A Garganta da Serpente
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O vaso sanitário e o progresso da humanidade

(Luiz Lyrio)

Sem dúvida nenhuma, o vaso sanitário foi a invenção que mais contribuiu para acelerar o progresso do homem. Antes dessa maravilhosa criação, o ser humano evacuava de cócoras - preocupada em manter um desconfortável equilíbrio - ou em pé - esta última a pior das posições porque trazia outra preocupação, que era a de não emporcalhar as próprias pernas. Quando o homem começou a usar as confortáveis privadas, cremos, partindo do pressuposto de que as melhores idéias surgem enquanto nos livramos das impurezas inúteis ao nosso organismo, que o cérebro do homem tornou-se muito mais criativo e produtivo. A partir daí, outras grandes invenções e descobertas ocorreram num ritmo bem mais rápido do que no passado.

As ciências em geral, a literatura, as artes cênicas, o cinema, a televisão, enfim, todas as áreas do conhecimento e do entretenimento devem muito ao inventor do vaso sanitário. Aliás, nosso progresso deveria ter esta invenção como um grande divisor de águas. A história das ciências, da literatura e das artes deveria se dividir em dois períodos distintos: o antes e o depois do vaso sanitário.

Outra conseqüência importante do advento destes verdadeiros tronos que adornam nossos toaletes diz respeito às mulheres. Antes obrigadas a fazer exercícios de contorcionismo, depois da criação do "trono" sanitário, elas passaram, diferentemente do homem, a fazer todas as suas necessidades fisiológicas sentadas, pensando na vida, nos destinos da humanidade e nos direitos que lhes eram negados pela sociedade machista. Aliás, acreditamos piamente que a liberação feminina não foi impulsionada nem pela pílula anticoncepcional nem pela invenção da máquina de lavar. A liberação das mulheres, lentamente gestada através dos séculos, teve seus primórdios após a invenção do vaso sanitário. Na segunda metade do século passado, com a invenção da tampa dobrável do "trono" sanitário e a consequente e rica discussão sobre qual a melhor posição para deixar a mesma após o uso, discussão esta que provocou o fim de inúmeros casamentos, muitas mulheres se viram sozinhas, tendo que buscar meios de garantir a própria sobrevivência e a de seus rebentos, o que também favoreceu a emancipação feminina.

Não tivesse Rodin se inspirado nos gregos antigos para criar a sua magnífica obra "O Pensador", certamente teria esculpido seu personagem comodamente sentado numa dessas maravilhosas e utilíssimas peças dos nossos toaletes. Sentados em "tronos" sanitários, grandes homens e grandes mulheres tomaram grandes decisões. Governos caíram, guerras foram vencidas, revoluções foram conspiradas, arcabouços teóricos de ideologias foram arquitetados, segredos do universo foram desvendados e invenções que revolucionaram a vida do ser humano foram brilhantemente projetadas. Sentados nessa verdadeira maravilha do mundo moderno, grandes escritores e dramaturgos elaboraram mentalmente magníficas obras literárias e geniais peças de teatro, que encantaram e levaram milhares de pessoas a profundas e produtivas reflexões. Estas últimas também gestadas, é claro, durante o uso de confortáveis vasos sanitários.

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