A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Nova era ou fim dos tempos - eis a questão

(Luiz Lyrio)

Estavam certos os profetas que previam o início de uma nova era para a humanidade. Também os anunciantes do Apocalipse, enquanto o fim de um mundo e o início de outro, estavam cobertos de razão. Inútil foi o esforço daqueles que tentaram frear a História. Inútil foi a obra daqueles que, ao resgatarem, renomearem e darem novas roupagens a valores ultrapassados, tentaram conduzir a humanidade na direção de um retorno ao passado. Dignos de pena são aqueles que insistem em tentar fechar os olhos da raça humana para as grandes transformações pelas quais passará o nosso planeta nos próximos anos.

O início do século XXI - só não vê quem não quer - desvendou e desmoralizou certos mitos sobre e criados pelo ser humano que, durante milênios, nos guiaram por um caminho tortuoso que só nos levaria ao ponto em que chegamos no momento, ou seja, a um ponto de impasse que exige de nós mudanças radicais. E, a cada dia que passa, nossas alternativas de escolha se afunilam. Ou caminhamos por determinado rumo, orientados por determinados valores, ou caminhamos direto para a nossa extinção na face da Terra.

Quanto mais o tempo passa, fica mais claro que não basta acreditar em utopias para se mudar o mundo. As utopias são importantes. É a partir delas que abrimos novas possibilidades de transformação. É a partir delas que começamos a trilhar um novo caminho No entanto, está provado: enquanto enxergarmos as utopias como fins em si mesmas e não como meios de corrigir nossa rota em direção à nossa autodestruição, elas só nos trarão decepções e um desânimo generalizado e fatalista.

Afinal, guardadas as devidas proporções de tempo, espaço e nível de desenvolvimento tecnológico, inclusive daquela tecnologia que determina uma maior ou menor capacidade de eliminarmos em massa nossos semelhantes, o que distingue a caçada aos judeus promovida pelos nazistas no século passado das matanças promovidas pelo comunismo, imposto a ferro e fogo no leste europeu e na intercontinental União Soviética? O que torna diferente de outras ideologias impostas através do genocídio e do totalitarismo o capitalismo selvagem que hoje garante, à custa de muito sangue, intolerância e da miséria de milhões, o predomínio econômico, bélico e ideológico dos países ricos que se arvoram a serem donos do planeta?

Chegamos a acreditar que, com a suposta falência do comunismo, extinguia-se o conflito de interesses entre as classes. Um historiador nipo-ianque e mais alguns imbecis que seguiram sua trilha chegaram, inclusive, a decretar o fim da História. Estudiosos da evolução humana, principalmente economistas e cientistas políticos, acostumados, ao longo dos últimos séculos, a pesquisarem menos do que seguir os modismos ideológicos na ordem do dia no mundo acadêmico, chegaram a nos fazer acreditar que, agora, o capitalismo não tinha mais adversários. Aboliu-se, de forma forçada e inconsistente, inclusive, o conceito de direita e esquerda. A continuidade de partidos fortes ideologicamente voltados para a esquerda na América Latina, por exemplo, passou a ser vista como coisa de países atrasados de terceiro mundo que "caminhavam na contramão da História". E, tentando ridicularizar aqueles que ainda acreditavam num mundo onde a riqueza seria mais bem distribuída e onde a justiça social não seria mais apenas um item de programa de campanha eleitoral para enganar as massas, nossos grandes entendidos em política, principalmente os comentaristas da grande imprensa, foram pegos com as calças nas mãos quando a América Latina passou a ser governada por líderes antes tidos como representantes de ideologias falidas.

Porém, isto não foi o pior a vir tirar o sono dos que se julgavam especialistas e grandes analistas políticos e econômicos. Antes, os atentados de 11 de setembro tiveram como único mérito talvez calar a boca daqueles que tentavam nos entorpecer, através da crença no fim da História. A grave ferida no coração da mais poderosa nação do mundo capitalista mostrou que existiam outros mundos diferentes deste que a civilização ocidental cristã julgara ter terminado de construir. Enquanto, nos países onde o comunismo fracassou, reviviam-se rivalidades étnicas e religiosas por décadas adormecidas, o mundo muçulmano nos dava o sinal de que milhões de pessoas, juntamente com outro um bilhão de chineses e alguns atrevidos povos como o que habita a ilha de Cuba, estavam dispostos a defender o que nós, acovardados aliados caninamente fiéis aos donos do mundo, abrimos mão de defender: a sua soberania e o direito de serem donos dos seus próprios destinos.

Enquanto nós, brasileiros, além de termos que nos conformar, apesar de entregarmos o poder central do país a um partido de esquerda, em assistir este partido dar uma forte guinada à direita, aderindo, inclusive, ao velho hábito da direita de se apropriar de forma irregular do dinheiro público, o mundo recebeu mais um sinal dos tempos terríveis que estão por vir. Agora, é a natureza que nos dá sinais das conseqüências nefastas da ganância praticada pelos donos do mundo.

