, estava
identificado. Sua existência não pedia nome, figura pública
que era. E ainda que mal visto, parasita sem eira nem beira, sem origens - e
como são importantes as origens naquela cidade legítima e fofoqueira!
- , sua morte foi sentida, não como alívio, como se poderia imaginar,
mas como peso de ausência, como peso de saudade. Talvez remorsos, mas
duvido da existência de tal sentimento naquele deserto repleto de pessoas,
sólidas construções e inventadas tradições.
Também se desconheciam idade, filiação materna e paterna,
naturalidade. E não era o povo que desejava saber o que antes nunca o
intrigou, mas o jornalista medíocre encarregado da notícia. Deparou-se
ele com a falta de dados, não podia noticiar a morte do poeta em insignificante
nota, incumbido que fora de preencher uma página inteira. O que não
faz a falta de assunto! Sabia-se apenas ser do sexo masculino, as prostitutas
o confirmavam. Ah, as prostitutas! Com que prazer entregavam-se aos seus versos
e aos seus lábios. Com que ansiedade disputavam o direito de inspirá-lo.
Voluptuosas, confiavam seus corpos nus a sua inspiração, e sentiam-se
preenchidas de metáforas! Atendia a todas, a cada uma dedicava um poema
inédito que cuidadosamente traçava sobre os seios, sobre o horizonte
do ventre, no interior das coxas experientes; e amanhecia embriagado, o hálito
inconfundível de verbo lhe azedando a boca.
O sentimento que provocava na multidão legítima e fofoqueira misturava
desprezo e admiração. Impossível não se incomodarem
com sua presença, sempre aquele hálito forte de verbo que impregnava
os lugares por onde passava. Por isso um poeta: incomodava! O mesmo olho altivo
que o desprezava também o espiava admirado, de um admirado invejoso,
de um admirado que não conseguia entender aquele andarilhar sem sentido.
Quando viam o livrinho sob as axilas, corriam ansiosos, compravam, e no privado
da solidão, aspiravam o suor impregnado nas páginas. Ler? Não
eram as palavras que procuravam compreender, mas o poema salgado infiltrado
no papel poroso que só o paladar tornava inteligível. Ah, poema
salobro!
Mas o fato é que fora encontrado morto em plena manhã, a carne
inerte estirada no piso sujo da tapera urbana que lhe emprestaram, a palavra
afiada e manchada de sangue ainda brilhava num canto, os pulsos deflorados.
Suicídio? Suicidava-se um pouco por dia, todos os dias da sua vida. Mas
vivia tão feliz nestes últimos tempos!
Recolhido anonimamente, seu corpo sumiu, bem como a palavra, arma que utilizara.
Sumiu o corpo do poeta e a metáfora, mas no jornal Ernesto leu a notícia:
"morreu carbonizado enquanto dormia bêbado, sob a luz de uma vela
derrubada pelo vento".
Pois bem, que diga o jornal a sua verdade, fria verdade; eu prefiro o calor
da poesia... E é como um poema que o bardo brada na praça: "não
morreu carbonizado o bêbado; morreu o poeta, os pulsos cortados pela palavra,
afiada como navalha".