O mundo, hoje, é dominado por traficantes de drogas, assassinos profissionais, torturadores oficiais e extra-oficiais, policiais corruptos e assassinos, soldados especializados em atirar bombas, mísseis e balas em
mulheres, velhos, crianças, pacifistas, repórteres, emissários
da ONU e homens de boa-vontade que só querem a paz, terroristas que não
escolhem suas vítimas, políticos corruptos, autoridades que abusam
de seu poder oprimindo seus semelhantes, enfim, gente que veio ao mundo com o
único propósito de nos mostrar como deve ser o inferno, se é
que ele existe fora deste plano. Para mim, pelo menos, ele é aqui mesmo.
Não concordo, entretanto, com o velho rotulo "inocentes", dado
àqueles que tombam vítimas das crueldades dos demônios bem
humanos que povoam o nosso mundo, construindo o nosso inferno na Terra.
Na verdade, poucos são aqueles que merecem tão honrosa qualificação.
A maioria de nós não é "inocente". É com
o dinheiro que damos para os nossos filhos, sem tomar conhecimento de onde e com
quem eles andam que se financia o tráfico de drogas. É com o dinheiro
dos nossos impostos que se paga a polícia corrupta que mata e tortura,
que se financia os exércitos que espalham o terror pelo mundo. É
com o nosso dinheiro que se financia as religiões, cuja única função
é acomodar as pessoas e torná-las obedientes aos criminosos que
comandam o mundo. Querem mais? Pois vamos lá. É do nosso descaso
diante do direito do voto e da nossa omissão diante dos erros dos governantes
que NÓS elegemos que nasce a miséria, a fome e todos os males tão
bem citados por Brecht no seu "O Analfabeto Político" e aos quais
eu acrescentaria o Terrorista fanático que "pensa" que, explodindo
junto com criancinhas, as únicas inocentes em toda essa história,
vai conquistar o paraíso.
Enfim, poucos são os inocentes nesse mundo do século XXI. Os omissos,
os obedientes, os pacíficos que se calam diante das injustiças,
os que se julgam fracos e se calam diante do que vêem e do que ouvem, os
que, em nome do exercício da profissão, cometem crimes "cumprindo
ordens" ou não evitam o mal, quando cometido fora de "sua área
de jurisdição" ou de seu horário de serviço,
os que, diante do mal cometido contra seu próximo, silenciam, alegando
não terem "nada com isso", os que omitem socorro para evitarem
complicações, os que protegem criminosos seus amigos, enfim, todos
os cúmplices, covardes e
omissos do mundo não são inocentes. Quando se tornam vítimas,
apenas estão colhendo o que ajudaram a plantar. A estes, como diriam os
poetas do século passado, "quando a desgraça bater à
sua porta", só poderemos desejar que descansem em paz.
Deus não poderá cuidar deles e estarão perdendo seu tempo aqueles que orarem por eles, já que, diante de tanta desgraça fabricada pelo homem, o Criador, certamente, terá que usar seu precioso e escasso tempo para cuidar das únicas inocentes em toda esta história, aquelas que Ele chamou a si e que, a todo momento, tombam vítimas de balas perdidas, de mísseis criminosos, de explosões de homens-bombas enlouquecidos, de motoristas tresloucados, de tiros de policiais apavorados e ensandecidos, da fome amiga íntima da morte, de pais aliados do mal, de mães sem coração, de estupradores sem alma, de cães ferozes de raças nascidas para matar e de políticos irresponsáveis que as carregam no colo para ganhar votos e, depois, se esquecem que elas existem.