A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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A nudez excitante do olhar de Bruna

(Viegas Fernandes da Costa)

"Chegará o dia em que a nudez dos olhos será mais excitante do que a do sexo", escreveu Lygia Fagundes Telles em seu romance "As Meninas". Foi o que me atraiu o olhar: seus olhos nus e devassadores, depois o corpo. E não me venham encher o saco dizendo que só falo de mulheres, afinal, são lindas e inteligentes as que conheço, por isso este meu cronicar sobre o sexo feminino.

Tentava-lhes adivinhar a cor, mas àquela distância e sob a luz do Farol, impossível! Porém lindos, sim, porque expressivos. Ela, cabelos longos que lhe cobriam as costas; e o corpo, exuberante e viçoso de ancas largas. Podia ter dito quadris, talvez soasse mais pudico, mas ancas dão idéia mais exata desta Bruna lasciva cujo corpo recende a prazer e opulência. Ancas, carne, o claro dourado da pele, o corpo, enfim, e a suposta nudez sob aquela roupa leve de verão tropical vieram depois, porque primeiro aqueles olhos e aquele jeito desconcertante de lançá-los sobre a face alheia.

Conversava com aquela que parecia uma amiga, morena, ambas sentadas, uma de frente para a outra, rodeadas por amigos diversos. Bruna com os pés, calçados em sandálias de tiras de couro, apoiados sobre o sarrafo da tosca cadeira de palha. Tinha as pernas dobradas e os braços apoiados nos joelhos, o que fazia com que seu corpo se reclinasse na direção da amiga. Tão próximas, os hálitos quentes acariciando as faces jovens, e aqueles olhos! Não propriamente os olhos, que depois descobri serem verdes, intensamente verdes, mas o olhar! Nunca que vira um olhar assim, de devassa, de desejo, de carícia. Dialogavam como pretexto de se encararem, é certo. Leves e impetuosos, os olhos de Bruna corriam o rosto moreno da amiga, caiam sobre os lábios, demoravam-se nas pupilas, bailavam sincronicamente sobre os olhos morenos e descansavam sobre o conjunto do rosto que falava alegremente. Ansioso e enciumado, confesso, esperava o momento em que seus lábios ousassem se tocar e que sua língua invadisse a boca alheia, mas não aconteceu. Não aconteceu o beijo e a poesia que aqueles olhos prometiam. Afastaram-se, e a conversa rolou solta na mesa, conversa grupal, com Bruna jogando a cabeça para traz quando gargalhava e me concedendo o perfil das Graças de Boticcelli na representação da Primavera. Como afogar meus desejos no copo de cerveja e na companhia de Ernesto? Impossível, e me descobri tolamente apaixonado.

Como disse, não lhes podia adivinhar a cor, estava distante, e também meus ouvidos lhe exigiam a voz e minha memória seu nome. Por isso, trôpego e pateticamente emocionado, fui ajoelhar-me ao seu lado, "desculpe interromper", suas mãos em meus lábios - estavam frias e macias - e minha patética súplica refletida na surpresa dos seus gestos. Olhava-me do alto, seu rosto ligeiramente inclinado sobre o meu, e lá da outra mesa Ernesto tinha a certeza de já ter visto semelhante cena em alguma página de Cervantes. Triste sina esta de representar papéis ultrapassados. E papel por papel, disseram-me os da mesa que era atriz de teatro, ela sorriu confirmando, e confessei-lhe este texto. Verdade é que não acreditou, "crônica?" - indagou com ironia. "Uma crônica, e a arquitetura do teu corpo nu tomando o meu, e vice-versa" - mas não lhe revelei este meu outro desejo, já o adivinhara com seus olhos, e sorriu.

Depois algumas palavras trocadas, o tremor dos braços e das pernas e a certeza de que Lygia tinha razão. Enfim, que fazer se atraído pela nudez excitante do olhar de Bruna? Pois é, mas ei-la, a crônica, pois a este olhar verde e que também nos põe nus não quero passar por tratante.

E é isto, mais uma vez.

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