Se as todas as "verdades" contidas nos desabafos de alguns brasileiros
cansados fossem dignas de crédito, pelo menos teríamos como tirar
o peso das nossas responsabilidades e dos nossos fracassos e colocá-lo
em outros ombros. O que seria muito cômodo, mas não muito honesto.
A maioria das reclamações e lamúrias dos cansados não
passam de desabafos de quem não aceitou o passar do tempo e nem os tênues
espasmos de evolução que conquistamos de forma efêmera e
que foram abortados por uma ofensiva relativamente bem sucedida de volta ao
passado.
Não. Não perdemos nada que valesse a pena do nosso "honrado,
glorioso, decente e ético passado", pois, na verdade, quase nada
mudou nas últimas décadas. Não no essencial. E não
venham os aliados do inimigo número um do Piauí colocar em quem
mostrou sua cara, assinou seus textos e manifestos, e sacrificou sua vida tentando
criar um novo mundo a responsabilidade por esse mostrengo gerado por uma síntese
caótica e mal parida do confronto do novo com o velho que se travestiu
de novo. A nossa tristeza, pelo menos a dos brasileiros mais vividos que não
se empenharam em tentar frear a história, não vem da saudade de
um passado horrorizado por duas sangrentas e destrutivas grandes guerras, e
pelo terror de Hiroshima e Nagazaki. Internamente, também não
somos saudosos da ditadura de Getúlio que, além de amargurar a
vida de Graciliano e outros escritores, intelectuais e sindicalistas, presenteou
Olga numa bandeja e prestou grandes serviços a Adolf Hitler, negando
asilo e recambiando para a Europa milhares de refugiados judeus. Nós,
que vivemos algumas décadas a mais, não sentimos falta nem da
repressão depressora da educação ministrada pela família
patriarcal e pela escola tradicional, nem dos porões das delegacias e
dos quartéis abarrotados de presos políticos que foram mortos,
torturados e desaparecidos "pra nunca mais" e nem da corrupção
varrida para debaixo do tapete e acobertada pela imprensa censurada pelas ditaduras
civil e militar. O preconceito racial bem enraizado por séculos de escravidão
negra e a fome e a miséria que sempre assolaram o povo e viveram escondidas
debaixo dos tapetes dos coronéis que dominavam nossa política
e que matavam tudo que se opusesse a seus propósitos também são
realidades concretas do nosso passado que não deixaram saudades..
Ah, o que ficou para trás embaçado pela névoa do tempo!
Belo refúgio esse! Refúgio dos pobres (des?)iludidos homens que,
depois de um bom tempo que a dor se dissipa, apagam-na de seu passado de mentirinha
onde tudo era perfeito, Oh sim, senhores cansados e saudosos da vida, a julgar
por seu discurso temos que concordar que o paraíso às vezes parece
ficar bem próximo da terra dos anos de antanho, dos quais, confesso,
não sentimos a mínima saudade. Sentimos muita falta, isto sim,
do tempo em que as pessoas estudavam mais e procuravam não esquecer a
nossa história, tanto a mais remota quanto a mais recente. Repudiamos
o passado em que muitos amigos ofertaram suas próprias vidas para tentar
mudar este país. E só sofremos porque, no essencial, mudamos tudo
e não mudamos nada. Continua aí, agora com o cheiro forte da poeira
do tempo, a boa e velha podridão da política partidária,
aliada à opressão, à corrupção, ao voto encabrestado,
ao conservadorismo regressista, ao moralismo exacerbado, à educação
que busca cegar ao invés de fazer enxergar e à censura castradora
com roupagem nova que cala a nossa voz e abafa o eco das nossas palavras.
Na verdade, não conseguimos deixar de nutrir certa ojeriza por colocações
muito parecidas com as feitas por aqueles que, por cinzentas décadas
da nossa história recente, omitiram-se e nos proibiram de expressar nossas
opiniões e desenvolver em paz nossos projetos inovadores. Daí,
ser natural certa impaciência nossa com os que não toleram o presente.
Todos os brasileiros têm o direito de se expressar livremente. O que irrita
aos brasileiros velhos de guerra é que muitos dos que, escondidos num
anonimato conveniente, insuflam essa turma de gente cansada, são os mesmos
silenciosos senhores que apoiaram ou até colocaram "a mão
na massa" para torturar e matar as vozes discordantes que supostamente
traziam o caos ao paraíso no qual eles julgavam viver nos tempos de antanho.
Entre os brasileiros cansados tem muita gente boa que está esgotada até
o limite das suas forças, depois de ter lutado em vão durante
décadas para tentar melhorar o Brasil e este mundo mais que caótico
onde vivemos. Mas, infelizmente, misturados a essa gente, caminham com desenvoltura
jovens lobos e velhas raposas que rondam os centros de poder deste país
em busca de carne e sangue frescos e que, se nada for feito para mudar o rumo
que as coisas vêem tomando, com certeza vão nos pisar, usando-nos
como degraus para, depois de se alimentarem da nossa indignação
e da nossa boa-fé, reconstruírem o caos nacional à sua
imagem e semelhança.