A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Nós, os "Inocentes"

(Luiz Lyrio)

O mundo, hoje, é dominado por traficantes de drogas, assassinos profissionais, torturadores oficiais e extra-oficiais, policiais corruptos e assassinos, soldados especializados em atirar bombas, mísseis e balas em mulheres, velhos, crianças, pacifistas, repórteres, emissários da ONU e homens de boa-vontade que só querem a paz, terroristas que não escolhem suas vítimas, políticos corruptos, autoridades que abusam de seu poder oprimindo seus semelhantes, enfim, gente que veio ao mundo com o único propósito de nos mostrar como deve ser o inferno, se é que ele existe fora deste plano. Para mim, pelo menos, ele é aqui mesmo.

Não concordo, entretanto, com o velho rotulo "inocentes", dado àqueles que tombam vítimas das crueldades dos demônios bem humanos que povoam o nosso mundo, construindo o nosso inferno na Terra.
Na verdade, poucos são aqueles que merecem tão honrosa qualificação. A maioria de nós não é "inocente". É com o dinheiro que damos para os nossos filhos, sem tomar conhecimento de onde e com quem eles andam que se financia o tráfico de drogas. É com o dinheiro dos nossos impostos que se paga a polícia corrupta que mata e tortura, que se financia os exércitos que espalham o terror pelo mundo. É com o nosso dinheiro que se financia as religiões, cuja única função é acomodar as pessoas e torná-las obedientes aos criminosos que comandam o mundo. Querem mais? Pois vamos lá. É do nosso descaso diante do direito do voto e da nossa omissão diante dos erros dos governantes que NÓS elegemos que nasce a miséria, a fome e todos os males tão bem citados por Brecht no seu "O Analfabeto Político" e aos quais eu acrescentaria o Terrorista fanático que "pensa" que, explodindo junto com criancinhas, as únicas inocentes em toda essa história, vai conquistar o paraíso.

Enfim, poucos são os inocentes nesse mundo do século XXI. Os omissos, os obedientes, os pacíficos que se calam diante das injustiças, os que se julgam fracos e se calam diante do que vêem e do que ouvem, os que, em nome do exercício da profissão, cometem crimes "cumprindo ordens" ou não evitam o mal, quando cometido fora de "sua área de jurisdição" ou de seu horário de serviço, os que, diante do mal cometido contra seu próximo, silenciam, alegando não terem "nada com isso", os que omitem socorro para evitarem complicações, os que protegem criminosos seus amigos, enfim, todos os cúmplices, covardes e
omissos do mundo não são inocentes. Quando se tornam vítimas, apenas estão colhendo o que ajudaram a plantar. A estes, como diriam os poetas do século passado, "quando a desgraça bater à sua porta", só poderemos desejar que descansem em paz.

Deus não poderá cuidar deles e estarão perdendo seu tempo aqueles que orarem por eles, já que, diante de tanta desgraça fabricada pelo homem, o Criador, certamente, terá que usar seu precioso e escasso tempo para cuidar das únicas inocentes em toda esta história, aquelas que Ele chamou a si e que, a todo momento, tombam vítimas de balas perdidas, de mísseis criminosos, de explosões de homens-bombas enlouquecidos, de motoristas tresloucados, de tiros de policiais apavorados e ensandecidos, da fome amiga íntima da morte, de pais aliados do mal, de mães sem coração, de estupradores sem alma, de cães ferozes de raças nascidas para matar e de políticos irresponsáveis que as carregam no colo para ganhar votos e, depois, se esquecem que elas existem.

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