Sem dúvida nenhuma, o vaso sanitário foi a invenção
que mais contribuiu para acelerar o progresso do homem. Antes dessa maravilhosa
criação, o ser humano evacuava de cócoras - preocupada
em manter um desconfortável equilíbrio - ou em pé - esta
última a pior das posições porque trazia outra preocupação,
que era a de não emporcalhar as próprias pernas. Quando o homem
começou a usar as confortáveis privadas, cremos, partindo do pressuposto
de que as melhores idéias surgem enquanto nos livramos das impurezas
inúteis ao nosso organismo, que o cérebro do homem tornou-se muito
mais criativo e produtivo. A partir daí, outras grandes invenções
e descobertas ocorreram num ritmo bem mais rápido do que no passado.
As ciências em geral, a literatura, as artes cênicas, o cinema,
a televisão, enfim, todas as áreas do conhecimento e do entretenimento
devem muito ao inventor do vaso sanitário. Aliás, nosso progresso
deveria ter esta invenção como um grande divisor de águas.
A história das ciências, da literatura e das artes deveria se dividir
em dois períodos distintos: o antes e o depois do vaso sanitário.
Outra conseqüência importante do advento destes verdadeiros tronos
que adornam nossos toaletes diz respeito às mulheres. Antes obrigadas
a fazer exercícios de contorcionismo, depois da criação
do "trono" sanitário, elas passaram, diferentemente do homem,
a fazer todas as suas necessidades fisiológicas sentadas, pensando na
vida, nos destinos da humanidade e nos direitos que lhes eram negados pela sociedade
machista. Aliás, acreditamos piamente que a liberação feminina
não foi impulsionada nem pela pílula anticoncepcional nem pela
invenção da máquina de lavar. A liberação
das mulheres, lentamente gestada através dos séculos, teve seus
primórdios após a invenção do vaso sanitário.
Na segunda metade do século passado, com a invenção da
tampa dobrável do "trono" sanitário e a consequente
e rica discussão sobre qual a melhor posição para deixar
a mesma após o uso, discussão esta que provocou o fim de inúmeros
casamentos, muitas mulheres se viram sozinhas, tendo que buscar meios de garantir
a própria sobrevivência e a de seus rebentos, o que também
favoreceu a emancipação feminina.
Não tivesse Rodin se inspirado nos gregos antigos para criar a sua magnífica
obra "O Pensador", certamente teria esculpido seu personagem comodamente
sentado numa dessas maravilhosas e utilíssimas peças dos nossos
toaletes. Sentados em "tronos" sanitários, grandes homens e
grandes mulheres tomaram grandes decisões. Governos caíram, guerras
foram vencidas, revoluções foram conspiradas, arcabouços
teóricos de ideologias foram arquitetados, segredos do universo foram
desvendados e invenções que revolucionaram a vida do ser humano
foram brilhantemente projetadas. Sentados nessa verdadeira maravilha do mundo
moderno, grandes escritores e dramaturgos elaboraram mentalmente magníficas
obras literárias e geniais peças de teatro, que encantaram e levaram
milhares de pessoas a profundas e produtivas reflexões. Estas últimas
também gestadas, é claro, durante o uso de confortáveis
vasos sanitários.