A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

Álcool desdobrado

(Luiz Lyrio)

Hoje, depois de mais de quatro décadas de militância política, ora engajado num partido, ora sozinho, tenho que dar o braço a torcer. A política é podre. Alguns políticos dizem que ela é como uma cachaça. Depois que entra, a gente vicia e nunca mais quer largar. Pois bem, se a política é uma cachaça, ela é uma pinga de péssima qualidade. Aquela que os bebedores costumam chamar de "álcool desdobrado".

No Brasil, a luta política é uma espécie de vale-tudo. É uma luta sem regras e sem ética. Criam-se intrigas mentirosas para se comprometer o adversário e cometem-se armações dignas dos piores vilões da ficção. E como aqui se rouba e se frauda muito, basta se jogar um pouco de lama em um sujeito honesto para destruí-lo. Do que se beneficia o pior dos corruptos, que posa de perseguido político e vítima de armações, quando pego com a mão na massa.

A CPI, que alguns julgam ser um instrumento para investigação de falcatruas e negociatas, nada mais é do que um palanque eleitoral de alcance extraordinário, onde a oposição e o governo se atacam mutuamente. Ali não se visa chegar à verdade. A verdade, que respingaria lama para todos os lados, é sempre acobertada e a CPI sempre morre vítima de um grande acordo, frustrando a opinião pública. Na política, muitas vezes, não existem mocinhos. A maioria dos embates é de bandidos contra bandidos.

É triste você ver seu país deixando de evoluir porque aqui se tem o péssimo habito de boicotar e sabotar tudo que quem está no poder procura fazer de bom. Nossos políticos tinham que ter mais amor pelo país e menos paixão pelo poder.

O pior é que os vícios podres dos políticos vão sendo levados para outras instâncias da sociedade, contaminando tudo que tocam. É comum, por exemplo, lotear-se entre os partidos que apoiaram determinada candidatura eleita os vários órgãos do governo. E aí, ai daquele funcionário que, não sendo do partido de quem controla determinada gleba de poder, faz um bom trabalho que começa a aparecer! Suspeito de estar querendo candidatar-se a alguma coisa, o colaborador passa a ser perseguido pela administração partidária e sectária a que serve e de benfeitor transforma-se em vilão. E seus projetos são abandonados ou passados para outra pessoa mais "confiável".

Na minha experiência como educador, tive que desistir de vários projetos por causa disso. A eleição de diretores nas escolas, bandeira que ajudei a levantar com ardor ferrenho, foi motivo de decepção para mim, quando percebi que o nível intelectual e moral de nossos políticos ainda não favoreciam a implantação de tão ousada proposta. Os partidos políticos não perderam a chance de se imiscuir nas eleições dos gestores das escolas, levando consigo para dentro do ambiente escolar todos os seus vícios, venenos e deformações morais. Professores atuantes embarcaram nessa corrente e perderam o respeito por seus colegas. Coisas horríveis foram ditas para as comunidades escolares para se tirar o voto dos profissionais que tinham prestígio junto a elas. A ética profissional foi jogada no lixo e educadores chegaram ao cúmulo de trabalhar contra o avanço de suas escolas, para que algumas conquistas não pudessem ser incorporadas como méritos de determinada administração.

Depois de ver tanta sujeira gerada pela maneira porca como se conduz a política neste país, não desisti de exercer meus direitos de cidadão. Sei que fora da política certos problemas não têm solução. Porém, há muito desisti de convencer quem quer que seja a gostar e a participar da política. Não tenho mais idade nem estômago para assumir missões impossíveis.

Copyright © 1999-2020 - A Garganta da Serpente