É o caos! Enfim, chegamos ao fundo do poço! Bombas explodem todos
os dias em praticamente todas as escolas do país. De menor ou maior potência,
algumas chegam a ferir. Já outras não. Ferem apenas nossos ouvidos
e nossa dignidade. E expõem nossa impotência diante da sociedade.
Ah, que saudades do tempo em que os alunos apenas nos ofendiam com palavras
de baixo calão!...Tínhamos apelidos sim, alguns muito ofensivos.
Também, em suas ofensas, nossos alunos não poupavam nossas santas
mãezinhas. E outros nos mandavam fazer coisas pouco recomendáveis
e indignas de um professor. Mas contornávamos a situação.
Pelo menos, não éramos ameaçados de morte. Pelo menos,
ninguém jogava cadeiras em nós. Pelo menos, ninguém nos
cobria de porrada. Pelo menos, ninguém atirava em nós. Pelo menos,
ninguém nos culpava pelas agressões que sofríamos. E, em
todas as situações em que nos envolvíamos com alunos, tínhamos
amplo direito de sermos ouvidos. Estou falando de uma época em que ainda
não existiam julgamentos sumários de casos envolvendo professores.
Nesse tempo, tínhamos também um sindicato que se adiantava aos
fatos, ao invés de agir a reboque dos acontecimentos.
Quem conhece por dentro nossas escolas públicas entende a indignação
da professora Norma Seixas Fonseca de Almeida. E não entende a decisão
da juíza Valéria Rodrigues. Até gostamos de uma justiça
rápida, mas desconfiamos de uma justiça sumária que não
ouve uma das partes envolvidas num conflito.
A opinião pública merece melhores explicações sobre
essa história mal contada. Ainda mais quando se sabe que a podre política
partidária que envolve as eleições para diretores de escola
pode estar contaminando os fatos. A eleição de diretores nas escolas
infelizmente abriu uma grande brecha para que os partidos políticos se
imiscuíssem nas eleições dos gestores das escolas, levando
para dentro do ambiente escolar todos os seus vícios, venenos e deformações
morais. Professores atuantes embarcaram nessa corrente e perderam o respeito
por seus colegas. Coisas horríveis foram ditas para as comunidades escolares
para se tirar o voto dos profissionais que tinham prestígio junto a elas.
Não seria surpresa se alguém incitasse um aluno a perturbar a
vida de uma professora até provocar um incidente desagradável.
Não seria surpresa se interesses escusos estivessem por trás da
defesa de um aluno que atira uma cadeira numa professora, causando-lhe traumatismo
craniano.
Nós, professores, que sofremos cotidianamente agressões de vários
tipos, que vemos nossas escolas sendo pichadas e depredadas, que temos notícia
de alunos ameaçando educadores de morte, que testemunhamos pais apoiando
e acobertando crimes cometidos por seus filhos, que convivemos com traficantes
e marginais de todo o tipo, que trabalhamos em ambientes insalubres com níveis
insuportáveis de barulho, que somos assaltados todos os dias, acreditamos
que a professora Norma Seixas Fonseca de Almeida foi agredida duas vezes. Uma
pelo aluno F.A.V. e outra pela justiça.
Entretanto, faltam-nos, com certeza, dados para avaliar essa história
mal contada. A juíza Valeria Rodrigues, certamente, tem informações
que não temos. É aconselhável, para que nossos alunos não
pensem que, a partir de agora, jogar cadeiras em professores não é
mais crime, que novos fatos venham a público. E que se esclareça
de vez a incrível história da professora que foi considerada culpada
por ter sido atingida por uma cadeira atirada por um aluno.