Alice é alegre, mas não é feliz. Toda sorrisos, cheia de
simpatia para distribuir para as pessoas normalmente emburradas e estressadas,
Alice deve trazer um grande alívio para quem sofre junto com ela. Principalmente,
para quem convive com ela dentro da Detenção Feminina em São
Paulo.
Do alto dos seus sessenta e sete anos, a velha ex-traficante tem pleno domínio
da realidade. Na reportagem feita por um programa de TV, Alice nos deu um banho
de sabedoria. Mais dez minutos no vídeo e até teria nos convencido
de que traficar é natural. Porque Alice é assim mesmo. Transpira
a alegria de viver e a serenidade de quem não se deixa afogar pela culpa.
Culpar-se por quê? Culpa é para quem tem escolha. Quem não
tem opção não pode se dar ao luxo de carregar consigo este
sentimento. Ainda mais que a culpa é tão avassaladora quanto a
droga. Ou, talvez, pior do que ela. Pelo menos, destrói tanto quanto
e também joga as pessoas abaixo do nível do chão.
Alice conta com naturalidade que teve que traficar para sustentar os filhos.
Que foi presa várias vezes e, não achando emprego por ser ex-presidiária,
teve que traficar de novo. Como o farão várias de suas companheiras
de presídio quando ganharem de novo a liberdade. Alice cobra da sociedade
e dos governos ações mais efetivas para ajudar os ex-detentos
a se reintegrarem à sociedade. E, do alto do seu sorriso sereno e dos
seus quase setenta anos, mostra como somos omissos. E que, com nossa omissão,
jogamos nossos filhos, nossos vizinhos e pessoas que cruzam diariamente nosso
caminho nos braços do tráfico e do crime. E depois reclamamos
que a violência está próxima demais de nós. Quantas
vezes - perguntaria Alice se tivesse mais dez minutinhos que fosse na TV - você
negou ajuda a um ex-detento? Não, não estamos falando de emprego,
que emprego Alice já disse que ninguém dá.
Alice vive no país das armadilhas. A cada dia que passa, cada um só
quer saber de si. Ninguém ajuda ninguém. A não ser para
ganhar audiência. Sem saída, milhões de pessoas ficam à
mercê dos chefões do crime. Ou roubam ou traficam. Ou traficam
ou roubam. E, eventualmente, matam. Quando dão sorte, morrem abatidas
pela polícia ou por grupos rivais. Quando não, pegam cadeia. Como
Alice. Velha Alice que pegou muita cadeia por esta vida afora. Não sabemos
se Alice agradece a Deus por ter sobrevivido tanto tempo. Aliás, nem
sabemos se deve.
Mas, o sorriso de Alice, a sabedoria de Alice e a sinceridade de Alice são
dádivas divinas. Com certeza, Deus, que dizem escrever certo por linhas
tortas, não pôs Alice no mundo à-toa. Devíamos prestar
mais atenção ao que ela tem a dizer. Se assim o fizermos, talvez
paremos de falar tantas bobagens quando abordarmos a questão da violência
e da criminalidade neste país.
Fale mais, Alice! Cumpre sua missão! Fale e nos mostre um caminho, porque
nós, pobres e ignorantes mortais guiados por ricos, corruptos e ignorantes
líderes, estamos perdidos. Ao contrário de você, que aprendeu
com a vida, apesar (e, talvez, por isso mesmo) de apanhar tanto dela.