Não odeio os terroristas. Mais do que a doença, eles são
o sintoma. Não proliferam em tecidos sociais sadios. Não sobrevivem
onde não existe um organismo doente para abrigá-los.
O terrorismo reflete o desespero daqueles que querem o fim da injustiça,
da opressão e da exploração, e vêem bloqueados todos
os caminhos pacíficos para a transformação social e política.
Ele reflete a impaciência de alguns diante da apatia e da omissão
de muitos. Ele sinaliza que um organismo social está doente, mas, ao
contrário do que revela o comportamento de um povo oprimido pacato e
ordeiro, ele mostra, onde se manifesta, que ainda há esperança
e nem tudo está perdido.
Alimentam o terrorismo, além da revolta dos excluídos, os abusos
cometidos pelos tiranos. Os que tratam da mesma forma aquele que atira uma granada
e aquele que atira um par de sapatos num governante fracassado alimentam e multiplicam
ações terroristas no mundo. Também podem ser considerados
os melhores amigos do terrorismo aqueles que torturam, humilham e negam aos
seus prisioneiros os direitos humanos mais primários.
Se quem se explode é um louco fanático, quem se cala e se omite
e é um louco manso. E uma multidão de loucos mansos que legitima
com seu silêncio e sua omissão sua própria desgraça
e a desgraça de seus semelhantes talvez seja pior para o futuro da humanidade
do que uma horda sanguinária de loucos fanáticos.
A cada dia que um homem-bomba explode levando algumas dezenas de almas para
o paraíso, a cada dia que soldados massacram crianças e velhos,
a cada bombardeio irresponsável que ceifa vidas inocentes, a cada dia
que vem ao nosso conhecimento tortura e espancamento em prisões de terroristas
e de jornalistas descalços, perdemos mais uma ótima chance para
pensar e agir em favor da paz. Se, após cada evento sangrento, ao invés
de nos deixar levar pelo ódio medíocre comandado por mentes limitadas,
parássemos para refletir sobre o que levou o mundo a conviver com tanto
sofrimento, teríamos compreendido os sintomas, diagnosticado melhor nossas
doenças e encontrado remédios mais eficazes para combater o verdadeiro
mal que acomete a sociedade contemporânea. Precisamos ouvir Lennon. Precisamos,
mais do que nunca, dar uma chance à paz. A violência contra terroristas,
deixando intocado o tecido político e social que os gerou, não
nos levou a lugar nenhum. Mesmo porque a tal "liberdade duradoura"
pela qual o Ocidente diz lutar não prevalecerá no mundo enquanto
não existir a felicidade duradoura para todos os homens.
Enquanto o mundo não passar por mudanças radicais necessárias,
novos terroristas surgirão para ocupar o lugar dos terroristas mortos.
E muitos de nós, pacatos cidadãos de bem, ainda que cheios de
reservas, ainda que com nossos cérebros transbordantes de doutrinação
midiática, continuaremos a torcer pelos terroristas. Pelo menos enquanto,
no bangue-bangue da vida real, os mocinhos, independente da cor da sua pele,
forem mais bandidos do que os bandidos.
Onde está o jornalista descalço de Bagdá? Exigimos vê-lo!
Não foi para defender a liberdade e os Direitos Humanos que os EUA invadiram
o Iraque?