E não é que tudo que gritamos nas escolas, nas ruas e nos halls
dos palácios governamentais encontrou, enfim, um eco? Está certo
que é um eco safado de quem faz de conta que descobriu o óbvio,
mas não deixa de ser um eco...
Pena que cada um interpreta os graves problemas da educação a
seu modo e de acordo com as suas conveniências. E nós, educadores,
que entendemos (e muito) do assunto, mais uma vez, ao que tudo indica, seremos
colocados à margem dessa grande discussão. No máximo, frente
às "grandes mudanças" que se anunciam, seremos chamados
para, docilmente, nos submetemos a uma grande reciclagem.
Na grande reforma educacional que se anuncia, todos serão chamados a
darem suas opiniões. Opinarão os sindicalistas, os jornalistas,
os políticos corruptos, os astrólogos, os dentistas, as lavadeiras,
os pedreiros, os padres, os pastores, os engenheiros, os obstetras, os antropólogos,
os padeiros, os físicos nucleares, os controladores de vôo e os
atores de filme pornô. Até aí, tudo aceitável, tudo
dentro dos conformes, não fosse a exclusão do professor, considerado
"incompetente e despreparado" pelo presidente da república
e pela mídia..
O Presidente da República disse que os alunos são avaliados de
quatro em quatro anos, quando deveriam ser avaliados diariamente. De onde ele
tirou tamanha bobagem? Aliás, de onde o Lula tira tanta bobagem para
falar? Dos programas de humor da TV? Alguém deveria dizer para o presidente
que nós, professores, já avaliamos nossos alunos (e o presidente)
todos os dias. E se, ao constatarmos que o aluno não aprendeu, não
fazemos nada, é porque estamos submetidos às leis que regem o
ensino desse país. Apenas cumprimos, a contragosto, as orientações
dos governos que querem que os alunos que não aprenderam recebam seu
diploma e saiam rápido da escola para dar vagas para outros alunos que
sairão também da escola sem saber nem mesmo ler e interpretar
o que leram.
Nesse falatório nacional sobre a educação, onde cada um
palpita conforme lhe dá na telha, nós, professores, exigimos respeito.
Não somos despreparados e incapazes. Somos heróis. Somos heróis
porque aprendemos com a nossa labuta diária, superando as deficiências
da formação que recebemos em faculdades públicas e privadas
que são fiscalizadas pelo governo federal e de onde saem os tecnocratas
que tomam as grandes decisões que regem o sistema educacional brasileiro.
Somos heróis porque fazemos cursos de especialização muitas
vezes por conta própria, sem nenhum apoio de nossos patrões, que
nos querem em tempo integral dentro das salas de aula. Somos heróis porque,
também contra a vontade dos nossos patrões e chefetes, participamos
de cursos, seminários e congressos. Somos heróis porque, para
nos aperfeiçoar, procuramos ler, mesmo recebendo um salário que
transforma o simples ato de comprar um livro num ato irresponsável de
esbanjamento. Somos heróis porque discutimos e trocamos idéias
entre nós, apesar de nosso espaço para reuniões nas escolas
estar sendo, a cada dia que passa, mais reduzido por ordens vindas "de
cima". E somos heróis porque continuaremos fazendo milagres em nossas
escolas, inovando e desenvolvendo projetos com resultados positivos surpreendentes,
apesar de termos que trabalhar com um número cada vez maior de crianças
e jovens por sala de aula, apesar de não termos a mínima segurança
no trabalho, estando expostos a todo tipo de risco, e apesar de termos que lecionar
em três turnos para conquistar uma vida mais ou menos digna.