Edward O. Wilson, um biólogo norte-americano de renome, fala no "perigo real, cada vez mais imediato, para a sobrevivência de nós mesmos, que podemos ser arrastados num paroxismo de autodestruição, levando conosco as formas mais complexas de vida". "Propaga-se (...) a noção de que está em curso a sexta extinção em massa. (...) A maior aconteceu há 250 milhões de anos: a mais conhecida, a que extinguiu os dinossauros há 65 milhões.(...) O aquecimento global tampouco é apenas uma hipótese no horizonte do médio prazo. Todas as grandes geleiras do planeta vêm diminuindo, os oceanos estão se tornando mais quentes, animais mudam suas rotas migratórias. A diferença de temperatura entre o dia e a noite cai. Os níveis de dióxido de carbono são os mais altos dos últimos 420 000 anos". (...) "Acredito que as chances de nossa civilização na Terra sobreviver até o fim do século presente não passam de 50%", escreve o cientista inglês Martin

Rees". E ele prossegue: "As mudanças globais - poluição, perda de diversidade, aquecimento global - não têm precedentes em sua velocidade. Ainda que o aquecimento global aconteça na ponta mais lenta do espectro provável, suas conseqüências - competição por suprimentos de água e migrações em ampla escala - podem engendrar tensões desencadeadoras de conflitos internacionais e regionais (...)"". A escassez da água, bem tão essencial para a preservação da vida, anuncia-se como um tormento futuro que pode provocar mais guerras e sofrimento no mundo. Setenta por cento da superfície do planeta é coberta por água, mas só 1% dela é próprio para o consumo humano. "Mantidos os atuais níveis de consumo, estima-se que em 2050 dois quartos da humanidade viverão em regiões premidas pela falta crônica de recursos hídricos de qualidade".

Aliado a tudo o que foi exposto até agora é importante salientar ainda que "para os vírus e as bactérias, a destruição da natureza e a vida moderna formam o cenário perfeito de proliferarão. (...) Ao romper o equilíbrio ecológico de uma região, o homem recebe o troco e se torna alvo de um agente infeccioso. Mas não só o desmatamento ou a invasão das florestas propiciam a propagação de doenças. O aquecimento global, por exemplo, favorece a propagação de doenças, como a dengue e a malária. (...) Outro fator é a poluição das águas. O despejo de detritos diretamente nos rios, sejam eles químicos ou humanos, é responsável pela morte de 3 milhões de pessoas todos os anos, vítimas da cólera. Além de aumentar a incidência de algumas velhas doenças, a destruição do meio ambiente traz à tona moléstias desconhecidas, chamadas 'emergentes". Desde 1976, foram descobertos pelo menos trinta novos micróbios - o HIV e o Ebola estão entre os mais famosos. (...) "Atualmente a Terras é um caldeirão de infecções", diz o infectologista Luiz Jacinto da Silva (...)".

Neste ponto, é importante ressaltar que todas as citações entre aspas que foram incluídas neste texto não foram tiradas de nenhum panfleto de algum alarmista partido verde ou de alguma radical organização não governamental. Todas estas citações foram extraídas da revista VEJA (edição1926), que pratica sistematicamente um jornalismo de direita, defensor incondicional do capitalismo e da política imperialista praticada pelos atuais donos do mundo. O que nos obriga a entregar os pontos e concordar com os "grandes analistas" políticos. Os embates entre esquerda e direita, pelo menos momentaneamente, não fazem mais sentido . O mais urgente agora é salvar a humanidade da extinção. Tirando meia dúzia de estúpidos, porém poderosos líderes, como Mr Bush por exemplo, todo o mundo concorda com a emergência de ações globais para manter o planeta em condições compatíveis com a sobrevivência da raça humana.

Ao longo das últimas décadas, o lema criado pelos hippies "paz e amor" virou motivo de chacota em todo o mundo. Entretanto, parece que este lema aponta para nós o único caminho possível para a salvação da humanidade. Precisamos de paz para concentrarmos recursos e esforços na solução dos grandes problemas que ameaçam a vida humana no planeta. Precisamos de amor para, através dele, aprendermos a respeitar nossos semelhantes e também aqueles que parecem não se assemelhar a nós por abraçarem crenças e valores diferentes dos nossos. Necessitamos tornar possível uma união mundial em prol da eliminação da possibilidade do fim do (nosso) mundo que, a não serem tomadas medidas drásticas e urgentes, se anuncia próximo. O sonho totalitário, acalentado hoje principalmente pelos chamados países ricos liderados pelos EUA, de termos um planeta com sua história finda pela supremacia de um sistema econômico, político e ideológico único e "perfeito" terá que esperar. Deus queira que até o fim dos tempos...

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