A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

Independência e vida!

(Luiz Lyrio)

Em pleno século XXI, nós, professores da rede pública, continuamos recebendo uma miséria, enquanto as condições de trabalho nas escolas continuam péssimas. Nossos poderosos chefões mudam, mas sua política prejudicial ao professor continua a mesmo. Constantemente, somos vítimas de calotes, atrasos de pagamentos de direitos e somos prejudicados pelos malditos planos de carreira fajutos que só visam economizar para o governo e exigir mais do pobre professor.

Para piorar ainda mais a nossa situação, recentemente foram criadas normas absurdas para conceder (leia-se "negar") licenças médicas, fazendo de tudo para tomar o dinheiro dos professores que adoecem. Devido a esta nova política, colocada em prática por um pessoal "mui amigo" que trabalha no Maletta, acabo de decretar minha independência. Após 33 anos de servidão pública, aos 57 anos, decidi: irei trabalhar somente nos dias em que estiver com a saúde cem por cento em ordem. Sofro de Esofagite, Enfisema Pulmonar, Hipertensão, Depressão, Insônia, Artrose nos dois joelhos, Labirintite, tenho um desgaste na cabeça do Fêmur direito e do lado esquerdo tenho uma prótese de platina que provocam fortes dores na Bacia, sofro de Hipotireoidismo e, em maio, fui acometido por forte dor de cabeça, acompanhada de náusea e perda temporária da memória. Segundo o médico que me atendeu no Serviço de Urgência da Previdência, tais sintomas teriam sido conseqüências de Atrofia Cerebral. Consultei outros médicos que descartaram o diagnóstico inicial, mas nunca souberam explicar direito o que tenho. Atualmente, tenho dores de cabeça constantes, que "curo" com remédios para enxaqueca.

Trabalho, em desvio de função, na biblioteca da Escola Estadual Tancredo Neves que, constantemente, é freqüentada por alunos mal educados e agressivos que não respeitam ninguém. Ao longo da minha carreira, cansei de ver colegas enfrentando alunos e sendo ameaçados de morte. Em mesmo já sofri duas ameaças e, inclusive, alguns colegas meus já foram assassinados no exercício da profissão. Dia 12, pedi um pouco de ordem na Biblioteca para um grupo de baderneiros e tive como resposta uma ordem de um aluno para fazer uma coisa que absolutamente não gosto de fazer, uma vez que nunca tive tendências para práticas homossexuais. Quando brigo com alguém, sinto uma dormência na cabeça, falta de ar e meu coração dispara. Assim, quando, após a ofensa do aluno o sangue me subiu à cabeça, abandonei a biblioteca, entreguei a chave para a secretária da escola e fui para casa me deitar um pouco. Consultei o médico que trata de mim há três anos e ele me deu uma licença até o dia 22 de dezembro.

Ontem, fui ao Maletta, lá no quarto andar, onde trabalha aquele bando de "colegas nossos mui amigos", e fui atendido por uma médica perita arrogante e metida a besta, que, testemunhei, destratou a acompanhante de uma paciente, negou-me a licença concedida por meu médico e mandou-me retornar ao trabalho. Tudo isso no mais tradicional modo de atender dos médicos do Maletta: sem tocar em mim ou, pelo menos, tirar a pressão ou coisa parecida. Tudo baseado no "olhômetro" e num interrogatório policialesco. Só faltou, ao final da consulta, a jovem perita mal humorada e mal educada virar para mim e dizer: "Te peguei, meliante! Sua licença está negada!".

Pensei em recorrer, pedir nova perícia, etc. Mas desisti. Não quero mais mexer com isso. È uma trabalheira danada. E para que? Para garantir uma mixaria no próximo contracheque? O governador que pegue este dinheiro e faça bom proveito dele. Quem sabe ele não será útil par pagar o novo aumento dos deputados?

Copyright © 1999-2020 - A Garganta da Serpente