Estavam certos os profetas que previam o início de uma nova era para
a humanidade. Também os anunciantes do Apocalipse, enquanto o fim de
um mundo e o início de outro, estavam cobertos de razão. Inútil
foi o esforço daqueles que tentaram frear a História. Inútil
foi a obra daqueles que, ao resgatarem, renomearem e darem novas roupagens a
valores ultrapassados, tentaram conduzir a humanidade na direção
de um retorno ao passado. Dignos de pena são aqueles que insistem em
tentar fechar os olhos da raça humana para as grandes transformações
pelas quais passará o nosso planeta nos próximos anos.
O início do século XXI - só não vê quem não
quer - desvendou e desmoralizou certos mitos sobre e criados pelo ser humano
que, durante milênios, nos guiaram por um caminho tortuoso que só
nos levaria ao ponto em que chegamos no momento, ou seja, a um ponto de impasse
que exige de nós mudanças radicais. E, a cada dia que passa, nossas
alternativas de escolha se afunilam. Ou caminhamos por determinado rumo, orientados
por determinados valores, ou caminhamos direto para a nossa extinção
na face da Terra.
Quanto mais o tempo passa, fica mais claro que não basta acreditar em
utopias para se mudar o mundo. As utopias são importantes. É a
partir delas que abrimos novas possibilidades de transformação.
É a partir delas que começamos a trilhar um novo caminho No entanto,
está provado: enquanto enxergarmos as utopias como fins em si mesmas
e não como meios de corrigir nossa rota em direção à
nossa autodestruição, elas só nos trarão decepções
e um desânimo generalizado e fatalista.
Afinal, guardadas as devidas proporções de tempo, espaço
e nível de desenvolvimento tecnológico, inclusive daquela tecnologia
que determina uma maior ou menor capacidade de eliminarmos em massa nossos semelhantes,
o que distingue a caçada aos judeus promovida pelos nazistas no século
passado das matanças promovidas pelo comunismo, imposto a ferro e fogo
no leste europeu e na intercontinental União Soviética? O que
torna diferente de outras ideologias impostas através do genocídio
e do totalitarismo o capitalismo selvagem que hoje garante, à custa de
muito sangue, intolerância e da miséria de milhões, o predomínio
econômico, bélico e ideológico dos países ricos que
se arvoram a serem donos do planeta?
Chegamos a acreditar que, com a suposta falência do comunismo, extinguia-se
o conflito de interesses entre as classes. Um historiador nipo-ianque e mais
alguns imbecis que seguiram sua trilha chegaram, inclusive, a decretar o fim
da História. Estudiosos da evolução humana, principalmente
economistas e cientistas políticos, acostumados, ao longo dos últimos
séculos, a pesquisarem menos do que seguir os modismos ideológicos
na ordem do dia no mundo acadêmico, chegaram a nos fazer acreditar que,
agora, o capitalismo não tinha mais adversários. Aboliu-se, de
forma forçada e inconsistente, inclusive, o conceito de direita e esquerda.
A continuidade de partidos fortes ideologicamente voltados para a esquerda na
América Latina, por exemplo, passou a ser vista como coisa de países
atrasados de terceiro mundo que "caminhavam na contramão da História".
E, tentando ridicularizar aqueles que ainda acreditavam num mundo onde a riqueza
seria mais bem distribuída e onde a justiça social não
seria mais apenas um item de programa de campanha eleitoral para enganar as
massas, nossos grandes entendidos em política, principalmente os comentaristas
da grande imprensa, foram pegos com as calças nas mãos quando
a América Latina passou a ser governada por líderes antes tidos
como representantes de ideologias falidas.
Porém, isto não foi o pior a vir tirar o sono dos que se julgavam
especialistas e grandes analistas políticos e econômicos. Antes,
os atentados de 11 de setembro tiveram como único mérito talvez
calar a boca daqueles que tentavam nos entorpecer, através da crença
no fim da História. A grave ferida no coração da mais poderosa
nação do mundo capitalista mostrou que existiam outros mundos
diferentes deste que a civilização ocidental cristã julgara
ter terminado de construir. Enquanto, nos países onde o comunismo fracassou,
reviviam-se rivalidades étnicas e religiosas por décadas adormecidas,
o mundo muçulmano nos dava o sinal de que milhões de pessoas,
juntamente com outro um bilhão de chineses e alguns atrevidos povos como
o que habita a ilha de Cuba, estavam dispostos a defender o que nós,
acovardados aliados caninamente fiéis aos donos do mundo, abrimos mão
de defender: a sua soberania e o direito de serem donos dos seus próprios
destinos.
Enquanto nós, brasileiros, além de termos que nos conformar, apesar
de entregarmos o poder central do país a um partido de esquerda, em assistir
este partido dar uma forte guinada à direita, aderindo, inclusive, ao
velho hábito da direita de se apropriar de forma irregular do dinheiro
público, o mundo recebeu mais um sinal dos tempos terríveis que
estão por vir. Agora, é a natureza que nos dá sinais das
conseqüências nefastas da ganância praticada pelos donos do
mundo.
