A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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E não é que se lembraram da educação?

(Luiz Lyrio)

E não é que tudo que gritamos nas escolas, nas ruas e nos halls dos palácios governamentais encontrou, enfim, um eco? Está certo que é um eco safado de quem faz de conta que descobriu o óbvio, mas não deixa de ser um eco...

Pena que cada um interpreta os graves problemas da educação a seu modo e de acordo com as suas conveniências. E nós, educadores, que entendemos (e muito) do assunto, mais uma vez, ao que tudo indica, seremos colocados à margem dessa grande discussão. No máximo, frente às "grandes mudanças" que se anunciam, seremos chamados para, docilmente, nos submetemos a uma grande reciclagem.

Na grande reforma educacional que se anuncia, todos serão chamados a darem suas opiniões. Opinarão os sindicalistas, os jornalistas, os políticos corruptos, os astrólogos, os dentistas, as lavadeiras, os pedreiros, os padres, os pastores, os engenheiros, os obstetras, os antropólogos, os padeiros, os físicos nucleares, os controladores de vôo e os atores de filme pornô. Até aí, tudo aceitável, tudo dentro dos conformes, não fosse a exclusão do professor, considerado "incompetente e despreparado" pelo presidente da república e pela mídia..

O Presidente da República disse que os alunos são avaliados de quatro em quatro anos, quando deveriam ser avaliados diariamente. De onde ele tirou tamanha bobagem? Aliás, de onde o Lula tira tanta bobagem para falar? Dos programas de humor da TV? Alguém deveria dizer para o presidente que nós, professores, já avaliamos nossos alunos (e o presidente) todos os dias. E se, ao constatarmos que o aluno não aprendeu, não fazemos nada, é porque estamos submetidos às leis que regem o ensino desse país. Apenas cumprimos, a contragosto, as orientações dos governos que querem que os alunos que não aprenderam recebam seu diploma e saiam rápido da escola para dar vagas para outros alunos que sairão também da escola sem saber nem mesmo ler e interpretar o que leram.

Nesse falatório nacional sobre a educação, onde cada um palpita conforme lhe dá na telha, nós, professores, exigimos respeito. Não somos despreparados e incapazes. Somos heróis. Somos heróis porque aprendemos com a nossa labuta diária, superando as deficiências da formação que recebemos em faculdades públicas e privadas que são fiscalizadas pelo governo federal e de onde saem os tecnocratas que tomam as grandes decisões que regem o sistema educacional brasileiro. Somos heróis porque fazemos cursos de especialização muitas vezes por conta própria, sem nenhum apoio de nossos patrões, que nos querem em tempo integral dentro das salas de aula. Somos heróis porque, também contra a vontade dos nossos patrões e chefetes, participamos de cursos, seminários e congressos. Somos heróis porque, para nos aperfeiçoar, procuramos ler, mesmo recebendo um salário que transforma o simples ato de comprar um livro num ato irresponsável de esbanjamento. Somos heróis porque discutimos e trocamos idéias entre nós, apesar de nosso espaço para reuniões nas escolas estar sendo, a cada dia que passa, mais reduzido por ordens vindas "de cima". E somos heróis porque continuaremos fazendo milagres em nossas escolas, inovando e desenvolvendo projetos com resultados positivos surpreendentes, apesar de termos que trabalhar com um número cada vez maior de crianças e jovens por sala de aula, apesar de não termos a mínima segurança no trabalho, estando expostos a todo tipo de risco, e apesar de termos que lecionar em três turnos para conquistar uma vida mais ou menos digna.

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