A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Porque não odeio terroristas
Onde está o jornalista descalço de Bagdá? Exigimos vê-lo! Não foi para defender a liberdade e os Direitos Humanos que os EUA invadiram o Iraque?

(Luiz Lyrio)

Não odeio os terroristas. Mais do que a doença, eles são o sintoma. Não proliferam em tecidos sociais sadios. Não sobrevivem onde não existe um organismo doente para abrigá-los.

O terrorismo reflete o desespero daqueles que querem o fim da injustiça, da opressão e da exploração, e vêem bloqueados todos os caminhos pacíficos para a transformação social e política. Ele reflete a impaciência de alguns diante da apatia e da omissão de muitos. Ele sinaliza que um organismo social está doente, mas, ao contrário do que revela o comportamento de um povo oprimido pacato e ordeiro, ele mostra, onde se manifesta, que ainda há esperança e nem tudo está perdido.

Alimentam o terrorismo, além da revolta dos excluídos, os abusos cometidos pelos tiranos. Os que tratam da mesma forma aquele que atira uma granada e aquele que atira um par de sapatos num governante fracassado alimentam e multiplicam ações terroristas no mundo. Também podem ser considerados os melhores amigos do terrorismo aqueles que torturam, humilham e negam aos seus prisioneiros os direitos humanos mais primários.

Se quem se explode é um louco fanático, quem se cala e se omite e é um louco manso. E uma multidão de loucos mansos que legitima com seu silêncio e sua omissão sua própria desgraça e a desgraça de seus semelhantes talvez seja pior para o futuro da humanidade do que uma horda sanguinária de loucos fanáticos.

A cada dia que um homem-bomba explode levando algumas dezenas de almas para o paraíso, a cada dia que soldados massacram crianças e velhos, a cada bombardeio irresponsável que ceifa vidas inocentes, a cada dia que vem ao nosso conhecimento tortura e espancamento em prisões de terroristas e de jornalistas descalços, perdemos mais uma ótima chance para pensar e agir em favor da paz. Se, após cada evento sangrento, ao invés de nos deixar levar pelo ódio medíocre comandado por mentes limitadas, parássemos para refletir sobre o que levou o mundo a conviver com tanto sofrimento, teríamos compreendido os sintomas, diagnosticado melhor nossas doenças e encontrado remédios mais eficazes para combater o verdadeiro mal que acomete a sociedade contemporânea. Precisamos ouvir Lennon. Precisamos, mais do que nunca, dar uma chance à paz. A violência contra terroristas, deixando intocado o tecido político e social que os gerou, não nos levou a lugar nenhum. Mesmo porque a tal "liberdade duradoura" pela qual o Ocidente diz lutar não prevalecerá no mundo enquanto não existir a felicidade duradoura para todos os homens.

Enquanto o mundo não passar por mudanças radicais necessárias, novos terroristas surgirão para ocupar o lugar dos terroristas mortos. E muitos de nós, pacatos cidadãos de bem, ainda que cheios de reservas, ainda que com nossos cérebros transbordantes de doutrinação midiática, continuaremos a torcer pelos terroristas. Pelo menos enquanto, no bangue-bangue da vida real, os mocinhos, independente da cor da sua pele, forem mais bandidos do que os bandidos.

Onde está o jornalista descalço de Bagdá? Exigimos vê-lo! Não foi para defender a liberdade e os Direitos Humanos que os EUA invadiram o Iraque?

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