Edward O. Wilson, um biólogo norte-americano de renome, fala no "perigo
real, cada vez mais imediato, para a sobrevivência de nós mesmos,
que podemos ser arrastados num paroxismo de autodestruição, levando
conosco as formas mais complexas de vida". "Propaga-se (...) a noção
de que está em curso a sexta extinção em massa. (...) A
maior aconteceu há 250 milhões de anos: a mais conhecida, a que
extinguiu os dinossauros há 65 milhões.(...) O aquecimento global
tampouco é apenas uma hipótese no horizonte do médio prazo.
Todas as grandes geleiras do planeta vêm diminuindo, os oceanos estão
se tornando mais quentes, animais mudam suas rotas migratórias. A diferença
de temperatura entre o dia e a noite cai. Os níveis de dióxido
de carbono são os mais altos dos últimos 420 000 anos". (...)
"Acredito que as chances de nossa civilização na Terra sobreviver
até o fim do século presente não passam de 50%", escreve
o cientista inglês Martin
Rees". E ele prossegue: "As mudanças globais - poluição,
perda de diversidade, aquecimento global - não têm precedentes
em sua velocidade. Ainda que o aquecimento global aconteça na ponta mais
lenta do espectro provável, suas conseqüências - competição
por suprimentos de água e migrações em ampla escala - podem
engendrar tensões desencadeadoras de conflitos internacionais e regionais
(...)"". A escassez da água, bem tão essencial para
a preservação da vida, anuncia-se como um tormento futuro que
pode provocar mais guerras e sofrimento no mundo. Setenta por cento da superfície
do planeta é coberta por água, mas só 1% dela é
próprio para o consumo humano. "Mantidos os atuais níveis
de consumo, estima-se que em 2050 dois quartos da humanidade viverão
em regiões premidas pela falta crônica de recursos hídricos
de qualidade".
Aliado a tudo o que foi exposto até agora é importante salientar
ainda que "para os vírus e as bactérias, a destruição
da natureza e a vida moderna formam o cenário perfeito de proliferarão.
(...) Ao romper o equilíbrio ecológico de uma região, o
homem recebe o troco e se torna alvo de um agente infeccioso. Mas não
só o desmatamento ou a invasão das florestas propiciam a propagação
de doenças. O aquecimento global, por exemplo, favorece a propagação
de doenças, como a dengue e a malária. (...) Outro fator é
a poluição das águas. O despejo de detritos diretamente
nos rios, sejam eles químicos ou humanos, é responsável
pela morte de 3 milhões de pessoas todos os anos, vítimas da cólera.
Além de aumentar a incidência de algumas velhas doenças,
a destruição do meio ambiente traz à tona moléstias
desconhecidas, chamadas 'emergentes". Desde 1976, foram descobertos pelo
menos trinta novos micróbios - o HIV e o Ebola estão entre os
mais famosos. (...) "Atualmente a Terras é um caldeirão de
infecções", diz o infectologista Luiz Jacinto da Silva (...)".
Neste ponto, é importante ressaltar que todas as citações
entre aspas que foram incluídas neste texto não foram tiradas
de nenhum panfleto de algum alarmista partido verde ou de alguma radical organização
não governamental. Todas estas citações foram extraídas
da revista VEJA (edição1926), que pratica sistematicamente um
jornalismo de direita, defensor incondicional do capitalismo e da política
imperialista praticada pelos atuais donos do mundo. O que nos obriga a entregar
os pontos e concordar com os "grandes analistas" políticos.
Os embates entre esquerda e direita, pelo menos momentaneamente, não
fazem mais sentido . O mais urgente agora é salvar a humanidade da extinção.
Tirando meia dúzia de estúpidos, porém poderosos líderes,
como Mr Bush por exemplo, todo o mundo concorda com a emergência de ações
globais para manter o planeta em condições compatíveis
com a sobrevivência da raça humana.
Ao longo das últimas décadas, o lema criado pelos hippies "paz
e amor" virou motivo de chacota em todo o mundo. Entretanto, parece que
este lema aponta para nós o único caminho possível para
a salvação da humanidade. Precisamos de paz para concentrarmos
recursos e esforços na solução dos grandes problemas que
ameaçam a vida humana no planeta. Precisamos de amor para, através
dele, aprendermos a respeitar nossos semelhantes e também aqueles que
parecem não se assemelhar a nós por abraçarem crenças
e valores diferentes dos nossos. Necessitamos tornar possível uma união
mundial em prol da eliminação da possibilidade do fim do (nosso)
mundo que, a não serem tomadas medidas drásticas e urgentes, se
anuncia próximo. O sonho totalitário, acalentado hoje principalmente
pelos chamados países ricos liderados pelos EUA, de termos um planeta
com sua história finda pela supremacia de um sistema econômico,
político e ideológico único e "perfeito" terá
que esperar. Deus queira que até o fim dos tempos...