Hoje, depois de mais de quatro décadas de militância política,
ora engajado num partido, ora sozinho, tenho que dar o braço a torcer.
A política é podre. Alguns políticos dizem que ela é
como uma cachaça. Depois que entra, a gente vicia e nunca mais quer largar.
Pois bem, se a política é uma cachaça, ela é uma
pinga de péssima qualidade. Aquela que os bebedores costumam chamar de
"álcool desdobrado".
No Brasil, a luta política é uma espécie de vale-tudo.
É uma luta sem regras e sem ética. Criam-se intrigas mentirosas
para se comprometer o adversário e cometem-se armações
dignas dos piores vilões da ficção. E como aqui se rouba
e se frauda muito, basta se jogar um pouco de lama em um sujeito honesto para
destruí-lo. Do que se beneficia o pior dos corruptos, que posa de perseguido
político e vítima de armações, quando pego com a
mão na massa.
A CPI, que alguns julgam ser um instrumento para investigação
de falcatruas e negociatas, nada mais é do que um palanque eleitoral
de alcance extraordinário, onde a oposição e o governo
se atacam mutuamente. Ali não se visa chegar à verdade. A verdade,
que respingaria lama para todos os lados, é sempre acobertada e a CPI
sempre morre vítima de um grande acordo, frustrando a opinião
pública. Na política, muitas vezes, não existem mocinhos.
A maioria dos embates é de bandidos contra bandidos.
É triste você ver seu país deixando de evoluir porque aqui
se tem o péssimo habito de boicotar e sabotar tudo que quem está
no poder procura fazer de bom. Nossos políticos tinham que ter mais amor
pelo país e menos paixão pelo poder.
O pior é que os vícios podres dos políticos vão
sendo levados para outras instâncias da sociedade, contaminando tudo que
tocam. É comum, por exemplo, lotear-se entre os partidos que apoiaram
determinada candidatura eleita os vários órgãos do governo.
E aí, ai daquele funcionário que, não sendo do partido
de quem controla determinada gleba de poder, faz um bom trabalho que começa
a aparecer! Suspeito de estar querendo candidatar-se a alguma coisa, o colaborador
passa a ser perseguido pela administração partidária e
sectária a que serve e de benfeitor transforma-se em vilão. E
seus projetos são abandonados ou passados para outra pessoa mais "confiável".
Na minha experiência como educador, tive que desistir de vários
projetos por causa disso. A eleição de diretores nas escolas,
bandeira que ajudei a levantar com ardor ferrenho, foi motivo de decepção
para mim, quando percebi que o nível intelectual e moral de nossos políticos
ainda não favoreciam a implantação de tão ousada
proposta. Os partidos políticos não perderam a chance de se imiscuir
nas eleições dos gestores das escolas, levando consigo para dentro
do ambiente escolar todos os seus vícios, venenos e deformações
morais. Professores atuantes embarcaram nessa corrente e perderam o respeito
por seus colegas. Coisas horríveis foram ditas para as comunidades escolares
para se tirar o voto dos profissionais que tinham prestígio junto a elas.
A ética profissional foi jogada no lixo e educadores chegaram ao cúmulo
de trabalhar contra o avanço de suas escolas, para que algumas conquistas
não pudessem ser incorporadas como méritos de determinada administração.
Depois de ver tanta sujeira gerada pela maneira porca como se conduz a política
neste país, não desisti de exercer meus direitos de cidadão.
Sei que fora da política certos problemas não têm solução.
Porém, há muito desisti de convencer quem quer que seja a gostar
e a participar da política. Não tenho mais idade nem estômago
para assumir missões impossíveis.